Acho que poucas coisas despertam mais a saudade da infância, principalmente para quem foi criado no interior, do que as festas juninas. Há muito tempo que não participo de uma delas, mas é muito comum que, nesta época, um fim de tarde qualquer nos surpreenda com um cheiro de fogueira, de pinhão cozido, o som distante de uma quadrilha (nada a ver com o cotidiano de Brasília) e, ainda mais raramente, com a imagem um garotinho cruzando a rua de chapéu de palha e um bigodinho de carvão desenhado pela mãe. Normalmente ele segue de cara amarrada, talvez se perguntando como aquela imagem ingênua e folclórica de um caipirinha ainda pode se encaixar entre os concretos desta cidade. Mas eu ainda acho mais comovente observá-los de jeca-tatu do que fantasiados de bruxas e gnomos de um halloween que não desce pela garganta de ninguém.
As festas juninas nunca foram um mistério para a minha infância porque, desde o início do ano, quando meu pai aparecia em casa com a folhinha ganha de brinde na farmácia ou no mercado, a gente já ficava sabendo direitinho quando seria o carnaval, a páscoa, o dia de São João. Mas o que movimentava mesmo a vida da molecada do bairro, ah, isso a folhinha não trazia. Eram as épocas. Provavelmente hoje chamaríamos de temporadas, mas na infância chamávamos de épocas...Época dos papagaios, de rodar o peão, dos carrinhos de rolimã, das bolinhas de gude, dos jogos de taco e outras brincadeiras das quais já devo ter me esquecido.
Até hoje, aquelas práticas sazonais ainda me deixam muito intrigado. Quem avisava os moleques do bairro que, em determinada manhã, todos deveriam correr à papelaria e comprar folhas de papel-manteiga e varinhas de bambu para fabricar papagaios na mesa da cozinha? Como todos sabiam que, num sábado qualquer, teríamos de sair às ruas com nossos saquinhos de bolinhas de gude cheios até a boca? Quem nos alertava sobre a importância fundamental de guardar as latinhas de massa de tomate porque, no dia seguinte, eles seriam convertidas em aparelhinhos de telefone ligados por um barbante branco? Era como se todos nós, os meninos da rua, obedecêssemos a um misterioso ciclo da natureza, o mesmo que obriga as cigarras a cantar, as formigas a trabalhar e as fêmeas a tosar o próprio pêlo com a boca para aninhar os filhotinhos que estão chegando.
Ninguém nos avisava de nada, mas cada moleque, no seu íntimo, sabia muito bem em que época do ano ele devia sair de casa já com as bolinhas, os papagaios, os carrinhos, os peões ou a lenha para as fogueiras na rua. Ninguém errava, ninguém descumpria aquele contrato firmado sabe-se lá com quem. O certo é que da mesma maneira que as épocas começavam subitamente, mais subitamente ainda elas desapareciam. Uma bela tarde, a gente voltava para casa e, novamente sem que ninguém nos instruísse, íamos silenciosamente guardar o papagaio no fundo de uma gaveta qualquer, pois no dia seguinte eles não riscariam mais o céu. A nova manhã traria as bolinhas, ou os carrinhos de rolimã ou as latinhas de massa de tomate. E era assim que os nossos dias e semanas eram contados, e era assim que a nossa infância corria, entre uma brincadeira e outra. E foi assim também que, em algum dia sem que ninguém mostrasse qual, as ruas amanheceram vazias. Nós, que durante anos inconscientemente combinamos todas as brincadeiras de infância, devemos ter concordado também que, na manhã do dia seguinte, já de alguma forma maduros, guardaríamos nossa infância dentro de uma gaveta qualquer e que, em função disso, sairíamos às ruas para outros compromissos que também traziam alguma coisa em comum: o poder de enviar cada um de nós para um canto diferente da vida. Para todo o sempre.
terça-feira, junho 12, 2007
segunda-feira, junho 11, 2007
3,5 milhões na Parada. Mas isso é o de menos.
Os sites e as emissoras de tevê afirmam, neste final de noite de domingo, que a Parada do Orgulho Gay bateu um novo recorde: 3,5 milhões de pessoas teriam passado pela Paulista. E algumas delas ainda continuavam por lá, por volta da meia-noite, aprisionadas ou pelo excesso de álcool ou por uma singela tentativa de prolongar por mais alguns instantes aquela misteriosa euforia que invade uma avenida que na maior parte do ano se mostra cinza e sisuda. Se os cálculos dos organizadores e da Polícia Militar estiverem corretos, a parada acaba de bater um novo recorde de público, o que já não é mais novidade.
Embora os números sejam essenciais para desenhar as proporções gigantescas que a parada vem assumindo ano após ano, mais importante que eles, sem dúvida, é esta espécie de democracia social, racial e sexual que a parada parece promover. Dizem que no Rio a praia iguala os pobres e ricos. Aqui, ao que parece, esta nobre missão cabe à Parada do Orgulho Gay. Por uma única tarde durante o ano, o mais importante corredor financeiro do País se converte em um cenário de fábula de gente grande, um território onde aparentemente cabe quase tudo: dança, música, porre, beijo na boca, fantasias, carros de som que no lugar de anúncio de greves pulverizam a avenida com batidas eletrônicas, namoricos, paqueras, aplausos, vaias, sorrisos e uma infinidade de outras manifestações que em nada lembram o cotidiano de uma região movida por números, cifras e senhas. É como se a avenida tirasse férias de si mesma por um dia e fosse ela, a própria Paulista, a foliã mais animada entre os seus 3,5 milhões de convivas.
O grande barato da Parada é seu poder de implodir a tirania de um padrão estético que domina o mundo gay no resto do ano - um mundo em que só têm vez aqueles que não chegaram aos 30 anos e que exibem, nas etiquetas das roupas e na circunferência da barriguinha sarada, uma espécie de atestado de que seu tempo foi meticulosamente dividido entre as academias e as lojas da Oscar Freire. A parada é o momento em que as muitas gordurinhas de fora sacodem alegremente ao som de It's raining man, é o lugar em que as cuecas não precisam ser Calvin Klein, em que os dorsos masculinos não precisam lembrar cascos de tartaruga, em que os bonés podem ter sido financiados por um candidato a deputado estadual na eleição passada, em que pode haver falhas entre os dentes, em que ninguém precisa se comportar como se estivesse diante das lentes de uma Anne Leibovitz, em que, acima de tudo, cada um pode revelar, à luz do sol, tudo aquilo que a escuridão das casas noturnas insiste em ocultar o restante do ano.
Neste domingo, assim que o primeiro carro da parada começou a descer a Rua da Consolação, um sujeito obeso, fantasiado de índio, rodopiava solitário em um trecho ainda vazio na frente do Cine Belas Artes. Lembrava uma dança da chuva, ou uma pajelança... ou talvez um ritual que exorcizava, pelo menos por uma tarde, toda aquela pose que nos aprisiona o resto do ano. A dança do índio solitário surtiu efeito: os milhões que vieram atrás dele já estavam absolutamente libertos da aparência. Pelo menos até a manhã desta segunda-feira.
Embora os números sejam essenciais para desenhar as proporções gigantescas que a parada vem assumindo ano após ano, mais importante que eles, sem dúvida, é esta espécie de democracia social, racial e sexual que a parada parece promover. Dizem que no Rio a praia iguala os pobres e ricos. Aqui, ao que parece, esta nobre missão cabe à Parada do Orgulho Gay. Por uma única tarde durante o ano, o mais importante corredor financeiro do País se converte em um cenário de fábula de gente grande, um território onde aparentemente cabe quase tudo: dança, música, porre, beijo na boca, fantasias, carros de som que no lugar de anúncio de greves pulverizam a avenida com batidas eletrônicas, namoricos, paqueras, aplausos, vaias, sorrisos e uma infinidade de outras manifestações que em nada lembram o cotidiano de uma região movida por números, cifras e senhas. É como se a avenida tirasse férias de si mesma por um dia e fosse ela, a própria Paulista, a foliã mais animada entre os seus 3,5 milhões de convivas.
O grande barato da Parada é seu poder de implodir a tirania de um padrão estético que domina o mundo gay no resto do ano - um mundo em que só têm vez aqueles que não chegaram aos 30 anos e que exibem, nas etiquetas das roupas e na circunferência da barriguinha sarada, uma espécie de atestado de que seu tempo foi meticulosamente dividido entre as academias e as lojas da Oscar Freire. A parada é o momento em que as muitas gordurinhas de fora sacodem alegremente ao som de It's raining man, é o lugar em que as cuecas não precisam ser Calvin Klein, em que os dorsos masculinos não precisam lembrar cascos de tartaruga, em que os bonés podem ter sido financiados por um candidato a deputado estadual na eleição passada, em que pode haver falhas entre os dentes, em que ninguém precisa se comportar como se estivesse diante das lentes de uma Anne Leibovitz, em que, acima de tudo, cada um pode revelar, à luz do sol, tudo aquilo que a escuridão das casas noturnas insiste em ocultar o restante do ano.
Neste domingo, assim que o primeiro carro da parada começou a descer a Rua da Consolação, um sujeito obeso, fantasiado de índio, rodopiava solitário em um trecho ainda vazio na frente do Cine Belas Artes. Lembrava uma dança da chuva, ou uma pajelança... ou talvez um ritual que exorcizava, pelo menos por uma tarde, toda aquela pose que nos aprisiona o resto do ano. A dança do índio solitário surtiu efeito: os milhões que vieram atrás dele já estavam absolutamente libertos da aparência. Pelo menos até a manhã desta segunda-feira.
quinta-feira, junho 07, 2007
Um mundo sem Paris Hilton
Leio que a socialite Paris Hilton, presa por dirigir embriagada e sem a carteira de habilitação, foi libertada após passar somente três dias num xilindró de Los Angeles muito mais confortável e privativo que a moradia dos estudantes da USP, sob a alegação de que não estava se sentindo bem na cadeia. E desde quando cadeia é lugar para alguém se sentir bem? Paris, que afirma ter tido problemas respiratórios e muita depressão em sua primeira noite atrás das grades, foi posta em liberdade por orientação médica. Todo mundo sabe, no entanto, que o problema da garota é de outra ordem: ela deve ter adoecido seriamente quando notou que passaria 40 dias - era este o tempo da sentença - longe dos flashes, da badalação e dos escândalos previamente combinados para colocá-la diariamente nos noticiários do mundo inteiro. Paris Hilton, assim como Britney Spears, é vítima daquela dependência química de exibicionismo cujas crises de abstenção podem realmente levá-las à morte. E não há ironia nesta constatação: a doença parece ser fatal mesmo.
A soltura da garota me fez pensar em duas coisas. Primeiro, que estamos exportando tecnologia moral e ideológica para os Estados Unidos. Assim como aqui, agora lá os ricos também não vão para a cadeia. Ela vai passar o restante da pena em sua mansão, com uma tornozeleira que sinaliza todos os seus movimentos, acredito que do mesmo modelo daquela que ornamenta os pezinhos da bispa Sônia e seu marido Estevão. Esta sentença, tenho certeza, soaria como um presente dos deuses para uns 99% da população mundial: 40 dias numa mansão americana, com serviçais, piscina, visitas íntimas de toda ordem, bebida, noitadas, drogas, sexo and rock and roll. Tenho vontade de sair por aí com uma placa no pescoço: eu também quero ficar preso 40 dias numa mansão em Miami, como a bispa, ou em Los Angeles, como Paris Hilton. Ando tão cansado que esta pena teria gosto de spa para mim. A segunda coisa na qual pensei: não seria ótimo se a imprensa do mundo todo, num inesperado surto de inteligência, combinasse nunca mais dar nenhuma linha sobre Paris Hilton, Britney Spears e todos os seus genéricos lá e aqui? Elas podiam beber, bater em fotógrafos, sair sem calcinha, raspar a cabeça, dirigir embriagadas, se internar em clínicas de recuperação, casar num dia, descasar no seguinte, ter um filho atrás do outro, desmaiar em festas, trocar de namorado, fazer xixi em público e se drogar até estourar a aorta...e nada, nenhuma única linha em lugar nenhum do mundo. Nada de notinhas, nada de fotos, nada de chamadas nos sites da internet, apenas o maior e mais puro desprezo universal. Todo o planeta, de comum acordo, empenhado em ignorar as estripulias das duas e de todos os seus pares igualmente irrelevantes! Quantos vocês querem apostar que em uma semana elas se tornariam mocinhas do bem e, quem sabe, passassem até a fazer alguma coisa realmente proveitosa neste mundo? Nascidas e criadas na era pós-Madonna, elas não aprenderam a principal lição da mestra: a de que os escândalos sem uma dose de talento não têm graça nenhuma.
A soltura da garota me fez pensar em duas coisas. Primeiro, que estamos exportando tecnologia moral e ideológica para os Estados Unidos. Assim como aqui, agora lá os ricos também não vão para a cadeia. Ela vai passar o restante da pena em sua mansão, com uma tornozeleira que sinaliza todos os seus movimentos, acredito que do mesmo modelo daquela que ornamenta os pezinhos da bispa Sônia e seu marido Estevão. Esta sentença, tenho certeza, soaria como um presente dos deuses para uns 99% da população mundial: 40 dias numa mansão americana, com serviçais, piscina, visitas íntimas de toda ordem, bebida, noitadas, drogas, sexo and rock and roll. Tenho vontade de sair por aí com uma placa no pescoço: eu também quero ficar preso 40 dias numa mansão em Miami, como a bispa, ou em Los Angeles, como Paris Hilton. Ando tão cansado que esta pena teria gosto de spa para mim. A segunda coisa na qual pensei: não seria ótimo se a imprensa do mundo todo, num inesperado surto de inteligência, combinasse nunca mais dar nenhuma linha sobre Paris Hilton, Britney Spears e todos os seus genéricos lá e aqui? Elas podiam beber, bater em fotógrafos, sair sem calcinha, raspar a cabeça, dirigir embriagadas, se internar em clínicas de recuperação, casar num dia, descasar no seguinte, ter um filho atrás do outro, desmaiar em festas, trocar de namorado, fazer xixi em público e se drogar até estourar a aorta...e nada, nenhuma única linha em lugar nenhum do mundo. Nada de notinhas, nada de fotos, nada de chamadas nos sites da internet, apenas o maior e mais puro desprezo universal. Todo o planeta, de comum acordo, empenhado em ignorar as estripulias das duas e de todos os seus pares igualmente irrelevantes! Quantos vocês querem apostar que em uma semana elas se tornariam mocinhas do bem e, quem sabe, passassem até a fazer alguma coisa realmente proveitosa neste mundo? Nascidas e criadas na era pós-Madonna, elas não aprenderam a principal lição da mestra: a de que os escândalos sem uma dose de talento não têm graça nenhuma.
terça-feira, junho 05, 2007
Agora ou dispois
Leio segunda-feira na Internet e hoje, terça, nos jornais, que a estréia do quadro Paredão do Alemão, apresentado pelo fortão tatuado de cabelos eriçados que venceu a última edição do Big Brother Brasil, foi um dos maiores fiascos da programação da Globo. Segundo os jornais, o quadro, exibido no Fantástico, jogou os índices do ibope para o subsolo. Comemorei. Não por ele, o tal do Alemão, que como qualquer pessoa tem o desejo legítimo de trabalhar e, se possível, tentar escapar do anonimato. Comemorei porque, talvez resquício daquele pensamento de esquerda no qual fomos criados, o naufrágio do quadro representou a derrota de uma perniciosa filosofia global de querer transformar qualquer um em astro de ocasião. Alemão, pelo visto, não sabia fazer nada além de esticar o corpo ao sol e ser ora vítima, ora algoz, do festival de atrocidades que se tornou a matéria-prima daquele programinha no qual ele foi revelado. O auge do constrangimento do programa, de acordo com os jornais, se deu no momento em que ele disparou um "dispois" diante das câmeras.
Com 40 anos nas costas, a Rede Globo devia ter aprendido a mais básica das lições: a de que televisão, assim como o teatro e o cinema, não é para qualquer um. Como também não é a medicina, a odontologia, a engenharia e qualquer outra atividade do conhecimento humano que exija estudo, prática e, acima de tudo vocação. Do jardineiro que apara a grama dos parques ao cirurgião que esmiúça o cérebro humano, todos precisam de treinamento específico e muita habilidade. Por que seria diferente com a televisão? Por que alguém se safaria com dignidade diante das câmeras apenas por ter 32 dentes na boca e uma barriguinha cheia de gomos? Não funciona. E graças a Deus que não funciona, caso contrário estaríamos irremediavelmente perdidos. Existe ainda um escudo de bom-senso que, por mais que seja diariamente bombardeado, impede que uma quantidade ainda maior de sandices chegue até as nossas tevês. Claro que o bombardeio é tão intenso que muita coisa escapa, mas é prazeroso saber que alguns objetos estranhos, que atendiam por nomes como Sérgio Mallandro, João Kléber e mesmo Ratinho foram eletrocutados em algum momento. A última vítima, ao que parece, é o simplório Alemão.
Há mais ou menos três anos fiz uma longa entrevista com a atriz Regina Duarte, às vésperas da estréia do espetáculo Coração Bazar. A última pergunta que fiz, se ainda me lembro bem, abordava a chegada de tantos modelos nas novelas globais. "Não me preocupo com eles", respondeu a atriz. "Eles podem chegar aos montes. Mas só os bons irão sobreviver. Nós não precisamos nos preocupar com isso. Pode demorar um pouco, mas o tempo se encarrega direitinho de enterrar a falta de talento." Pode parecer cruel, mas alguém aí se lembra dos outros vencedores do Big Brother? Alguém sabe o que anda fazendo a cabeleireira Cida, o caubói, o Bam-Bam e aquele gay baiano metido a intelectual? Não tenho pena deles, sinceramente não. Tenho pena do que eles fazem com a gente durante quatro meses no ar. Que eles descansem em paz naquele lugar para onde, segundo Regina Duarte, o tempo os carregou. E que guardem um lugar quentinho para o Alemão, que daqui a pouco ou logo "dispois" irá para lá também.
Com 40 anos nas costas, a Rede Globo devia ter aprendido a mais básica das lições: a de que televisão, assim como o teatro e o cinema, não é para qualquer um. Como também não é a medicina, a odontologia, a engenharia e qualquer outra atividade do conhecimento humano que exija estudo, prática e, acima de tudo vocação. Do jardineiro que apara a grama dos parques ao cirurgião que esmiúça o cérebro humano, todos precisam de treinamento específico e muita habilidade. Por que seria diferente com a televisão? Por que alguém se safaria com dignidade diante das câmeras apenas por ter 32 dentes na boca e uma barriguinha cheia de gomos? Não funciona. E graças a Deus que não funciona, caso contrário estaríamos irremediavelmente perdidos. Existe ainda um escudo de bom-senso que, por mais que seja diariamente bombardeado, impede que uma quantidade ainda maior de sandices chegue até as nossas tevês. Claro que o bombardeio é tão intenso que muita coisa escapa, mas é prazeroso saber que alguns objetos estranhos, que atendiam por nomes como Sérgio Mallandro, João Kléber e mesmo Ratinho foram eletrocutados em algum momento. A última vítima, ao que parece, é o simplório Alemão.
Há mais ou menos três anos fiz uma longa entrevista com a atriz Regina Duarte, às vésperas da estréia do espetáculo Coração Bazar. A última pergunta que fiz, se ainda me lembro bem, abordava a chegada de tantos modelos nas novelas globais. "Não me preocupo com eles", respondeu a atriz. "Eles podem chegar aos montes. Mas só os bons irão sobreviver. Nós não precisamos nos preocupar com isso. Pode demorar um pouco, mas o tempo se encarrega direitinho de enterrar a falta de talento." Pode parecer cruel, mas alguém aí se lembra dos outros vencedores do Big Brother? Alguém sabe o que anda fazendo a cabeleireira Cida, o caubói, o Bam-Bam e aquele gay baiano metido a intelectual? Não tenho pena deles, sinceramente não. Tenho pena do que eles fazem com a gente durante quatro meses no ar. Que eles descansem em paz naquele lugar para onde, segundo Regina Duarte, o tempo os carregou. E que guardem um lugar quentinho para o Alemão, que daqui a pouco ou logo "dispois" irá para lá também.
domingo, junho 03, 2007
Me ensinem só o que eu já sei
Um dos meus passatempos no metrô é observar o que as pessoas andam lendo. Não resisto em entortar o pescoço, se for o caso, só para ver quais títulos são dignos de acompanhar seus donos para baixo e para cima. Acredito que as leituras no metrô são um termômetro do gosto popular mais confiável que as listas de best sellers publicadas pelos jornais e revistas. Se não são mais confiáveis, ao menos parecem mais divertidas. A primeira constatação é altamente otimista: as pessoas lêem muito sobre os trilhos. E desconfio que este hábito se estenderia também aos ônibus, não andassem eles tão apinhados. Difícil encontrar um vagão em que não haja ao menos um passageiro com os olhos entretidos nas páginas de um policial, um livro espírita, uma biografia, no jornalzinho distribuído gratuitamente na entrada das estações e, principalmente, num título de auto-ajuda. Durante o auge de O Código da Vinci cheguei a contar, no mesmo vagão, quatro passageiros muito mais obcecados em saber a localização do Santo Graal do que o nome da próxima estação. Parecia a cena de alguma gincana.
Mas esta semana, uma cena me deixou intrigado. Já era quase meia-noite quando peguei o metrô no sentido Vila Madalena. Dentro do vagão, um homem de terno e gravata, pouco mais de 30 anos, parecia travar uma árdua batalha contra o sono para avançar pelas páginas de um livro chamado Os 7 Hábitos Das Pessoas Altamente Eficazes, um desses títulos americanos que, acredito eu, prometem tornar mais fácil a escalada rumo ao topo do mundo dos negócios. Fiquei pensando muito no sujeito. Será que ele realmente encontrava algum prazer naquela leitura ou ela tinha sido recomendada por algum gerente de Recursos Humanos que acha chique conjugar os verbos no gerúndio? Será que no dia seguinte, na hora do almoço, ele comentaria com seus companheiros de trabalho quais lições havia tirado da leitura? Será que sua produção no emprego melhorava à medida que ele se aproximava do final do livro?
Não resisti e fui pesquisar o título na Internet. Entre os sete hábitos das tais pessoas altamente eficazes estão: ser produtivo (ué, mas se a gente já é produtivo, o que mais o livro pode nos ensinar?), renovar-se sempre, comunicar-se empaticamente e utilizar a criatividade. Quando cheguei a este último tópico, resolvi parar a pesquisa. Tudo me pareceu tão óbvio e tão completamente já introjetado em nossa noção de sociedade competitiva que não senti vontade de avançar. Outro dia, dentro de uma livraria, resolvi dar uma espiada num manual que ensinava os pais a lidar com os filhos adolescentes. O autor é um médico renomado, pediatra se não me engano, que deve andar fazendo fortuna com este tipo de literatura. Fui direto ao capítulo que mostrava como os pais deveriam proceder quando os adolescentes queriam dormir fora de casa. Primeiro mandamento, ensinava o autor: pergunte ao adolescente onde ele pretende dormir e, se possível, obtenha o telefone deste lugar. Santo Deus: será que alguém que já criou um fiilho até chegar à adolescência ainda não aprendeu isso? Os mandamentos seguintes pareciam de uma obviedade tamanha que, caso eu tivesse comprado o tal livro, bateria com a cabeça na parede como punição por ter sido tão estúpido.
E descobri, depois de dar uma olhadinha num título aqui, uma espiadinha num outro título ali, quais são os segredos para emplacar um sucesso neste nicho da literatura: jamais assuste o seu leitor. E não revele a ele nada que ele já não conheça ou não tenha descoberto sozinho. Diga tudo o que ele já sabe e o ensine a fazer tudo aquilo que ele já aprendeu. Quem compra livro de auto-ajuda, desconfio eu, não quer aprender absolutamente nada de novo e muito menos ser desafiado em suas crenças. Quer gastar 40 reais pelo prazer de poder dizer, do alto de sua sabedoria de vida, quando vencer o último parágrafo da obra: viu só como eu estava certo!
Mas esta semana, uma cena me deixou intrigado. Já era quase meia-noite quando peguei o metrô no sentido Vila Madalena. Dentro do vagão, um homem de terno e gravata, pouco mais de 30 anos, parecia travar uma árdua batalha contra o sono para avançar pelas páginas de um livro chamado Os 7 Hábitos Das Pessoas Altamente Eficazes, um desses títulos americanos que, acredito eu, prometem tornar mais fácil a escalada rumo ao topo do mundo dos negócios. Fiquei pensando muito no sujeito. Será que ele realmente encontrava algum prazer naquela leitura ou ela tinha sido recomendada por algum gerente de Recursos Humanos que acha chique conjugar os verbos no gerúndio? Será que no dia seguinte, na hora do almoço, ele comentaria com seus companheiros de trabalho quais lições havia tirado da leitura? Será que sua produção no emprego melhorava à medida que ele se aproximava do final do livro?
Não resisti e fui pesquisar o título na Internet. Entre os sete hábitos das tais pessoas altamente eficazes estão: ser produtivo (ué, mas se a gente já é produtivo, o que mais o livro pode nos ensinar?), renovar-se sempre, comunicar-se empaticamente e utilizar a criatividade. Quando cheguei a este último tópico, resolvi parar a pesquisa. Tudo me pareceu tão óbvio e tão completamente já introjetado em nossa noção de sociedade competitiva que não senti vontade de avançar. Outro dia, dentro de uma livraria, resolvi dar uma espiada num manual que ensinava os pais a lidar com os filhos adolescentes. O autor é um médico renomado, pediatra se não me engano, que deve andar fazendo fortuna com este tipo de literatura. Fui direto ao capítulo que mostrava como os pais deveriam proceder quando os adolescentes queriam dormir fora de casa. Primeiro mandamento, ensinava o autor: pergunte ao adolescente onde ele pretende dormir e, se possível, obtenha o telefone deste lugar. Santo Deus: será que alguém que já criou um fiilho até chegar à adolescência ainda não aprendeu isso? Os mandamentos seguintes pareciam de uma obviedade tamanha que, caso eu tivesse comprado o tal livro, bateria com a cabeça na parede como punição por ter sido tão estúpido.
E descobri, depois de dar uma olhadinha num título aqui, uma espiadinha num outro título ali, quais são os segredos para emplacar um sucesso neste nicho da literatura: jamais assuste o seu leitor. E não revele a ele nada que ele já não conheça ou não tenha descoberto sozinho. Diga tudo o que ele já sabe e o ensine a fazer tudo aquilo que ele já aprendeu. Quem compra livro de auto-ajuda, desconfio eu, não quer aprender absolutamente nada de novo e muito menos ser desafiado em suas crenças. Quer gastar 40 reais pelo prazer de poder dizer, do alto de sua sabedoria de vida, quando vencer o último parágrafo da obra: viu só como eu estava certo!
sexta-feira, junho 01, 2007
16 perguntas à procura de uma resposta
1) Por que capotamos de sono no sofá e, quando chegamos à cama, a três passos dali, não conseguimos mais dormir?
2) Por que, no banco ou no supermercado, a nossa fila é a que demora mais para andar?
3) Por que os motoboys buzinam tanto nas ruas de São Paulo?
4) Por que as pessoas ligam para o nosso celular e não deixam recado, obrigando-nos a ligar de volta só para saber quem ligou?
5) Por que alguns restaurantes self-service cobram 10% de taxa de serviço se não apareceu ninguém para servir a gente?
6) Por que as mães telefonam tanto se quase nunca elas têm alguma coisa para falar?
7) Por que o trânsito fica todo parado e, de repente, começa a andar na esquina seguinte, sem que tenha havido um acidente ou qualquer outra coisa para explicar o congestionamento?
8) Por que no cinema, no meio de 400 poltronas, nos sentamos naquela bem ao lado do casal que vai conversar o filme inteiro?
9) Por que a mulher com criança no colo vem sentar-se justamente no banco ao lado do nosso, no ônibus ou no avião?
10) Por que quando ficamos apaixonados por um par de sapato a vendedora diz que na loja não tem mais no nosso número?
11) Por que alguns compromissos inadiáveis são marcados bem na hora do nosso rodízio?
12) Por que, sempre que levamos um pé na bunda, ouvimos da outra pessoa que nós somos sujeitos ótimos e que o problema está nelas?
13) Por que marcamos um jantarzinho em casa sempre na véspera da vinda da faxineira, deixamos a pia cheia de louça e, na manhã seguinte, ela liga dizendo que não vem?
14) Por que o Brasil está ficando cada vez mais a cara do Clodovil (ou vice-versa)?
15) Por que o corregedor do Senado, Romeu Tuma, já disse que vai inocentar Renan Calheiros antes mesmo de ler a primeira xerox do holerite do cara?
16) Por que as duas últimas perguntas são tão chatas?
2) Por que, no banco ou no supermercado, a nossa fila é a que demora mais para andar?
3) Por que os motoboys buzinam tanto nas ruas de São Paulo?
4) Por que as pessoas ligam para o nosso celular e não deixam recado, obrigando-nos a ligar de volta só para saber quem ligou?
5) Por que alguns restaurantes self-service cobram 10% de taxa de serviço se não apareceu ninguém para servir a gente?
6) Por que as mães telefonam tanto se quase nunca elas têm alguma coisa para falar?
7) Por que o trânsito fica todo parado e, de repente, começa a andar na esquina seguinte, sem que tenha havido um acidente ou qualquer outra coisa para explicar o congestionamento?
8) Por que no cinema, no meio de 400 poltronas, nos sentamos naquela bem ao lado do casal que vai conversar o filme inteiro?
9) Por que a mulher com criança no colo vem sentar-se justamente no banco ao lado do nosso, no ônibus ou no avião?
10) Por que quando ficamos apaixonados por um par de sapato a vendedora diz que na loja não tem mais no nosso número?
11) Por que alguns compromissos inadiáveis são marcados bem na hora do nosso rodízio?
12) Por que, sempre que levamos um pé na bunda, ouvimos da outra pessoa que nós somos sujeitos ótimos e que o problema está nelas?
13) Por que marcamos um jantarzinho em casa sempre na véspera da vinda da faxineira, deixamos a pia cheia de louça e, na manhã seguinte, ela liga dizendo que não vem?
14) Por que o Brasil está ficando cada vez mais a cara do Clodovil (ou vice-versa)?
15) Por que o corregedor do Senado, Romeu Tuma, já disse que vai inocentar Renan Calheiros antes mesmo de ler a primeira xerox do holerite do cara?
16) Por que as duas últimas perguntas são tão chatas?
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