Nunca tive qualquer preconceito em relação aos livros de bolso. Ao contrário: eu os adoro. Acho o máximo parar em uma banquinha da Avenida Paulista e, por dez ou onze reais, trazer para casa obras de Shakespeare, Maquiavel, Ibsen, Truman Capote, Millôr Fernandes, Fernando Pessoa entre tantos outros autores sensacionais. Os livros de bolso sempre me transmitem a sensação reconfortante de que irei lê-los até o fim e em pouco tempo. E não vejo nenhum mal em encarar uma obra literária a partir deste ponto de vista. O que não quer dizer, de forma alguma, que eu não reúna fôlego para encarar as 561 páginas de Crime e Castigo, de Dostoiévski, por exemplo, ou as mais de 700 de Submundo, de Don Delillo. Com o primeiro deles estou em paz, terminei de ler a saga de Raskólnikov há pouco tempo, mas Delillo ainda continua acumulando poeira na estante. O que não me deixa preocupado, pois ele está na invejável companhia de Thomas Mann, cuja Montanha Mágica ainda não terminei de escalar.
O último livro de bolso que comprei e que está me deliciando é A Arte de Escrever, de Schopenhauer. Fui atrás deste título por indicação do amigo Duilio Ferronato, que tem um dos blogs mais bacanas do pedaço. Não sou filósofo e nem teria condições aqui de levantar uma discussão profunda acerca da obra de Schopenhauer, mas acho que ele deve ter sido um sujeito difícil. Sinto que o fato de sua obra ter levado pelo menos trinta anos para ser reconhecida depositou na alma de Schopenhauer um rancor que transparece em cada uma de suas idéias - embora todas sejam dignas de muita reflexão. A leitura de Schopenhauer se torna prazerosa, a meu ver, porque ao lado deste rancor sobrevive uma ironia rara entre os grandes filósofos. Existe um amargor que parece conduzir o leitor até a próxima página, como se fosse um thriller. A Arte de Escrever é dividido em cinco capítulos, dos quais o meu predileto é o segundo, sobre a escrita e o estilo. Vejam o que ele diz: "Também se pode dizer que há três tipos de autores: em primeiro lugar, aqueles que escrevem sem pensar. Escrevem a partir da memória, de reminiscências ou diretamente a partir de livros alheios. Esta classe é a mais numerosa. Em segundo lugar, há os que pensam enquanto escrevem. Eles pensam justamente para escrever. São bastante numerosos. Em terceiro lugar, há os que pensaram antes de se pôr a escrever. Escrevem apenas porque pensaram. São raros". Confessem: não dá uma vontade absurda de saber o que mais ele tem a dizer?
sexta-feira, março 09, 2007
quinta-feira, março 08, 2007
Uma ponte perto do mar e perto da tevê

O Encontro das Águas foi uma peça que escrevi em 2003, como trabalho de conclusão de um curso de dramaturgia que eu havia feito no ano anterior. É uma peça curta, simples eu diria. O relato do encontro de dois jovens em cima de uma ponte perto do mar. Há o barulho das ondas, há o ruído das gaivotas, há a maré, que não pára de subir, ameaçadora e ao mesmo tempo conivente com o desejo de um dos jovens, que espera pelo momento exato de se atirar nas águas. A peça estreou em maio de 2004 no Espaço dos Satyros Um, com interpretações arrepiantes dos atores José Roberto Jardim, que fazia o personagem Apolônio, um artesão-filósofo misterioso que vivia na ponte, e Pedro Henrique Moutinho, como o perturbado Marcelo. Na direção, a mão precisa e extremamente delicada de Alberto Guzik, que respeitou cada vírgula do texto, que levou ao palco cada pequena respiração que o texto sugeria. A peça ficou em cartaz por sete meses, viajou pelo Interior do Estado, foi apresentada nos festivais de teatro de Curitiba e Porto Alegre e recebeu elogios até de um jornal do Uruguai. Foi o texto, e hoje eu vejo isso claramente, que apontou um novo caminho na minha carreira de dramaturgo iniciante.
Três anos depois, O Encontro das Águas continua a me dar alegria. A peça, agora, será transformada em teleteatro da Tevê Cultura, pelas mãos de Sérgio Ferrara, com quem estou trabalhando em outra montagem, A Noite do Aquário, um drama que se passa no início dos anos 60 e tem como mote a noite em que uma jovem e desconhecida Elis Regina cantou na Praça Roosevelt. Ferrara irá dirigir o Encontro no fim de abril. Sei que, no momento, ele está definindo o elenco e escolhendo as locações - esta última tarefa, reconheço, extremamente fundamental para a compreensão da trama.
Os amigos que viram a montagem de Guzik me perguntavam: mas, afinal, o que aconteceu com os dois? Marcelo vai voltar à ponte no dia seguinte para encontrar Apolônio? Apolônio vai continuar sozinho em sua missão angelical de velar pelos desesperados? Eu não tenho estas respostas. Às vezes, eu fico triste de imaginar que Apolônio continua sozinho naquela ponte...talvez não devêssemos ser tão cruéis com os personagens tão queridos. Acredito que a versão de Ferrara não irá responder estas perguntas. Mas me conforta saber que, agora, vai haver muito mais gente torcendo por Apolônio.
De Monalisa ao motoqueiro
Passei a tarde desta quarta-feira na OCA, acompanhando a visita do professor italiano de história da arte Luciano Migliaccio à exposição Leonardo Da Vinci: A Exibição de um Gênio. Há dez anos no Brasil - veio para dar um curso de história da arte na Unicamp e acabou ficando por aqui - e ainda com um forte sotaque napolitano, Migliaccio saiu decepcionado da exposição. Alega que a curadoria deu preferência ao perfil do Da Vinci engenheiro e arquiteto, deixando de lado a genialidade de sua pintura. Um olhar mais atento às reproduções dos famosos quadros de Da Vinci expostas na Oca só serve para endossar a opinião do professor. À noite, e é duro confessar isso aqui, resolvi ver O Motoqueiro Fantasma. É pior do que eu temia. Triste ver um ator do calibre de Nicolas Cage derretendo no meio de tantas labaredas. Tomara que ao menos ele tenha se divertido. Não parece.
Bate-estaca da fé
A notícia mais saborosa do dia saiu na Folha. Em Goiás, uma igreja criada há dois anos chega a reunir até três mil pessoas em cultos realizados ao som de música trance. Isso mesmo, música trance. Chamada de Igreja do Trance Divino, a seita não cobra dízimo e seus pastores não querem associar a imagem de Jesus ao sofrimento. Como estou um pouco afastado das batidas eletrônicas, o que eu mais gostei nesta história toda foi saber que não se cobra dízimo. Será que a notícia chegou a Miami, onde a bispa Sônia e seu marido aguardam decisão judicial para ver qual será o destino dos dois, depois que foram pegos tentando entrar com dólares a mais, muitos dólares a mais, nos Estados Unidos? Se leram a notícia, na certa devem ter pensado: "Amadores...onde já se viu, não cobrar dízimo? Queremos ver quanto tempo vai durar esta festança..."
quarta-feira, março 07, 2007
Santo estresse
Resolvi enfrentar o forte calor da tarde de domingo para ver O Retrato Íntimo de Madame Shakespeare. À toa. Faltando dez minutos para o início da sessão, a produção informou que o espetáculo havia sido cancelado. A atriz Norma Bengell estava passando mal. Compreensível. Um amigo tinha ido ver a peça na estréia, na quinta-feira anterior. Um outro foi no sábado. Os dois saíram chocados do teatro. Norma Bengell não sabia o texto, não acertou praticamente nenhuma de suas falas. Ao ler o jornal de hoje, descubro que ela abandonou o espetáculo, alegando estresse emocional. No entanto, segundo a nota, ela já recebeu pela temporada inteira. Fiquei pensando na centena de amigos atores que trabalham por bilheteria, gente talentosíssima que, embora viva num país em que as crianças são arrastadas por sete quilômetros em carros conduzidos por marginais, ou derrubadas por balas perdidas no meio da tarde, não podem se dar ao luxo de render-se diante de um estresse emocional, porque tem contas a pagar. Porque precisam aparecer no teatro todas as noites. Porque respeitam suas platéias. Porque são profissionais. E porque não costumam receber por um trabalho que ainda não apresentaram. Que orgulho eu senti deles, destes meus amigos.
Saudades de mim mesmo
Quando alguém começar a acompanhar este blog, e espero que isto um dia venha a ocorrer, conhecerá de cara um dos meus defeitos: a preguiça. Devo ter escrito pela última vez ainda no ano passado. Se eu tivesse sido mais disciplinado, talvez este blog trouxesse, agora, uma quantidade imensa de textos, notícias, surpresas, belos acontecimentos, algumas decepções - enfim, toda a química que parece compor a nossa vida.
De minha última entrada neste blog até hoje, dia sete de março, muitas coisas boas ocorreram na minha vida profissional. Fui indicado ao Prêmio Shell de melhor autor pela peça Abre as Asas Sobre Nós, que voltou ao cartaz no Teatro Sérgio Cardoso, onde fez uma carreira satisfatória, embora muito tumultuada no início. Concluí uma nova peça, chamada A Noite do Aquário, que me permitiu trabalhar ao lado de amigos queridos e talentosíssimos, como o diretor Sérgio Ferrara e os atores Chico Carvalho, Germano Pereira e a maravilhosa Clara Carvalho, do Grupo Tapa. Sei que eles não ficarão bravos por eu ter destinado à Clara um adjetivo a mais: mas o fato é que ela é maravilhosa mesmo e é também a única mocinha no meio desta história que está sendo contada por homens. Por isso, um pouco de delicadeza para com ela nunca é demais. Vi uma peça escrita há um ano e meio, Com Vista Para Dentro, estrear no Teatro Vivo com o nome de Andaime. Sobre este espetáculo, eu poderia passar um dia inteiro escrevendo. A peça está uma delícia, os atores Claudio Fontana e Cássio Scapin estão dando um show em cena, a direção do Elias Andreato é uma aula de delicadeza e o cenário e figurino do Gabriel Villela são de uma contemporaneidade emocionante e ao mesmo tempo dolorida. Andaime, além de ser meu primeiro espetáculo a ocupar um grande teatro comercial, me aproximou muito destes quatro profissionais (Cassio, Claudinho, Elias e Gabriel) que eu já admirava muito, mas com quem nunca tivera a oportunidade de conviver. Hoje, não sei se eles são mais sensacionais no palco ou nas coxias - mas devo confessar minha felicidade de poder contar com eles em ambos os lugares. Como as notícias boas nunca são demais, meu primeiro texto infantil, O Dia Das Crianças, está quase pronto para estrear. Trata-se de uma produção dos Satyros - a primeira experiência do grupo com um texto infantil. Dirigida por Ivam Cabral e Rodolfo Garcia Vazquez, o Dia das Crianças traz no elenco um time de primeira: Gaion, Penna, Frampton, Cléo, Zeza e Thiago. O Ivam, o nosso atual maluco beleza, resolveu convidar algumas celebridades para participar da peça por meio de gravações em vídeo. Até o momento, Claudia Raia, Marcelo Médici, Dan Stulbach, Denise Fraga, Adriane Galisteu, Renato Borghi e os Parlapatões já toparam. Com isso, O Dia das Crianças promete nascer como o espetáculo infantil com o elenco mais famoso do mundo!
Ao lado de tudo isso, continuei com minhas reportagens na Revista Bravo e no Diário do Comércio e com minha participação na equipe que está criando o Curso Superior de Artes Cênicas do Senac.
Depois de tudo isso, talvez as pessoas não concordem comigo quando eu digo que sou um pouco preguiçoso. Mas no fundo, sou mesmo.
E também vou prometer uma coisa: a partir de agora, eu gostaria de usar este espaço para falar menos de mim e mais do mundo. Ou, talvez, para falar mais do mundo a partir do meu ponto de vista - o que, de alguma forma, não deixa de ser falar de mim mesmo. Mas não queria que estes apontamentos, anotações, impressões ou sejá lá o nome que isso venha a ter, sirvam apenas para orbitar em torno do meu próprio umbigo.
De minha última entrada neste blog até hoje, dia sete de março, muitas coisas boas ocorreram na minha vida profissional. Fui indicado ao Prêmio Shell de melhor autor pela peça Abre as Asas Sobre Nós, que voltou ao cartaz no Teatro Sérgio Cardoso, onde fez uma carreira satisfatória, embora muito tumultuada no início. Concluí uma nova peça, chamada A Noite do Aquário, que me permitiu trabalhar ao lado de amigos queridos e talentosíssimos, como o diretor Sérgio Ferrara e os atores Chico Carvalho, Germano Pereira e a maravilhosa Clara Carvalho, do Grupo Tapa. Sei que eles não ficarão bravos por eu ter destinado à Clara um adjetivo a mais: mas o fato é que ela é maravilhosa mesmo e é também a única mocinha no meio desta história que está sendo contada por homens. Por isso, um pouco de delicadeza para com ela nunca é demais. Vi uma peça escrita há um ano e meio, Com Vista Para Dentro, estrear no Teatro Vivo com o nome de Andaime. Sobre este espetáculo, eu poderia passar um dia inteiro escrevendo. A peça está uma delícia, os atores Claudio Fontana e Cássio Scapin estão dando um show em cena, a direção do Elias Andreato é uma aula de delicadeza e o cenário e figurino do Gabriel Villela são de uma contemporaneidade emocionante e ao mesmo tempo dolorida. Andaime, além de ser meu primeiro espetáculo a ocupar um grande teatro comercial, me aproximou muito destes quatro profissionais (Cassio, Claudinho, Elias e Gabriel) que eu já admirava muito, mas com quem nunca tivera a oportunidade de conviver. Hoje, não sei se eles são mais sensacionais no palco ou nas coxias - mas devo confessar minha felicidade de poder contar com eles em ambos os lugares. Como as notícias boas nunca são demais, meu primeiro texto infantil, O Dia Das Crianças, está quase pronto para estrear. Trata-se de uma produção dos Satyros - a primeira experiência do grupo com um texto infantil. Dirigida por Ivam Cabral e Rodolfo Garcia Vazquez, o Dia das Crianças traz no elenco um time de primeira: Gaion, Penna, Frampton, Cléo, Zeza e Thiago. O Ivam, o nosso atual maluco beleza, resolveu convidar algumas celebridades para participar da peça por meio de gravações em vídeo. Até o momento, Claudia Raia, Marcelo Médici, Dan Stulbach, Denise Fraga, Adriane Galisteu, Renato Borghi e os Parlapatões já toparam. Com isso, O Dia das Crianças promete nascer como o espetáculo infantil com o elenco mais famoso do mundo!
Ao lado de tudo isso, continuei com minhas reportagens na Revista Bravo e no Diário do Comércio e com minha participação na equipe que está criando o Curso Superior de Artes Cênicas do Senac.
Depois de tudo isso, talvez as pessoas não concordem comigo quando eu digo que sou um pouco preguiçoso. Mas no fundo, sou mesmo.
E também vou prometer uma coisa: a partir de agora, eu gostaria de usar este espaço para falar menos de mim e mais do mundo. Ou, talvez, para falar mais do mundo a partir do meu ponto de vista - o que, de alguma forma, não deixa de ser falar de mim mesmo. Mas não queria que estes apontamentos, anotações, impressões ou sejá lá o nome que isso venha a ter, sirvam apenas para orbitar em torno do meu próprio umbigo.
Assinar:
Postagens (Atom)
