<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282</id><updated>2011-12-29T19:33:55.548-02:00</updated><category term='entrevista'/><category term='teatro'/><category term=':'/><title type='text'>Só no Blog</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>362</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-8377151623172550499</id><published>2011-05-15T17:09:00.002-03:00</published><updated>2011-05-15T17:38:15.700-03:00</updated><title type='text'>Segundo tempo</title><content type='html'>Comecei muito tarde na ficção. Somente no final de 2001 escrevi meu primeiro texto não jornalístico. Até então, produzir matérias para jornais e revistas já me mantinha satisfeito e apaziguado com o teclado. Este primeiro texto se chamava O Fantasma de Nova York – um pequeno conto, três páginas apenas, sobre um homem de 30 e poucos anos que trabalhava em uma das Torres Gêmeas. Em 11 de setembro, dia dos atentados, ele decidira saltar do metrô duas estações antes da habitual para fazer a pé o resto do trajeto. Estava na rua, a algumas quadras do trabalho, quando viu o primeiro avião se chocar contra uma das torres. Ficou ali até o segundo choque e a consequente queda dos edifícios. Em meio a tanta dor, ele interpretou a tragédia como um renascimento. Se tivesse feito seu percurso habitual, estaria morto naquele momento. Ao nascer de novo, naquela manhã de terça-feira, resolveu sepultar a vida anterior: abandonou os pais e a mulher, tomou um ônibus interestadual e foi tentar uma nova vida em algum recanto esquecido dos Estados Unidos. Ao voltar, três anos depois, encontrou, no antigo flat em que morava, um atestado de óbito em seu nome, expedido pela prefeitura de Nova York.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O objeto deste conto sempre foi uma das minhas obsessões. Desde adolescente que eu sonho com a possibilidade de ser outra pessoa em outro lugar, uma espécie de segundo tempo da vida, um jogo com novas regras e novos participantes. Não sei se teria coragem de algum dia me zerar desta maneira, mas ontem, ao ler uma das obras-primas do escritor Arthur Schnitzler, Breve Romance de Sonho, o livro que serviu de inspiração para Stanley Kubrick fazer seu último filme, De Olhos Bem Fechados, constatei, talvez um pouco aliviado, de que estou longe de ser o único a me ocupar com tais devaneios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Transcrevo aqui um trecho do romance em que o personagem principal, o médico Fridolin, também flerta com a ideia de que uma nova vida, em outras paisagens e rodeado de estranhos, pode ser possível:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sentia uma leve pena de si mesmo. Apenas de passagem, não como um propósito qualquer, veio-lhe a ideia de dirigir-se a uma estação ferroviária, tomar um trem para onde quer que fosse, desaparecer para todos os que o conheciam, ressurgindo em algum lugar no estrangeiro para começar uma vida nova como outra pessoa, um novo ser humano. Lembrou-se de certos casos notáveis que conhecia dos livros de psiquiatria, aqueles das assim chamadas existências duplas: de repente, um homem desaparece, deixando para trás uma vida bastante ordenada, some, retorna meses ou anos mais tarde, não se lembra de onde esteve ao longo desse tempo, mas, depois, é reconhecido por alguém que o havia encontrado em alguma parte de um país distante, sem que ele próprio se lembre de coisa alguma. Decerto, tais coisas aconteciam raramente, contudo, ainda assim, eram casos comprovados”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem sabe um dia... somente trocando o trem por um avião. Me parece mais contemporâneo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-8377151623172550499?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/8377151623172550499/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=8377151623172550499&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8377151623172550499'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8377151623172550499'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2011/05/segundo-tempo.html' title='Segundo tempo'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-4442965691569894109</id><published>2011-05-02T14:58:00.002-03:00</published><updated>2011-05-02T15:07:17.413-03:00</updated><title type='text'>Zé Renato</title><content type='html'>No segundo semestre de 2003, tive o prazer de participar, durante dois meses, de uma oficina de direção teatral ministrada pelo querido e já saudoso Zé Renato na Faap. Não é o caso de me estender aqui sobre o muito que aprendi nesta breve convivência com ele e nem do quanto passei a gostar e respeitar ainda mais o homem e o profissional de teatro. Amigos que tiveram a chance de conviver mais com ele poderão falar sobre seu talento e sua extrema generosidade com muito mais propriedade que eu. Tomo a liberdade de falar de Zé Renato apenas para recordar de uma historinha linda e emocionante que ele nos contou numa das tardes daquele ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato se deu em 1964, alguns meses depois do golpe militar. Zé Renato estava no Rio, selecionando o elenco para uma montagem da Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht. Ele não conseguia encontrar uma jovem cantora para um dos papéis de destaque da peça. Havia testado várias, sem se entusiasmar particularmente com nenhuma delas. Se não me engano, era o único personagem para o qual Zé Renato ainda não havia encontrado um intérprete – o que estaria atrasando o início dos ensaios. Até que um dia, quando ele já se encontrava à beira do desespero, apareceu uma atriz magrinha e tímida, chamada Marília Pêra, que acabou levando o papel. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, quando o elenco da peça já estava completo, o comediante Ary Toledo procurou Zé Renato para dizer que havia encontrado a garota perfeita para o papel. Zé Renato agradeceu dizendo que, desde a tarde anterior, o papel já tinha dono. Ary Toledo não se conformou. Insistiu para que Zé Renato ao menos ouvisse a garota, ainda que fosse por uma questão de educação. Meio a contragosto e irritado por perder um precioso tempo de ensaio, Zé Renato foi ouvir a tal garota cantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida e até hoje me recordo de cada palavra que aquela menina cantou só para mim”, contaria Zé Renato diante dos aprendizes inebriados da sua oficina de direção. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tal garota que com muito custo ele foi ouvir tinha 18 anos, havia acabado de chegar de Porto Alegre e se chamava Elis Regina.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-4442965691569894109?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/4442965691569894109/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=4442965691569894109&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/4442965691569894109'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/4442965691569894109'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2011/05/ze-renato.html' title='Zé Renato'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-3894112629068923521</id><published>2011-04-20T17:36:00.000-03:00</published><updated>2011-04-20T17:37:35.118-03:00</updated><title type='text'>A Maria Callas na cadeira da cozinha</title><content type='html'>Não são os terremotos, os tsunamis ou o derretimento da calota polar que me fazem acreditar que deve haver algo de errado com o clima. O que me leva a pensar que alguma coisa está mudando na natureza é ver que até na Sexta-Feira Santa agora faz calor. E até onde minha memória me permite viajar, eu garanto que não era mesmo assim. Desde quando aquelas sextas-feiras frias e tristes da minha infância, quando não havia nada mais animado a fazer além de esperar pela procissão que passava na frente de casa, deram lugar a praias com sol e tempo bom? Este sim, para mim, é um dos mistérios da fé. Naqueles dias santos, havia uma melancolia e um inexplicável temor diante da morte que, penso eu agora, estavam intimamente ligados às nuvens cinzentas que cobriam o céu da minha cidade. Era um convite natural à tristeza que, felizmente, parece que abandonamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me lembro de minha mãe dizendo que, em seus tantos anos de vida, nunca ter visto uma Sexta-Feira Santa ensolarada. Para ela, talvez, a natureza em si fosse uma católica praticante que recolhesse parte do seu brilho em respeito ao deus morto. Meu pai não se barbeava naquele dia e nós, crianças, deveríamos ficar longe da tevê e do rádio. Tínhamos reforçada a recomendação de, especificamente naquele dia, não brigar na rua e nem dizer palavrões, ao menos em voz alta. Era proibido rir alto, correr ou jogar bola no campinho esburacado. Acho que era proibido ser muito feliz também. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante de tantas restrições, talvez eu me obrigasse a encontrar algum encantamento naquele dia, alguma brechinha para me extasiar no meio de um ritual de cores escuras, velas mal-cheirosas e estátuas de semblantes doloridos e machucados. Encontrei o tal encantamento numa misteriosa figura feminina. Ela tinha o rosto coberto por véu e um pano amarelado nas mãos que, mais tarde vim a saber, trazia a imagem da face de Jesus. Para mim, aquela mulher, chamada Verônica, era o que havia de mais misterioso e fascinante na Procissão do Senhor Morto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao longo do percurso da procissão, todos paravam, se não me engano nove vezes, para ouvi-la cantar. Uma dessas paradas se dava bem em frente ao portão da minha casa. Quando a procissão se aproximava, minha mãe arrastava para a calçada uma cadeira que em pouco tempo iria se converter num minúsculo palco sobre o qual Verônica soltaria sua voz fina, dolorida e potente, enquanto desenrolava o pano amarelado com a imagem do rosto do Cristo martirizado. O que ela está cantando, eu perguntava para quem estivesse mais perto. Devia ser algo em latim, já que ninguém nunca me respondeu satisfatoriamente. O canto da Verônica era o acontecimento mais aguardado de um dia em que nada mais deveria acontecer. Com o tempo, aquela mulher que eu ingenuamente acreditava ganhar vida só no dia da procissão, deu um toque de Natal para a minha Sexta-Feira Santa. Ela era uma espécie de Papai Noel entristecido que trazia um único presente: a voz misteriosa e incompreensível que fazia uma serenata pungente na frente da minha janela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E durante anos eu aguardava a procissão da Sexta-Feira Santa, na certeza de que, num milagre tão potente quanto o da ressurreição de Cristo, Verônica voltaria para a vida bem em cima da cadeira da nossa cozinha. E então, numa tarde, enquanto acompanhava minha mãe até uma loja recém-aberta no bairro, passamos na frente de uma casa simples, com jardinzinho ressecado e duas janelas azuis cravadas numa parede que havia sido branca algum dia. “É aqui que mora a Verônica”, minha mãe disse, sem nem sequer diminuir o passo. Gelei. “Que Verônica?”, eu perguntei, talvez já com medo da resposta. “A que canta na procissão. Ela mora aí com os dois filhos”. A vida, então, era só isso: a Maria Callas da minha infância morava no mesmo bairro e tomava conta de dois filhos numa casinha modesta. Talvez até trabalhasse fora, mas nisso eu nunca quis pensar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem sabe tenha sido naquele momento, em que a magia se desfez de forma tão impiedosa, que o sol começou a raiar também na Sexta-Feira Santa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-3894112629068923521?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/3894112629068923521/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=3894112629068923521&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/3894112629068923521'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/3894112629068923521'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2011/04/maria-callas-na-cadeira-da-cozinha.html' title='A Maria Callas na cadeira da cozinha'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-8914924000690676078</id><published>2011-04-18T16:48:00.000-03:00</published><updated>2011-04-18T16:49:13.629-03:00</updated><title type='text'>E se...</title><content type='html'>Dia desses, durante um café com um amigo, falávamos sobre a inutilidade de imaginar a vida que poderíamos ter tido, em comparação com a vida que efetivamente temos hoje. Falamos sobre como parecia improdutível, talvez até cruel, nos debruçarmos sobre todos os “se” que deixamos para trás. Discorremos sobre onde estaríamos agora se tivéssemos feito determinada coisa no lugar da outra que realmente fizemos e que nos trouxe até aqui. É um tipo de conversa que eu gosto de ter, embora pareça, à primeira vista, um grande exercício sobre o vazio e mesmo sobre um provável arrependimento – já que a única vida que conhecemos é esta que temos, aqui e agora, e que resultou de todas as decisões que tomamos e de uma gigantesca contribuição do acaso. Ainda assim, não evito pensar em como as coisas poderiam ter sido diferentes se eu tivesse pego, lá atrás, o caminho que dobrava à direita e não aquele que me conduziu para a esquerda (nenhuma conotação política neste caso).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu gostaria de ser um tipo de pessoa que, decisão tomada, página virada. Não consigo. Levo muito tempo para me decidir sobre alguma coisa (na maioria das vezes, adoraria ter alguém que tomasse as decisões acertadas por mim – só as acertadas, porque das outras eu mesmo me encarrego) e mesmo assim, depois de decidir, perco noites de sono pensando em como seriam as coisas se eu tivesse tomado a opção diferente, se tivesse escolhido a alternativa que eu a duras penas descartei. Garanto que é uma bela maneira de fazer a vida empacar e me considero quase expert nisso. Uma vez, fiz meu mapa astral com uma astróloga chinesa que atendia no Conjunto Nacional. Ela disse que não havia quase nada do elemento água em meu mapa – daí minha dificuldade em “lavar as mágoas” e deixar o passado lá atrás, que é o lugar dele. Ela me recomendou fazer natação. Fiz três aulas e parei. Continuo árido e apegado ao que fiz – e também e cada vez mais, ao que deixei de fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos 19 anos, recém-saído do Exército, não sabia que rumo tomar na vida. Fiz um ano de cursinho e prestei vestibular para duas carreiras, medicina e jornalismo. Entrei em jornalismo e fiquei na lista de espera para medicina, com apenas nove candidatos na minha frente. A secretaria da faculdade acreditava que eu seria chamado – mas não rolou. E passei os dois primeiros anos da faculdade de jornalismo lamentando profundamente estar ali. Todo dia eu pensava em trancar a matrícula, voltar para o cursinho e tentar entrar em medicina no ano seguinte. Fiquei numa espécie de limbo – não curtia o curso de jornalismo e nem tinha coragem de parar. Este desconforto só desapareceu no terceiro ano de faculdade, quando entrei pela primeira vez numa redação de jornal e compreendi que eu seria mais feliz tendo nas mãos um teclado e não um bisturi. Ainda assim, até hoje me flagro pensando em  como seria minha vida, quem seriam os meus amigos, onde eu estaria agora se tivesse deixado o jornalismo de lado para tentar fazer o curso de medicina. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este é apenas um entre as dezenas de exemplos que carrego de todas as encruzilhadas em que a vida já nos jogou. Ou isto ou aquilo, como dizia Cecília Meireles em um dos seus poemas mais famosos. Sempre que estas inquietações vêm me atazanar um pouquinho, o engraçado é que não costumo pensar se eu estaria mais rico, se moraria em outra cidade, se teria outros contatos caso tivesse feito as coisas que não fiz. O que eu sempre penso nestas horas, e é aí que está a dureza da situação, é se eu teria sido mais feliz.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-8914924000690676078?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/8914924000690676078/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=8914924000690676078&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8914924000690676078'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8914924000690676078'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2011/04/e-se.html' title='E se...'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-1780813457603148820</id><published>2011-04-13T16:50:00.002-03:00</published><updated>2011-04-13T16:59:02.798-03:00</updated><title type='text'>Acaju</title><content type='html'>Ouço de muitas pessoas, amigos inclusive, que se existe alguma vantagem no correr dos anos(que podemos chamar aqui de maturidade) é que se perde o medo do ridículo. Infelizmente, não é o que acontece comigo. Quanto mais passa o tempo, mais cresce o meu medo de ser ridículo. Caberia uma imensa discussão aqui sobre o que é, afinal, ser ridículo. Mas no íntimo, cada um de nós, por experiência própria ou observação do mundo, tem, ou deveria ao menos ter, o seu conceito de ridículo muito bem formulado. Eu também tenho o meu. Gostaria que ele fosse um pouco mais elástico, ou menos autoritário, mas não é o caso: sempre tive medo de ser ridículo e este medo, ao contrário de outros que domei na vida, continua a me infernizar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É este medo que muitas vezes me faz calar diante de fatos e coisas que não consigo entender direito. Aprendi que o silêncio costuma estar do lado oposto do ridículo – e o silêncio pode ser a nossa maior contribuição diante do inexplicável. Ouvi, como todo mundo deve ter ouvido, centenas de explicações igualmente ridículas sobre o comportamento e as motivações daquele jovem que abriu fogo contra crianças numa escola do Rio. Frases feitas, conceitos surrados, a chamada psicologia de botequim quando o botequim já está prestes a fechar. Estamos adquirindo o terrível vício de tentar explicar aquilo que foge da nossa compreensão.  E tentar explicar sempre, como se a nossa opinião, e só ela, definisse a nossa postura no mundo. E quando não temos opinião? E quando a nossa opinião não acrescenta absolutamente nada de louvável e interessante a tudo aquilo que já foi dito e escrito? Qual o problema de se calar? Qual o problema de se ficar quieto num canto e evitar, acima de tudo, ser apenas mais um ridículo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu medo de ser ridículo talvez resulte do fato de eu já não me sentir mais tão jovem. Quando se é adolescente, o nosso ridículo pode ser confundido com rebeldia, auto-afirmação, desajuste ou algum processo desenfreado de busca. Explicações maravilhosas que realmente funcionam. O tempo, aos poucos, vai eliminando estes nossos álibis. E é por isso que eu não compro muito esta idéia de que a maturidade nos abre a porta para o ridículo. A maturidade fez com que eu desse menos importância a uma série de coisas – menos ao temor de ser ridículo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se não me engano, Fernando Pessoa diz em um poema que só as pessoas ridículas não escrevem cartas de amor ridículas, pois todas as cartas de amor são, por definição, ridículas. Mas ser ridículo, por descuido ou deliberadamente, é um tipo de exercício que eu não pretendo realmente praticar. Isso não vai me impedir, obviamente, de tomar atitudes ridículas até o último dos meus dias. Talvez este post em si já seja uma prova da minha indisfarçável capacidade de ser ridículo. Talvez daqui a meia hora, ao sair de casa, eu tome uma atitude ridícula em cada esquina. Talvez eu buzine para o carro da frente porque ele não arrancou quando o semáforo abriu, como eu fiz ontem. Talvez eu seja cruel com alguém que não é de forma alguma responsável por uma eventual tristeza ou frustração de minha parte. Talvez eu alimente sentimentos de vingança, talvez eu não reconheça no outro uma certa nobreza apenas pelo meu medo da competição. Talvez eu me deite e me levante com a sensação de ter sido ridículo justamente por que fiz um pouco disso tudo. Talvez eu pinte meu cabelo de acaju e passe os dias a distribuir selinhos na boca de todo mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu garanto que não vou me orgulhar disso. E que não vejo o passar dos anos como um salvo-conduto, como uma autorização para que meus atos pequem pela falta de inteligência, generosidade e bom-senso. A cada dia o ridículo me dói mais. E sinceramente não invejo os que acreditam que ser ridículo é uma conquista que a idade nos traz.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-1780813457603148820?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/1780813457603148820/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=1780813457603148820&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/1780813457603148820'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/1780813457603148820'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2011/04/acaju.html' title='Acaju'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-6286654866195087569</id><published>2010-12-08T23:06:00.000-02:00</published><updated>2010-12-08T23:07:14.748-02:00</updated><title type='text'>Magiclick</title><content type='html'>Domingo passado fui visitar meus pais, que moram em Jundiaí. Levei para minha mãe um presente mais que modesto: um acendedor de fogão, uma bugiganga que custa menos de 15 reais em qualquer banca de camelô. Claro que não se tratava do presente de Natal. Mesmo minha mãe, que a vida toda sempre demonstrou não dar a mínima para presentes de Natal, ficaria ofendida com um presente tão sem charme. Comprei-o porque, na última vez em que estive lá, minha mãe disse que o acendimento automático do fogão havia pifado e ela, depois de anos, se vira obrigada a resgatar as caixinhas de fósforos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nenhum relato pode ser mais cotidiano e pueril que este. Mas a banalidade do ato termina por aqui. Minha mãe não conseguiu fazer o acendedor funcionar, seu polegar direito, tão necessário para o gesto, talvez como o resto do seu corpo já esteja mais fraco é débil. Minha mãe não está doente, nada disso. Ela está envelhecendo – o que talvez, para os nossos conceitos atuais, seja pior que adoecer. Constrangida diante da família, como se carregasse nas mãos um revólver que não conseguiu disparar num momento de necessidade, ela passou o acendedor a meu pai, na esperança de que ele tivesse melhor sorte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu irmão, eu e minha sobrinha, como se possuídos por um abjeto acesso de vitalidade do qual viríamos a nos arrepender no momento seguinte, exibimos para os dois como era fácil, prático, elegante e viril fazer brotar uma chama amarelada na ponta do acendedor. Depois desta tripla exibição, meu pai tentou e também não conseguiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um relato de nada, uma coisinha tão à toa e por isso mesmo tão dolorida. Saber que a velhice - e a debilidade que ela acarreta - não precisa de grandes fracassos físicos para revelar sua face. Dispensa gritos noturnos, incontinência urinária e as traições da memória. Num almoço de domingo, diante de toda família, um maldito acendedor nos revelou que meus pais há muito deixaram de ser jovens. Não era segredo para ninguém, há anos que nunca foi. Mas lembrar do desconforto e da frustração presentes no rosto deles, duas pessoas idosas metaforicamente incapazes de produzir fogo, o segredo da vida, é algo que machuca legal.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-6286654866195087569?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/6286654866195087569/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=6286654866195087569&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6286654866195087569'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6286654866195087569'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/12/magiclick.html' title='Magiclick'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-7054836460501642031</id><published>2010-12-05T20:08:00.001-02:00</published><updated>2010-12-05T20:08:56.826-02:00</updated><title type='text'>Cabecinha dura</title><content type='html'>Nos últimos meses, minha memória inventou de me punir. De cada dez lembranças que me veem à cabeça, assim do nada, nove não são lembranças boas. Não acredito que eu tenha me convertido em uma pessoa mórbida ou derrotista – ainda que eu tenha sempre cultivado estes dois defeitos (será que são defeitos mesmo ou apenas um providencial freio para que a gente não se transforme em um babaca deslumbrado?) não acho que eles tenham fugido do controle de uma hora para outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As tais lembranças que vira e mexe me atazanam não têm nada a ver com mortes ou outros episódios igualmente tristes. São apenas um conjunto mais ou menos tolerável de decepções, de gafes, de mal entendidos, de pequenas mágoas que talvez pudessem ser evitadas, mas não foram. Então, nos últimos meses, quando minha memória decide resgatar algumas coisas do meu arquivo morto, só por pirraça resgata justamente os momentos em que fui patético – deixando encobertos pelo pó do tempo os momentos em que não o fui. Talvez fosse querer demais ser visitado apenas pelos episódios do passado em que eu marquei o gol – mas também não precisava ser assombrado por aqueles em que eu perdi o pênalti e ainda fui vaiado. Tudo me leva a crer que eu tenha desenvolvido uma memória seletiva ao contrário – só as chateações é que estão sendo preservadas pela minha massa cinzenta cada dia mais ranzinza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou fazendo o possível para acreditar que existe algo de positivo nisso. Talvez minhas memórias se mostrem mais interessadas em me educar do que em me punir – é como se, ao recuperar uma mancada de dez anos atrás, meu cérebro procurasse me dizer que eu não estou livre de novas mancadas, mas que aquela mancada específica eu não preciso mais reproduzir. É amarga, mas não deixa de ser uma lição. Meu medo é de que, a continuar assim, minhas memórias assumam o papel de uma grande mãe universal, disposta a me deixar de castigo até que eu peça perdão e jure não fazer mais traquinagens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se este é o lado positivo da questão (haja otimismo nesta constatação), também existe o lado que chega a ser quase desesperador. É ele que me diz que, por mais que o tempo passe, por mais que a gente acredite ter ganhado alguma sabedoria e por mais que a gente tenha se esforçado para refinar os nossos sentimentos em relação ao mundo e a nós mesmos, a gente não precisa de mais do que dez minutos para trocar os pés pelas mãos de novo. Basta botar a cara para fora que a gente vai começar a errar, a tropeçar, a dar cabeçada e a magoar a quem não devia. E, muitas vezes, esta pessoa a quem a gente magoa tanto, é aquela que invariavelmente trazemos de volta para casa noite após noite: nós mesmos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-7054836460501642031?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/7054836460501642031/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=7054836460501642031&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7054836460501642031'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7054836460501642031'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/12/cabecinha-dura.html' title='Cabecinha dura'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-2795526780881786335</id><published>2010-10-27T18:03:00.001-02:00</published><updated>2010-10-27T18:03:44.567-02:00</updated><title type='text'>Agulha</title><content type='html'>O Louco Amor de Yves Saint-Laurent, documentário sobre a vida e a carreira de um dos gênios da alta-costura francesa, em exibição na Mostra Internacional de Cinema, tem um título enigmático: depois de duas horas de exibição, saí sem entender o que havia de louco no relacionamento de 50 anos que o estilista manteve com o empresário e colecionador Pierre Bergé. Seria justamente a longevidade da relação? Nos dias que correm, loucura seria conviver com a mesma pessoa ao longo de meio século? Não me parece que este tenha sido o sentido do documentário, que só reforçou em mim uma antiga suspeita de que a convivência, ainda mais as duradouras, é um tipo de coquetel que exige uma dose de paciência e respeito muito maior do que de loucura. Ao menos por parte de um dos envolvidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não por coincidência, o documentário abrange os 50 anos que Saint-Laurent viveu ao lado de Pierre Bergé – período em que ele se consolidou como um dos maiores estilistas do mundo e, ao lado do parceiro, também um dos maiores colecionadores de arte moderna do planeta. Após a morte de Saint-Laurent, Bergé decidiu se desfazer desta monumental coleção que incluía mais de 700 itens, entre quadros de Picasso, Mondrian e Matisse. Num concorrido leilão realizado pela Christie’s, no Petit Palais de Paris, as peças, juntas, movimentaram mais de 200 milhões de euros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tudo isso é estatística. O que me atraiu no documentário não foram as geniais criações de Saint-Laurent, muito menos a grandiosidade de seus quadros e esculturas – imagens que, tanto umas quanto outras,  já estamos cansados de ver. Atraiu-me muito mais a disposição do diretor Pierre Thoretton em investigar a história de amor que, a exemplo da fama e da fortuna dos dois, também crescia de alguma forma – ou nem sempre. O emocionante depoimento de Bergé parecia demonstrar que ele não estava apenas interessado em passar adiante seus objetos de arte, mas também a história do seu relacionamento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem que Saint-Laurent tivesse vivido para dar sua versão sobre a história, o que me sobrou foi a ideia, talvez errônea, mas sempre presente em minha cabeça, de que os relacionamentos quase nunca são feitos em porções igualitárias de amor e dedicação: me parece que sempre sobra para alguém a tarefa de carregar o piano. Me parece que alguém tem sempre de ceder, de ponderar, de ir embora já sabendo que vai voltar quando o outro chamar, de perdoar e, acima de tudo, de acreditar que mesmo quando o teto está desabando sobre o casal, tudo não passa de apenas mais uma crise. Claro que, partindo do pressuposto que um papel como este deva ser representado, é bom que seja em sistema de revezamento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De tudo que foi dito e mostrado no documentário, uma frase persiste na minha cabeça. Ao se recordar dos anos em que Saint Laurent passou mergulhado no álcool e nas drogas, Bergé confessou que chegou a sair de casa. Ele se mudou para um hotel na mesma rua em que eles moravam. “Eu queria estar perto quando Saint-Laurent me chamasse de volta. Eu não conseguiria mesmo viver longe dele”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É assim. Alguém vai e alguém chama de volta. E, quem foi, muitas vezes atende este pedido. Seriam dois lados da mesma moeda?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-2795526780881786335?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/2795526780881786335/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=2795526780881786335&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2795526780881786335'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2795526780881786335'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/10/agulha.html' title='Agulha'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-4271611151752541118</id><published>2010-10-15T15:38:00.001-03:00</published><updated>2010-10-15T15:40:18.624-03:00</updated><title type='text'>Tateando</title><content type='html'>Noite dessas, zapeando pelos canais a cabo da televisão, coisa que raramente faço, parei para ver um documentário sobre uma cientista inglesa envolvida em trabalhos ambientais nas florestas da Indonésia. A insônia e a prostração realmente nos empurram para alguns programas que provavelmente evitaríamos em dias de juízo perfeito. Mas eu sempre tive interesse nestas pessoas que, sabe-se lá se por vocação, engajamento ou desilusão amorosa, abandonam a família, os amigos e o burburinho da civilização para se esconder em alguma floresta onde seus dias serão ocupados na observação de pássaros exóticos, grandes primatas e na ação perversa de caçadores. O objeto de estudos desta cientista, cujo nome não me recordo, eram os orangotangos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; O documentário exibiu uma foto da cientista de 30 anos atrás – quando ela chegou à floresta. Era uma morena bonita e de olhos claros, a quem não deveriam faltar pretendentes e uma vida social mais agitada em sua Londres natal. Mas ela preferiu passar a vida – ou os chamados melhores anos da vida – em meio a filhotes de orangotangos que estão aprendendo a subir em árvores. Já no fim do programa, ele encarou a câmera e disse. “Foi para isso que eu nasci, para estar aqui e cuidar destes animais”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém precisa dizer muito mais do que isso para ganhar o meu respeito, a minha admiração e, confesso, a minha inveja. Sou realmente fascinado pelas pessoas que sabem por que motivo elas nasceram. Eu provavelmente já gastei mais da metade do meu tempo nesta vida e ainda continuo tateando – acho que sei tanto da vida quanto naquele momento em que o médico me ergueu, olhou para minha mãe e disse: é menino. Gosto realmente das pessoas que encaram um trabalho (ou alguma outra atividade parecida) como se fosse uma missão – e que procuram cumpri-la de uma maneira que parece não haver dúvidas de que se trata realmente daquilo ali e não outra coisa. Como eu poderia ter uma certeza assim tão grande na vida se eu sou daquele tipo de pessoa que, numa doçaria, depois de ter dado a primeira mordida num brigadeiro, se arrepende na mesma hora, achando que deveria ter pedido o quindim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Creio que eu não sinta inveja da vida que aquela cientista leva na selva – eu acho que voltaria correndo para a cidade depois de dormir a primeira noite numa barraca . Mas o que me atraiu nela – e em outros casos semelhantes – é a convicção de estar fazendo algo no que realmente se acredita. A maioria de nós não poderia dizer a mesma frase sem correr o risco de esbarrar na hipocrisia. Faço uma série de coisas das quais gosto, sou levado a fazer outras tantas por necessidade de sobreviver, mas a coisa em si, a coisa suprema, sobre a qual eu poderia dizer que é nela que a minha existência se ampara, esta ainda, infelizmente, eu não encontrei. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto quase o mesmo tipo de admiração por aquelas pessoas que passaram por uma experiência que mudou suas vidas – em épocas de mineiros soterrados e resgatados, dispenso as experiências traumáticas. Falo de coisas mais prosaicas, de gente que diz assim: puxa, a natação mudou minha vida, depois que comecei a nadar, sou outra pessoa. Ou sou outra pessoa por que parei de fumar, ou por que li determinado livro que abriu todas as portas da minha percepção, ou por que descobri Deus em determinada religião, ou por que eu fui tocado pelo bem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu olho para mim e me vejo como uma pessoa que também faz várias e diferentes coisas, que também procura algum conforto nas artes, na convivência, na natureza e na realização profissional. Mas que guarda, para o bem ou para o mal, uma espécie de disco rígido no fundo da alma – que funciona direitinho mas é difícil de ser tocado – seja por uma poesia de Fernando Pessoa seja pelo prazer de ver um orangotango escalando sozinho a primeira árvore de sua vida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-4271611151752541118?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/4271611151752541118/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=4271611151752541118&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/4271611151752541118'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/4271611151752541118'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/10/tateando.html' title='Tateando'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-6205632932763012041</id><published>2010-09-04T23:39:00.000-03:00</published><updated>2010-09-04T23:40:59.304-03:00</updated><title type='text'>Salgado</title><content type='html'>Tarde dessas, saindo de um trabalho em Higienópolis, eu descobri a felicidade disfarçada de coxinha de frango na padaria Barcelona. Havia muito que eu não comia uma coxinha. No ano passado, impaciente com minha falta de empenho em reduzir meus níveis de colesterol, meu médico me obrigou a cumprir uma dieta restritiva que expulsou do meu cardápio várias coisas que me deixavam feliz: coxinhas, empadinhas, sorvete, linguiça, doces, chocolates e tantas outras que, a bem da verdade, conseguimos passar sem, mas a vida fica um pouco mais sem graça longe delas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brinquei com o médico que a gente estava vivendo tempos comedidos demais. Ele, sorrindo, concordou, afirmando temer que, dentro de alguns anos, no andar desta carruagem em que o prazer está se tornando quase que algo nocivo, a gente levantaria de manhã, tomaria um copo de água, depois um antidepressivo, uma folha de alface na hora do almoço e o remédio para baixar o colesterol antes de dormir. Exageros à parte, depois da morte do amigo Alberto Guzik eu tenho pensado muito nesta equação perversa que parece eliminar a felicidade da fórmula da longevidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Calma lá, sei que fui a extremos. Bem por isso eu disse exageros à parte. Reconheço que não é assim tão difícil tentar ser saudável, praticar esportes, comer menos, dormir melhor e ficar longe do cigarro, do álcool, do sal, do açúcar, das frituras, do café, do pãozinho francês, da carne vermelha, do tomate com agrotóxico. Meu medo é que, preocupados em obedecer a todos estes quesitos, a gente se esqueça de ser viver de forma desencanada. Se esqueça de exagerar um pouco, de se entregar a um certo descompromisso que um dia a gente experimentou na vida e do qual agora anda fugindo a todo instante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela coxinha representou, para mim, o que as famosas madeleines devem ter representado  para Marcel Proust – embora eu seja infinitamente menos talentoso para narrar a minha busca pelo tempo perdido. Mas, enquanto aquela casquinha crocante (maldita fritura!) derretia em minha boca, me lembrei de como já fui mais festeiro, de como eu costumava me entregar mais às festas, às baladas e a uma ou outra coisinha ilícita que rolava nestes lugares, de como eu precisava dormir menos e de como a gente era mais tranquilo em relação a tantas coisas que hoje ocupam tanto espaço no nosso dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda retornando ao Guzik, outro dia eu brinquei, com um amigo comum, que talvez fosse editorialmente mais interessante mudar o nome do romance inédito que o Guzik nos deixou, Estátua de Sal de Sodoma. Eu disse para o amigo que com certeza as vendas seriam maiores se o livro passasse a se chamar Estátua Sem Sal de Sodoma – um título mais com a cara destes tempos em que a gente se preserva tanto, mas tanto que de vez em quando vem a pergunta: mas para quê? Não sei, talvez a gente queira viver mais e melhor, o que seria um anseio justo. Mas será que existe alguma lógica em querer viver mais e melhor num planeta que está cada vez menos hospitaleiro com a nossa espécie?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, para terminar este post tão desanimado, digo aqui que acabo de ler na revista Veja uma matéria de seis páginas sobre as crueldades indescritíveis que cometemos contra os animais mundo afora apenas para que a nossa mesa seja farta de carnes cada vez mais suaves e sem músculos, de patês que deslizem cada vez com mais elegância sobre as nossas torradas importadas e de elixires que consigam o milagre de fazer o nosso pau subir quando todo o tesão do mundo já nos abandonou. E me deu uma tristeza tão grande de ser gente, tão profunda que, se eu não corresse o risco de ser internado, passaria a noite urrando e mordendo a canela de dor, como fazem os ursos da China a cada vez que perfuram seus abdomes para extrair a bile que os malditos chineses acreditam ser afrodisíaca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem dias em que viver é muito triste e muito foda. Com ou sem sal.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-6205632932763012041?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/6205632932763012041/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=6205632932763012041&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6205632932763012041'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6205632932763012041'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/09/salgado.html' title='Salgado'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-4565447233084924596</id><published>2010-08-30T21:15:00.000-03:00</published><updated>2010-08-30T21:16:10.499-03:00</updated><title type='text'>Por um dia de Stallone</title><content type='html'>A cada vez mais eu tenho certeza de que não poderia ser um cara fortão. Se fosse, acho que eu viveria brigando. Pois nunca vi uma época em que a delicadeza estivesse tão fora de moda. Tenho alguns amigos fortões, como o José Roberto Jardim e o Nicolas Trevijano que, além de atores, são campeões de kung-fu. Campeões mesmo, com troféu em casa e uma flexibilidade corporal que lhes permite passar o cotonete usando os dedos dos pés. Sempre admirei a força e a destreza dos dois – não por que eu seja um amante das lutas marciais. Mas porque eu imagino como seria bom encarar o barnabé que está conversando no cinema e mandar ele calar a boca. Como eu não sou nem o Nico e nem o Zé, eu faço uma cara feia para o barnabé. Se ele não parar de falar, faço outra cara feia e dou uma bufada. Se mesmo assim ele continuar falando, eu levanto e mudo de lugar – porque sei que dentista está caro e deve ser muito humilhante apanhar no cinema, ainda mais se a gente está com a razão. O bom do Nico e do Zé é que eles têm coração de manteiga e paciência de mãe – justamente por serem fortes e saberem disso, evitam brigar. Nunca vi nenhum dos dois metidos em qualquer confusão. Acho que, enquanto desenvolviam os bíceps, eles cuidavam também de estimular a paciência. Eu já estou numa fase bem distinta: não desenvolvi os músculos e estou perdendo a paciência a cada dia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se eu fosse um cara fortão, juro que eu encarava. Mas a última briga que tive foi aos 11 anos, no quarto ano primário. Dei uma guarda-chuvada na cabeça de um menino chamado Paulo, que tinha me dado um pontapé na bunda. E terminou aí a nossa contenda. Daquele dia até hoje, só dei um soco. E foi no computador, num dia em que a energia caiu e eu não tinha salvado nada do que tinha escrito. Além de perder tudo, fiquei com o maior medo de ter quebrado o computador. Felizmente, minha falta de força no muque preservou todas as plaquinhas do meu computador. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sou adepto da violência, não mesmo. Mas acho que algumas pessoas precisam levar uns sopapos para aprender a viver em sociedade. Na sexta-feira de manhã, em Higienópolis, um aluno de auto-escola parou o carro para que eu e uma babá com duas crianças, uma no colo e outra no carrinho, atravessássemos a rua na faixa de pedestre. Nada mais justo, correto e esperado da parte de um motorista, ainda mais em treinamento. Pois não é que um espírito de porco que estava no carro de trás começou a buzinar feito um louco e a ofender o aluno da auto-escola, só porque ele tinha parado pra gente cruzar a rua na faixa de pedestre? Não dá vontade de ir lá, pegar o cara pelos colarinhos e mandar ele enfiar a buzina no rabo?  Mas como a gente não quer confusão, atravessa a rua correndo e fica quieto. &lt;br /&gt;Outro dia, numa sessão lotada do shopping Frei Caneca, um carinha conversou com a namorada, em voz alta, o filme inteiro. Atendeu a três ligações do celular e fez outras duas. Pedi por favor para ele deixar a gente ver o filme. Pedi três vezes. Ele não deu a mínima. Como o cinema estava lotado, não adiantava bufar, fazer cara feia e mudar de lugar. Engoli em seco e tentei acompanhar o filme como se o carinha estivesse na sala da casa dele e eu fosse um convidado indesejável. Então eu me pergunto por que é a gente que sempre tem de ceder?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contei este caso para uma amiga e disse para ela que, se eu fosse um cara fortão, teria dado um bofete na cara daquele desgraçado. Porque eu acredito que um cara, que apanha num cinema na frente da namorada, vai pensar duas vezes antes de abrir a boca no próximo filme. Minha amiga ficou horrorizada com a minha teoria. Ela disse que violência gera violência, que ele podia ter uma arma no carro, sair do cinema na mesma hora e chamar uns amigos para me descer o cacete no fim do filme ou tomar qualquer outra atitude que viesse a me prejudicar. “Esses caras não têm nada a perder”, ela me disse. “O melhor que a gente tem a fazer e desviar e ficar quieto”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Concordo com ela. Mas que eu tive uma vontade quase incontrolável de dar uns cola-brinco naquele escroto, ah, isso eu tive. Do mesmo jeito que quis encher de porrada o motorista de Higienópolis. Mas de nada adianta. Tenho certeza de que hoje o carinha do cinema continua atazanando a vida de quem se sentar ao lado dele, do mesmo modo que o motorista de Higienópolis segue buzinando e ofendendo quem é educado no trânsito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a gente, que procura ser um pouco decente e educado, só se ferra, em todas as ocasiões. É a gente que tem de mudar de lugar, é a gente que tem de pedir por favor, é a gente que eternamente faz o papel do palhaço. Não estranhem se um dia me virem entrando numa academia de boxe. O mundo tá ficando tão hostil que é bom que algumas pessoas saibam que, depois do terceiro por favor, a gente também é capaz de se fazer ouvir com o punho fechado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-4565447233084924596?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/4565447233084924596/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=4565447233084924596&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/4565447233084924596'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/4565447233084924596'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/08/por-um-dia-de-stallone.html' title='Por um dia de Stallone'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-2810931679632704020</id><published>2010-08-27T19:16:00.002-03:00</published><updated>2010-08-27T19:24:24.534-03:00</updated><title type='text'>Fechado para reformas</title><content type='html'>Um aviso aos amigos queridos que costumam passear por aqui: estou passando por um período de muito trabalho e pouca inspiração. Queria que fosse o contrário, mas a gente precisa se adaptar ao que temos, não é?&lt;br /&gt;Como gosto muito deste espaço e costumo elaborar um pouco o que vou escrever (não sei se tal elaboração reflete no resultado, mas ao menos existe a intenção), achei melhor ficar um pouquinho quieto para não ser inconsequente e morrer pela boca.&lt;br /&gt;Eu acho que logo as coisas se acalmam e as ideias voltam. Não que elas tenham me abandonado, longe disso - elas estão sendo consumidas em outros projetos um pouco menos lúdicos do que este blog, mas igualmente necessários.&lt;br /&gt;Espero, em breve, ter algo novo para contar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-2810931679632704020?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/2810931679632704020/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=2810931679632704020&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2810931679632704020'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2810931679632704020'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/08/fechado-para-reformas.html' title='Fechado para reformas'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-7006445713137089395</id><published>2010-08-05T15:31:00.000-03:00</published><updated>2010-08-05T15:32:22.378-03:00</updated><title type='text'>Unha e carne</title><content type='html'>Depois de assistir ao filme Vincere, do diretor italiano Marco Bellocchio, passei alguns dias acreditando que as mulheres são capazes de amar de forma muito mais obsessiva que os homens. Entenda-se por obsessão o ato da entrega, da fidelidade e da dedicação ao outro de uma maneira tão cega e radical, que a própria vida de quem ama é posta em rico. E, no caso do filme, destruída.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O filme retrata Benito Mussolini antes de ele se tornar líder do partido fascista e ditador italiano que se uniria a Adolf Hitler na Segunda Guerra Mundial. O filme tem uma atmosfera opressiva, com personagens amedrontados diante de uma Itália convulsionada pela ascensão de um regime totalitário. A ordem é obedecer e calar. Mas uma jovem e bela mulher, Ida Dasler, dona de um salão de belezas, não faz nem uma coisa nem outra. Prefere propagar a quem estiver disposto a ouvir (e ninguém parece estar, a menos que seja para prejudicá-la) que ela é a verdadeira mulher de Mussolini, com quem teve um filho batizado com o mesmo nome do ditador. Mais eu não conto. O filme está em cartaz no CineSesc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei com a imagem e a atitude temerária daquela mulher na cabeça. E imaginei se um homem, nas condições em que ela se encontrava, seria capaz de amar e manter-se fiel da mesma maneira. Longe de mim acreditar que a capacidade de amar e manter-se fiel em meio ao caos seja um atributo exclusivamente feminino. Penso que os homens também sejam capazes de sacrifícios semelhantes, porém, e nestas histórias sempre existe um porém, julgo que os homens são educados de forma a encontrar alguma praticidade neste jogo amoroso. Em função disso, acreditava eu, eles resistiriam um pouco mais antes de se atirar à fogueira por causa de um amor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este conceito permanecia quase consolidado na minha cabeça até semana passada, quando um amigo, sem avisar da visita, bateu em minha porta. Achei estranho, já que hoje em dia nem os amigos mais íntimos surgem sem um telefonema prévio. Durante as duas horas em que ficou em casa, não foi de outra coisa que ele falou a não ser do quanto estava sofrendo...por amor. Tanto que tinha adquirido uma doença psicossomática que o fazia lembrar de sua paixão opressiva todas as vezes em que se olhava no espelho. A garota com quem ele tinha se envolvido, e que no dia da visita já o havia trocado por outro, não era assim uma Mussolini, mas sabia muito bem como pisar de salto alto num coração desavisado. O amigo não dormia mais, tinha mudado seus hábitos no bairro para não encontrá-la nas ruas e passava os dias a escrever cartas quilométricas em que tentava convencê-la de que ele era o homem da vida dela. Porque, na cabeça dele, ele já estava mais do que convencido disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois que ele foi embora, o filme me voltou à cabeça com uma nitidez impressionante. Separados por 70 anos de história, meu amigo e a personagem Ida Dasler se reencontraram por uma tarde em minha casa. E deste encontro me sobrou uma lição: se o assunto é padecer por amor, os homens também conseguem ser muito bons nisso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-7006445713137089395?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/7006445713137089395/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=7006445713137089395&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7006445713137089395'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7006445713137089395'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/08/unha-e-carne.html' title='Unha e carne'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-6314979886532248721</id><published>2010-07-31T15:15:00.001-03:00</published><updated>2010-07-31T15:15:58.189-03:00</updated><title type='text'>Susto</title><content type='html'>Faz um tempinho, fui visitar minha mãe e a encontrei muito nervosa. Uma prima dela havia tentado o suicídio pouco antes de eu chegar. Alguns parentes tinham acorrido à casa dela, a prima. Como eram vizinhas, estranhei a ausência de ambulância ou qualquer outro veículo de socorro na rua. Perguntei como estava a prima e minha mãe respondeu que ela já estava se recuperando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estranhei e pedi detalhes da história. Minha mãe contou que a prima, que estava enfrentando alguns quadros de depressão, tinha acordado especialmente triste naquela manhã. Mal saíra da cama. O marido dela foi trabalhar mas, por andar preocupado com o caso, resolveu dar uma passadinha em casa na hora do almoço. Encontrou a mulher desacordada, com uma garrafa de cerveja e um frasco de remédios, ambos vazios, em cima do criado-mudo. Assustado, ele chamou parentes e vizinhos e então começaram a reanimar a mulher. Em pouco tempo, ela acordou. Meio grogue, sem falar coisa com coisa. Deu um olhar de desprezo para toda aquela gente que enchia o quarto dela, virou de lado e voltou a dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só então o marido foi examinar o frasco de remédio que a mulher havia mandado goela abaixo. Era homeopatia. Ela tomou uma garrafa de cerveja com 30 bolinhas de açúcar. Ao ser acordada pelo marido, devia estar somente bêbada e feliz. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E a senhora está tão nervosa por causa disso?”, perguntei. “É, desta vez foi homeopatia”, respondeu minha mãe. “Mas vá saber da próxima....”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-6314979886532248721?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/6314979886532248721/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=6314979886532248721&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6314979886532248721'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6314979886532248721'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/07/susto.html' title='Susto'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-7304644477394742743</id><published>2010-07-23T16:40:00.001-03:00</published><updated>2010-07-23T16:42:09.961-03:00</updated><title type='text'>Reloginho</title><content type='html'>"Meu problema é que eu nasci cedo demais, comecei tarde demais e agora não dá mais tempo"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do personagem Mamma Rose, no finalzinho do musical Gypsy&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-7304644477394742743?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/7304644477394742743/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=7304644477394742743&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7304644477394742743'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7304644477394742743'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/07/reloginho.html' title='Reloginho'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-6516232850966269944</id><published>2010-07-21T19:28:00.002-03:00</published><updated>2010-07-21T19:36:52.480-03:00</updated><title type='text'>Vapt-vupt</title><content type='html'>Saí para almoçar com um amigo que eu não via fazia um tempinho. Ele me contou que, dia desses, conheceu uma garota enquanto ia para a padaria. Eles se cruzaram na rua e ela olhou com insistência para ele, o que o encorajou a pedir o número do telefone dela. Ela deu. Naquela mesma noite, ele lhe telefonou. Ela disse que morava ali no bairro, e que ele estava convidado a visitá-la na mesma hora. Ele foi. Rolou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois desse primeiro encontro, ele foi lá outras vezes. Na última vez em que a visitou, ele estava voltando da padaria. E ele terminou seu relato com a seguinte frase, na minha opinião já histórica. "Eu ando tão pouco romântico, mas tão pouco romântico que, saindo da padaria, eu passei na casa dela, fiz o que tinha de fazer e, ao chegar em casa, o pão ainda estava quentinho".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-6516232850966269944?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/6516232850966269944/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=6516232850966269944&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6516232850966269944'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6516232850966269944'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/07/vapt-vupt.html' title='Vapt-vupt'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-8117592272525102471</id><published>2010-07-21T19:27:00.000-03:00</published><updated>2010-07-21T19:28:41.410-03:00</updated><title type='text'>O Itaú me dá uma saudade do Unibanco</title><content type='html'>Se é que é possível se gostar de um banco, confesso aqui que gostava muito do Unibanco. Não só gostava, sinto uma imensa saudade . Eu achava o Unibanco um banco simpático por várias razões. Em primeiro lugar, por ele patrocinar um dos cinemas mais bacanas da cidade, o meu predileto não apenas pela programação, mas por que ali eu pagava meia...algo que, nos dias atuais, tem de ser levado muito em consideração. Em segundo lugar, porque as agências do Unibanco que eu freqüentava, na Rua Heitor Penteado e na avenida Paulista, não tinham aquela pavorosa porta eletrônica e eu nunca fui obrigado a deixar meu cinto, meu celular e minhas moedinhas naquela gavetinha para poder entrar na agência. Em terceiro lugar, porque raramente estas agências tinham fila (vai ver que é por isso que elas foram fechadas). E, finalmente, porque tudo o que eu não conseguia resolver pela internet, eu conseguia resolver pelo telefone. Os gerentes me conheciam e confiavam em mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em dezembro do ano passado, uma gerente do Unibanco me ligou para dizer que minha conta estava sendo migrada para o Itaú, onde eu encontraria o mesmo nível de atendimento que desfrutava no Unibanco. Melhor dizendo, minhas duas contas, uma como pessoa física e outra como pessoa jurídica. Acho que ninguém precisa ser um expert em serviço bancário para concluir que é muito mais fácil centralizar estas duas contas em uma mesma agência, não é? Pois o Itaú não pensa assim. Eles transferiram minha conta de pessoa física para uma agência e a de pessoa jurídica para outra. Quando fiquei sabendo disso, logo pensei: vai dar merda. Não deu outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somente agora, depois de seis meses sendo cliente do Itaú, consegui um cartão da conta da pessoa jurídica para poder transferir meu dinheirinho para a conta de pessoa física. Até então, passei seis meses indo até uma papelaria a três quadras da minha casa para passar um fax solicitando a transferência. Isso mesmo: fax, no século 21. Claro que na maioria das vezes, o número do fax estava ocupado, e eu tinha de voltar mais tarde. Teve uma segunda-feira em que consegui passar o fax na quarta tentativa. Comecei às dez da manhã e só consegui às três da tarde. Eu não acreditava em mim mesmo, subindo e descendo o dia inteiro com um fax nas mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As agências do Itaú vivem lotadas. Tentar falar com um gerente pelo telefone é um teste de paciência que nem um budista aguenta. E, claro, eles têm porta eletrônica e a gente só entra no banco se estiver praticamente pelado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que este post é o mais chato que eu já escrevi na vida. Mas ele tem um motivo: fiquei sabendo que, pelo segundo ano consecutivo, o Itaú lidera a lista de reclamações no Procon no setor bancário. Esta é minha humilde contribuição para descer a lenha neste banco chato.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-8117592272525102471?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/8117592272525102471/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=8117592272525102471&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8117592272525102471'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8117592272525102471'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/07/o-itau-me-da-uma-saudade-do-unibanco.html' title='O Itaú me dá uma saudade do Unibanco'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-1600655008733660054</id><published>2010-07-15T20:08:00.001-03:00</published><updated>2010-07-15T20:08:43.875-03:00</updated><title type='text'>Um pequeno grande filme</title><content type='html'>É raro de acontecer, mas às vezes acontece. Você leva para casa um filme do qual nunca ouviu falar, só porque conhece um ou dois atores do elenco e não havia nada mais interessante à disposição.  Está uma noite fria e chuvosa, a novela das oito já acabou e você não tem a mínima vontade de tirar o carro da garagem nem para ir ao aniversário da própria mãe. Está com preguiça de ligar para os amigos, já cansou de ficar na frente do computador e então, ao olhar de lado, vê esquecido num canto o tal filme para o qual você já torceu o nariz. Bom, não custa dar uma olhadinha de dez minutos, você pensa. E coloca o filme no DVD sem imaginar que está prestes a experimentar a uma hora e meia mais bacana dos últimos dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O filme em questão é Eu e Orson Welles, do diretor Richard Linklater, o que para mim não quis dizer muita coisa, pois sou péssimo para guardar nomes de diretor. Fui pesquisar e vi que ele já tinha feito Antes do Pôr-do-Sol e O Homem Duplo. Talvez eu esteja sendo otimista demais, mas, na minha opinião, trata-se do pequeno grande filme mais simpático do ano. É a história de um estudante nova-iorquino de 17 anos, ator e músico promissor, que consegue de maneira insólita um papel na montagem de Júlio Cesar, de Shakespeare, que Orson Welles, então com pouco mais de 20 anos, está dirigindo no decadente teatro Mercury, em Nova York. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Grande parte do filme transcorre durante os ensaios da peça – em que o gigantesco ego de Orson Welles pisoteia um time de atores tão esforçados quanto medrosos. Não fui adiante com a pesquisa, mas acredito que o filme é baseado em uma história real, tem todo o jeitão. Sedutor, mulherengo, arrogante e absurdamente talentoso, Welles é aquele cara que todos odeiam, mas de quem querem ficar perto porque sabem que alguma coisa muito boa ele tem para ensinar.  Às vésperas da estreia do espetáculo, tensos e inseguros, os personagens de Welles e do jovem ator ainda encontram tempo para se apaixonar pela mesma mulher, a belíssima Sonja, secretária do teatro vivida pela atriz Claire Danes, que por sua vez está muito mais interessada em conhecer o poderosíssimo David O. Selznick, que está fechando o elenco para as filmagens de ...E O Vento Levou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para quem curte cinema, teatro e literatura, o filme é tão bacana quanto um happy hour ao lado de amigos queridos. Não tem assim a força de uma baladona, mas a gente volta para casa muito mais feliz.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-1600655008733660054?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/1600655008733660054/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=1600655008733660054&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/1600655008733660054'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/1600655008733660054'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/07/um-pequeno-grande-filme.html' title='Um pequeno grande filme'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-8833817614952803642</id><published>2010-07-12T19:15:00.001-03:00</published><updated>2010-07-12T19:15:47.395-03:00</updated><title type='text'>Desculpem o nosso atraso</title><content type='html'>Vejo o goleiro Bruno lendo a bíblia na cela de um presídio mineiro. Me vem à lembrança a imagem do casal Nardoni também com a bíblia nas mãos numa penitenciária paulista. Concluo que a bíblia é um livro que chega um pouco tarde aos lugares em que deveria chegar. Se a houvessem lido um pouco antes, talvez Bruno e o casal Nardoni não tivessem feito o que são acusados de fazer. Alexandre e Ana Carolina Jatobá haviam rompido, para mim, a barreira do inominável. Nunca consegui visualizar a totalidade da barbárie pela qual eles foram julgados e condenados. A cena, na minha imaginação, termina no momento em que Alexandre teria carregado a filha, já inconsciente, até a janela. O que veio depois eu consigo ler e mesmo assistir nas reconstituições feitas pela polícia. Mas não consigo imaginar. Existe em mim um freio mental – criado talvez mais pela covardia do que pela nobreza – que me impede de produzir tais imagens na cabeça. Simplesmente me sinto incapaz de imaginar um pai soltando uma garotinha de cinco anos da janela do sexto andar de um edifício. Sou capaz até de escrever, mas não de visualizar. Agora, no caso da ex-modelo Eliza, ocorre o mesmo. Minha imaginação, com muito custo, vai até o momento em que ela é morta por asfixia por um dos capangas do goleiro. A sequencia de horror que irá terminar num canil de rotweilers também não se processa na minha imaginação. Quando a gente achava que Alexandre Nardoni havia atingido uma marca inigualável na competição da maldade humana, vem alguém e quebra seu recorde. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejo também, em prantos, a mãe de Eliza diante das câmeras de televisão. Algo muito conservador em mim, uma força retrógrada e reacionária que às vezes me assola – como o vilão Mr. Hyde assolava o doutor Jekyll, já que O Médico e o Monstro está na moda – me faz lembrar que esta mãe agora banhada em lágrimas abandonou Eliza quando ela tinha poucos dias de vida, talvez meses. Não sei qual foi o motivo deste abandono, e eu não teria a mais remota condição de julgar esta mulher. Mas é que eu não consigo afastar um pensamento daninho. A exemplo do que ocorreu com a bíblia de Bruno, eu tenho a impressão (vejam bem, o termo é impressão) de que as lágrimas da mãe de Eliza também chegaram atrasadas vários anos. Olho para ela e, antes de enxergar a mãe da filha morta, eu enxergo a mãe da filha abandonada. Paciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E vejo, ainda, as ações espetaculares promovidas pelas polícias do Rio de Janeiro e de Minas Gerais para solucionar o assassinato da ex-modelo. São imagens que levam ao deleite as câmeras do Jornal Nacional. E, como no caso da bíblia e das lágrimas, também me pergunto se nada poderia ter sido feito um pouco antes, quando Eloíza denunciou o goleiro por agressões, ameaças e indução ao aborto. Somente agora, oito meses depois de a modelo ter oferecido uma prova de urina ao Instituto Médico Legal, sai o resultado confirmando a presença de substâncias abortivas no material que ela entregou. Tudo me soa atrasado, criminoso e inconseqüente em relação à vida de uma jovem – até o momento em que as câmeras de tevê são ligadas. Daí surgem a bíblia, as lágrimas e as buscas. Eliza, mesmo, esta não surge mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para terminar, vale o registro da dupla alegria que a Espanha nos ofereceu neste fim de semana. A primeira, pela vitória na Copa; a segunda, por ter dado asilo aos presos políticos que Cuba começou a libertar. Mais de 60 presos (incluindo aí os familiares) devem chegar a Madri nas próximas horas. Faz um tempinho que apenas dois, somente dois, atletas do boxe haviam pedido asilo político para o presidente Lula. Mais do que depressa, ele despachou os dois de volta para a formosa ilha de Fidel. Que lição a Espanha está nos dando, no campo do futebol e no das relações internacionais. Já que está bem velhinho para aprender a primeira lição, Lula poderia, ao menos, se esforçar para aprender a segunda.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-8833817614952803642?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/8833817614952803642/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=8833817614952803642&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8833817614952803642'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8833817614952803642'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/07/desculpem-o-nosso-atraso.html' title='Desculpem o nosso atraso'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-2088089541501398641</id><published>2010-07-05T18:02:00.000-03:00</published><updated>2010-07-05T18:03:04.524-03:00</updated><title type='text'>Vrummmmmmmmmmm</title><content type='html'>Primeira marcha: há pouco mais de um ano, quando a Lei Seca entrou em vigor, escrevi um post um pouco irritado aqui. Se não me engano, a lei entrou em operação num fim de semana. No primeiro domingo de vigência da lei, me lembro de ter ido com dois amigos jantar no restaurante Mestiço, numa travessa da Rua da Consolação. Pedi uma caipirinha de frutas vermelhas (na época eu não sabia que caipirinha de frutas vermelhas não é bebida de homem, me contaram algum tempo depois) e um chope. Quando terminou o jantar, um dos amigos, que mora em Pinheiros, me pediu uma carona. Eu sabia que, naquela noite, a cidade estaria infestada de blitze da Lei Seca e que, se fosse parado no caminho, poderia perder a carteira de habilitação por causa da minha caipirinha boiola e do chopinho. Dirigi com tanto receio e preocupação como se estivesse transportando um cadáver no porta-malas. Foi sobre isso que falei naquele post. Agora a lei está completando um ano e a fiscalização voltou com tudo. Sempre que estou voltando para casa enfrento congestionamentos na avenida Doutor Arnaldo , causados pela fiscalização. Respeito a lei, mas confesso que não entendo algumas coisas. Por exemplo: o motorista de uma Kombi, dirigindo completamente embriagado, atropelou e matou três pessoas na Rodovia dos Imigrantes neste fim de semana. Conduzido à delegacia, ele pagou uma fiança de R$ 1,2 mil e foi solto imediatamente, como se tivesse passado por cima de uma garrafa pet jogada na pista.  Não parece estranho uma lei tão severa que coloca na rua um motorista ainda embriagado que acabou de assassinar três pessoas?  Com uma fiança de R$ 1,2 mil fica tudo certo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segunda marcha: alguém já tentou parar o carro nas imediações da Faap? Eu já, e confesso que é impossível. Há uma legião de flanelinhas atuando ali. Eles colocam cones no meio-fio para reservar as vagas na rua para os estudantes da faculdade. Uma tarde dessas, parei o carro numa dessas vagas. O flanelinha veio feito um louco pra cima de mim, perguntando quanto tempo eu ocuparia a vaga, já que ela estava reservada para um estudante. Respondi que não sabia e fui embora. Quando voltei, ele tinha entortado completamente a placa dianteira do meu carro. Será que ninguém da CET nunca viu esta barbaridade que os flanelinhas fazem ao lado da Faap, sob as barbas de todo mundo? Descobri, depois, que para reservar as vagas, eles recebem por mês dos estudantes, como se fossem donos de um estacionamento. Fico pensando se eles, os flanelinhas, não racham a grana com quem deveria investigar e punir esta atividade ilegal numa das regiões mais visadas da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terceira marcha: o único lugar em que ouço música é no carro. Vá entender. Mas não tenho o hábito de ouvir música em casa. Eu só consigo trabalhar no mais absoluto silêncio. O aparelho de som aqui de casa só funciona quando vem alguém me visitar – daí é legal colocar uma musiquinha. É por isso que, quando descubro um CD interessante, aumenta meu prazer de dirigir. No momento, estou ouvindo um CD antigo, chamado 20th. Century Blues, da genial Marianne Faithfull. Eu tenho este CD há pelo menos dez anos, mas havia me esquecido completamente dele. Esta semana, revirando umas gavetas, eu o encontrei e corri no carro para ouvir. Desde então, dirigir voltou a ser um imenso prazer. Ela tem uma versão de um clássico chamado Boulevard of Broken Dreams que é de chorar. Aliás, o disco todo é de chorar. Coloco o CD pra tocar, dou partida e, como raramente acontece, não tenho vontade de chegar a lugar algum enquanto não termina a última canção. Apenas vou indo, vou indo... Até que um dia a gente chega a algum lugar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-2088089541501398641?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/2088089541501398641/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=2088089541501398641&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2088089541501398641'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2088089541501398641'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/07/vrummmmmmmmmmm.html' title='Vrummmmmmmmmmm'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-6334014480426703325</id><published>2010-06-26T11:09:00.001-03:00</published><updated>2010-06-27T01:13:16.429-03:00</updated><title type='text'>Alberto Guzik</title><content type='html'>Conheci o Alberto Guzik no final dos anos 80. Ele já era um crítico de teatro respeitado e eu estava dando meus primeiros passos no jornalismo, como redator de cidades do Jornal da Tarde. Guzik trabalhava no caderno de Variedades, uma editoria que, na época, contava com muita gente de peso – o editor Edison Paes de Mello, o saudoso crítico de cinema Edmar Pereira, os repórteres Celso Fonseca, Isabela Boscov e Renata Lo Prete, a crítica de dança Helena Katz, o também crítico Rubens Ewald Filho e tantos outros que, com o tempo, foram abandonando o JT em busca de lugares em que seus talentos pudessem se expandir. Eu tinha um pouco de vergonha deste povo da Variedades, confesso. Enquanto eles cobriam a Mostra de Cinema, o Carlton Dance, o Free Jazz e entrevistavam artistas como Lou Reed e B.B.King, eu fazia matérias de acidentes de trânsito, buraco de rua e aumento do IPTU. Então, no finalzinho de 1989, eu recebi uma proposta de emprego da Fiat. Ia ganhar um pouco mais, trabalhar do lado de casa e ter todos os fins de semana livres – uma regalia que, ainda hoje, deve ser o sonho da maioria dos jornalistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu comuniquei à direção do Jornal da Tarde que havia recebido esta oferta de emprego, eles me fizeram uma contra-proposta irrecusável para o meu bolso e para o meu acanhado ego: aumento de salário e transferência imediata para o Caderno de Variedades, com uma mesinha e um computador bem ali, ao lado daquele time que me botava medo. Alberto Guzik foi um dos  primeiros a vir falar comigo. “Você já decidiu se vai para a Fiat ou fica para trabalhar aqui com a gente?”, ele me perguntou.  Achei estranho, pois eu nem imaginava que ele estivesse acompanhando esta negociação. Respondi que ainda estava analisando as propostas, mas que provavelmente eu ficaria no jornal. “Decide logo, a gente aqui está agoniado. Nem sei por que, mas a gente está agoniado. A gente quer que você fique”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este foi o primeiro diálogo dos milhões que eu teria com o querido amigo, o mestre, o incentivador e o pau pra toda obra Alberto Guzik, este profissional brilhante e desmesuradamente inteligente que acaba de nos deixar. É muito difícil, beira o impossível, falar sobre o Alberto Guzik quando a dor da perda ainda está fatiando o nosso peito. Mas penso que seria ainda mais difícil não falar nada. Eu acho que todos nós, aqueles que tivemos a chance e a honra de conviver com o Guzik, estamos nos sentindo como naquele momento em que a gente prende o dedo na porta do carro, mas ainda não doeu. A gente tem um segundo para olhar o dedo, já roxo, e se preparar para a dor abissal que nos atingirá no momento seguinte. A partida do Guzik nos prendeu a todos, nosso corpo, nossa alma, nossos corações na porta de um grande carro e daqui a pouco vai doer muito. Sei que ele não queria que doesse, sei que ele gostava de deixar a tragédia para os limites do palco que ele soube esquadrinhar como ninguém, mas como não sentir dor quando a gente, à deriva neste mar revolto que é a vida, olha para o lugar onde sempre esteve aquele farol e agora o farol apagou? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Guzik não era um sujeito fácil, justiça seja feita. Era reclamão, ranzinza, impaciente, não gostava de ser aporrinhado e não fazia o mínimo esforço para demonstrar que gostava de alguém se na verdade não gostava. Com ele era tudo na lata: se ele não gostava muito de você, o melhor que você tinha a fazer era não forçar a barra, porque conquistar sua simpatia à força era uma tarefa impossível. Vi muita gente que tentou e se estrepou. Mas até nessas horas ele era divertido – às vezes, se comportava como aquela tia birrenta que existe em toda família, sempre disposta a dizer o que deve ser dito, mesmo que seja no almoço de Natal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, caso ele fosse com a sua cara, meu Deus, ele iria ficar do seu lado e te defender como um cão de guarda. Ia te incentivar, ia te elogiar, ia te comparar a gente infinitamente mais talentosa que você, ia fazer o seu cartaz para todo mundo que ele conhecesse, ia cuidar da sua auto-estima como um contador deveria cuidar das nossas finanças. E ia fazer tanto esforço para te convencer que você era bom que, depois de duas cervejas, você ia estufar o peito e se achar do caralho. Quem teve a chance de compartilhar da amizade e da convivência com o Guzik sabe que eu não estou exagerando. E até quem não o conheceu pessoalmente, mas acabou ficando íntimo dele por meio daquele blog já saudoso que ele atualizava todos os dias, por meio dos livros ou das críticas que ele escreveu, também vai poder atestar que não há exageros nas minhas palavras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sempre tentei me disciplinar para acreditar que a gente vai embora desta vida quando chega a hora de a gente ir. Mas no caso de algumas pessoas, como o Alberto, a gente vai achar sempre que elas desrespeitaram esta regra e foram embora antes, muito antes do que deveriam. Ele tinha planos de escrever um novo livro (previamente batizado de “Eu e o meu Câncer”, no qual narraria sua experiência com a doença que o levou), queria fazer o novo espetáculo dos Satyros ao lado do Ivam Cabral e do Rodolfo Garcia Vasquez, dois dos representantes mais queridos da família que ele escolheu formar,  e queria, acima de tudo, acompanhar o crescimento da SP Escola de Teatro, que ele batalhou tanto para ajudar a implantar e não teve a chance de ver nem o primeiro dia de aula. Ô, vida sacana!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante os vários anos em que trabalhamos juntos no Jornal da Tarde (período em que eu tive o privilégio quase único de ler suas críticas em primeira mão e, por meio delas, aprender o pouquinho de teatro que talvez eu saiba hoje), chegamos a marcar nossas férias para a mesma época e assim poder viajar um pouco. Me diverti e aprendi muito nestas viagens com o Guzik – sem ser pretensioso ou pernóstico, ele sempre tinha algo interessante e curioso a dizer a respeito dos lugares, das pessoas, dos museus, das igrejas. O Guzik era o judeu que mais entendia da vida dos santos, dos milagres, das penitências e da fé católica que eu conheço. Eu vivia dizendo que ele seria impedido de entrar na sinagoga se não parasse com esta mania de saber tanto sobre os mártires cristãos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então, eis que esta última viagem ele resolveu fazer sozinho. Mas foi tão generoso com todos os amigos e admiradores que passou os últimos quatro meses embarcando um pouquinho por dia, para a gente ir se acostumando com a ideia de que uma hora dessas o voo dele ia mesmo ser anunciado. Alguns amigos, ou outras pessoas queridas que nem próximas são, mas que a gente gostou delas a vida inteira,vão embora tão depressa que a gente leva um tempo imenso para acreditar que eles realmente se foram. Com o Guzik, não. Ele foi indo embora um pouquinho por dia para que a gente fosse se habituando a tocar a vida sem a presença dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guzik foi um advogado que nunca exerceu a profissão, jornalista, crítico de teatro, professor, romancista, dramaturgo e, nos últimos anos, ator – o ofício que, desconfio, talvez lhe tenha dado mais prazer, orgulho e satisfação. Às portas de completar 60 anos, contrariando a prudência e o conselho dos amigos, abandonou a crítica e foi fazer teatro lá na Praça Roosevelt. Ficou pelado, se vestiu de mulher, aprendeu a cantar e deixou-se invadir por um salutar desbunde que sepultou a sisudez do respeitável mestre. Só então se permitiu uma maior proximidade (e amizade também) com a classe artística – uma categoria que, em seus tempos de crítico, ele admirava mais de longe, talvez para não embaralhar as coisas e manter límpido seu critério de avaliação &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou procurar guardar como lembrança cada um desses talentos do Guzik. Porém, nestes últimos meses, ele revelou que, ao lado do homem cerebral, vivia um  guerreiro, um cabra-macho que encarou a doença com uma coragem e uma força que mereceram até um elogio do Drauzio Varella, médico mais do que habituado a cuidar de pacientes com a mesma doença. Não desanimou, não deixou de acreditar em sua recuperação e permaneceu firme em campo até o último minuto da prorrogação. Mas uma hora o jogo tinha de acabar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Boa viagem, amigão. A gente vai ficar mais pobre, a gente vai ficar mais triste e a gente vai ficar mais burro por aqui. Mas vai, também, ficar mais teimoso para continuar acreditando que cada dia que temos aqui é um grande dia. Mesmo que seja um grande dia triste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;P.S. No início da noite do sábado, quando deixávamos o Crematório de Vila Alpina, havia uma lua cheia tão linda, mas tão linda no céu, que eu desconfiei que era o nosso grande amigo nos dando de presente o seu último truque de artista: por uma fração de segundo, ele fez a beleza ser maior que a dor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-6334014480426703325?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/6334014480426703325/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=6334014480426703325&amp;isPopup=true' title='27 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6334014480426703325'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6334014480426703325'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/06/alberto-guzik.html' title='Alberto Guzik'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>27</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-2733186107225481921</id><published>2010-06-22T18:22:00.000-03:00</published><updated>2010-06-22T18:23:08.260-03:00</updated><title type='text'>Urna</title><content type='html'>Antes que as pessoas desistam de ler este post já na segunda linha, adianto que não vou fazer aqui uma defesa da candidatura tucana à presidência da República. Só quero contar que, na noite de segunda-feira, enquanto o povo do CQC bombava na África do Sul e a Globo exibia um filme de ação com o Antonio Banderas, eu vi a entrevista do José Serra no programa Roda Viva, da Tevê Cultura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que Serra não é um candidato simpático, não há dúvida. Que ele se mostra impaciente com os jornalistas, isso também não é segredo. Que ele não está preocupado em agradar à custa de demagogia, também é de domínio público. Como também não deve ser segredo o fato de que seu conhecimento do Brasil é enciclopédico. Fiquei abestalhado com a quantidade e diversidade de dados,  números, históricos e minúcias que ele apresentou para justificar cada uma de suas respostas. Nem o Google consegue ser mais rápido que o raciocínio do Serra na hora de lançar mão de estatísticas, pesquisas e estudos para ilustrar ou endossar suas teses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se eu fosse a Dilma Rousseff, também estaria com medo de participar de debates, sabatinas e grandes programas de entrevista, principalmente depois deste passeio do Serra pela bancada do Roda Vida. Mesmo com todo o apoio e carisma do Lula, deve ser difícil para ele entrar sozinha na jaula dos leões e mostrar a que realmente ela veio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Repito: não estou fazendo propaganda serrista, não defini meu voto e não tenho absolutamente nada contra a Dilma – aliás, estou fazendo um esforço considerável para ter alguma coisa a favor, mas está difícil. Só sinto que, depois de uma hora e meia ouvindo José Serra, fica muito difícil não admitir o óbvio: tecnicamente ele é o candidato mais preparado nesta corrida presidencial. Tecnicamente, repito. Mas eu sei que as eleições devem ter um quê de Copa do Mundo: nem sempre o mais preparado tecnicamente é o que chega lá. No caminho da vitória ou do gol há paixões, torcidas, conchavos, bolões e até vuvuzelas dispostas a fazer muito barulho para confundir a cabeça do eleitor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-2733186107225481921?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/2733186107225481921/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=2733186107225481921&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2733186107225481921'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2733186107225481921'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/06/urna.html' title='Urna'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-851810868844543210</id><published>2010-06-21T14:13:00.003-03:00</published><updated>2010-06-21T14:26:36.548-03:00</updated><title type='text'>Aprendiz de feiticeiro</title><content type='html'>Finalmente as pessoas se deram conta de que está nascendo um novo Galvão Bueno. Ele se chama Tadeu Schmidt, está ganhando um espaço absurdo na cobertura da Copa do Mundo e reúne todas as condições para, em pouquíssimo tempo, superar o seu mestre. Acredito que, para as milhões de pessoas que estão vendo os jogos da copa, foi uma alegria muito grande, quase uma vingança, saber que nesta segunda-feira o bordão "Cala a Boca, Tadeu Schmidt" foi o campeão de postagens no Twitter, chegando a superar o histórico Cala a Boca, Galvão. Espero que sirva de alerta para o jovem profissional, que ainda não se decidiu se é repórter, humorista, poeta, cronista ou bufão. Se ele continuar no ritmo em que está, e com o prestígio que vem recebendo da emissora em que trabalha, daqui a alguns meses sentiremos muita saudade do Galvão Bueno. E a postagem campeã do twitter provavelmente será: Volta, Galvão Bueno. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema é que o mundo está tão de cabeça para baixo, com os valores tão invertidos, que provavelmente ao ser informado de que virou a estrela do twitter nesta segunda, ainda que por motivos tortos, o jornalista vai respirar feliz e convicto de que está no caminho certo. Na próxima vez em que aparecer na televisão, com certeza hoje à noite, ele terá uma nova crônica tão, mas tão chata, que passaremos a acreditar que Pedro Bial é Carlos Drummond de Andrade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-851810868844543210?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/851810868844543210/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=851810868844543210&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/851810868844543210'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/851810868844543210'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/06/aprendiz-de-feiticeiro.html' title='Aprendiz de feiticeiro'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-2555272042661643738</id><published>2010-06-18T19:12:00.002-03:00</published><updated>2010-06-18T19:18:01.672-03:00</updated><title type='text'>Minha dívida com Saramago</title><content type='html'>Fui informado por um amigo, na hora do almoço, que o escritor português José Saramago tinha morrido. Fiquei surpreso, um pouco triste, mas daí, como sempre acontece em casos do tipo, a gente comenta a última coisa que soube, ou leu, a respeito desta pessoa que acabou de partir e retoma a nossa vida no mesmo instante. Desta vez, como eu tinha um compromisso profissional na hora seguinte, retomar a vida exigiu pouco esforço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resolvi agora escrever algumas linhas sobre o Saramago porque eu tenho uma dívida pessoal com ele. Não, eu nunca o conheci e nem o vi pessoalmente. Não, ele nunca soube da minha existência. Mas isso não impediu que eu tivesse uma grande dívida com ele, uma dívida que eu estou tentando pagar há quase dez anos, mas os juros parecem se agigantar mais rapidamente do que minha possibilidade de recuperação financeira e moral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1997, Saramago publicou um livro chamado Todos os Nomes. Não acredito que este livro tenha passado em branco, mas seguramente não alcançou o mesmo êxito de títulos como O Evangelho Segundo Jesus Cristo ou Ensaio Sobre a Cegueira. Todos os Nomes narra a história angustiante de um personagem chamado José, funcionário do Registro Civil de Lisboa, que leva uma vida assustadoramente medíocre e insuportavelmente monótona. Ele está muito próximo de ser um ninguém, um nada, um ser humano que, depois de 40 anos de vida, não deve ter encontrado uma única razão que justificasse o seu nascimento. O seu José sempre me pareceu uma versão um pouco mais moderna, embora tão insignificante quanto, do senhor Akaki do conto O Capote, de Nicolai Gogol – dois sujeitos tão insípidos que, se um dia suas mães os encontrassem na rua, seriam capazes de dizer: engraçado, parece que eu conheço este homem, mas não me lembro de onde. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando terminei de ler Todos os Nomes, eu estava assustado. Muito assustado. Porque, mais do que um personagem de ficção, o seu José se erguia como a imagem do nosso descuido. Era como se ele me dissesse, ou nos dissesse, para suavizar um pouco a ameaça, que se não tomássemos as rédeas de nossas vidas e fizéssemos delas algo interessante e prazeroso, era ele, o seu José, que a gente iria encontrar logo mais adiante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois anos depois de ler o livro, algumas circunstâncias me empurraram para a terapia. Talvez fosse mais elegante dizer que as circunstâncias me conduziram para a terapia, mas, no meu caso, o que valeu foi mesmo um empurrão – da vida e de dois ou três amigos. Então, na primeira sessão, uma sexta-feira fria e chuvosa, em que eu cheguei ao consultório antes do psiquiatra e tive de esperá-lo no corredor, começou minha dívida com o Saramago. O médico me perguntou o que tinha me levado até lá. Contei algumas coisas provavelmente normais de se contar numa situação dessas, falei de uma tristeza aqui, de uma decepção ali, de um vazio cá, lá e acolá, e finalmente fiz o meu estranho pedido de paciente novato. “Por favor – pedi ao psicanalista – não deixe que eu me transforme no seu José”. Ele perguntou quem era o seu José. Como o livro estivesse ainda muito quente na minha memória, tentei ser o mais fiel possível na hora de descrever aquele homem que eu queria eliminar do meu futuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já se foram quase dez anos daquela sexta-feira chuvosa e, se alguém me perguntasse, ainda hoje, o que eu fiz de mais relevante neste tempo todo, eu responderia, sem medo de soar piegas: eu continuo fugindo do seu José. E, como nos pesadelos, evito olhar para trás. Tenho um sincero e justificado medo de que, por mais que eu tenha me esforçado para me distanciar dele, seu hálito continua roçando o meu ombro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-2555272042661643738?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/2555272042661643738/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=2555272042661643738&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2555272042661643738'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2555272042661643738'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/06/minha-divida-com-saramago.html' title='Minha dívida com Saramago'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-8822898641652250669</id><published>2010-06-08T15:54:00.001-03:00</published><updated>2010-06-08T15:57:13.864-03:00</updated><title type='text'>Feliz aniversário, Guzik</title><content type='html'>O amigo Alberto Guzik faz aniversário nesta quarta-feira, dia 9. Vai passar a data na UTI do Hospital Santa Helena, onde foi internado há mais de cem dias para uma cirurgia delicada, é verdade, mas que teve todas as complicações possíveis. É muito triste. Mas eu – e acredito que tantos outros amigos que estão acompanhando esta luta diária do Guzik – faço um esforço danado para não me entregar à tristeza. Penso que, se ficarmos tristes, estaremos de alguma forma traindo toda a força, garra e mesmo a alegria que o Guzik tem demonstrado durante este grande período de internação, em que ele já venceu uma pancreatite e está bravamente nocauteando uma infecção hospitalar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu acho que os nossos inimigos deviam ser bem grandes, para que a gente pudesse encará-los na luta ou fugir deles se fosse mais prudente. Mas estes inimigos invisíveis de tão pequeninos são os piores – eles parecem saber a hora exata em que a gente se tranqüilizou e baixou a guarda para planejar um novo ataque. Mais que um paciente, estou começando a acreditar que o Guzik é um general de guerra, um herói com quatro estrelas no ombro que já aprendeu que o inimigo não dá tréguas. Ele sempre soube que a guerra seria dura – talvez não tanto quando está sendo, é verdade -, por isso nunca permitiu que o desânimo chegasse perto. Nas várias vezes em que estive no hospital, encontrei o Guzik ora feliz, ora irritado, muitas vezes querendo pular daquela cama, desligar todos os fiozinhos e entrar correndo no primeiro teatro de portas abertas que encontrasse pela frente. Mas desanimado, isso nunca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A última vez em que estive com ele foi na quarta-feira, 26 de maio, faltando três dias para ele enfrentar uma nova cirurgia – prevista para ser a penúltima. Mas nem sempre nas guerras as coisas saem conforme o planejado. Tamanha era a disposição do Guzik que, se eu fechasse os olhos, seria capaz de jurar que aquela conversa estava sendo levada num boteco, numa praia, numa pracinha ensolarada – jamais num hospital. Eu e o ator Chico Ribas ficamos com ele por mais de uma hora, tempo suficiente para que ele falasse mal das novelas que era obrigado a ver – a tevê do quarto dele só sintonizava os canais abertos – e perguntasse tudo sobre as peças e filmes que estávamos vendo, às festas a que estávamos indo, os projetos, os anseios, a vida que continuava a correr normalmente para além das paredes daquele quarto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco antes de irmos embora, ele disse que estava absolutamente confiante no resultado da cirurgia que faria no sábado. Talvez eu não me lembre de cor, mas são grandes as chances de ele ter usado estas palavras: “Eu não consigo deixar de ser otimista. E olha que eu até tento, mas não consigo. Na minha cabeça, tudo vai dar certo e eu vou poder ver os últimos jogos da Copa na minha casa. É só nisso que penso e acredito. Às vezes, aparecem uns pensamentos ruins, é verdade. Mas eles não duram nada. Aparecem e já vão embora”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu nunca fui muito bom para acreditar nestes lances de energia e pensamento positivo. Mas agora é um bom momento para mudar de opinião. Tô mandando um abraço imenso, um beijão e os votos de melhor aniversário do mundo pro Guzik. Neste mesmo dia do ano que vem, se Deus quiser, a gente vai poder fazer tudo isso pessoalmente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-8822898641652250669?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/8822898641652250669/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=8822898641652250669&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8822898641652250669'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8822898641652250669'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/06/feliz-aniversario-guzik.html' title='Feliz aniversário, Guzik'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-6579523066159711992</id><published>2010-06-05T14:04:00.001-03:00</published><updated>2010-06-05T14:04:29.817-03:00</updated><title type='text'>Papel carbono</title><content type='html'>...e então a gente se dá conta de que aconteceu com a gente também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se trata aqui de falar de algo específico, mas de um conjunto de coisas, um grande conjunto de coisas. A gente olha apressadamente para o espelho e poderia jurar que viu a imagem do nosso pai refletida ali; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;se trai na hora de fazer algum comentário e percebe que a sua mãe poderia ter dito aquilo – e você a chamaria de uma velha careta e conservadora;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; se esquece de que algumas coisas que anda fazendo são justamente aquelas coisas que algum tempo atrás você criticava e tinha a certeza, uma certeza arrogante, de que jamais as faria, não você; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;se surpreende ao notar que já está, agora, na metade de um caminho que até algum tempo atrás você tinha certeza de que não iria trilhar; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;se entristece a notar que sua fé está bem menor, e o tamanho da sua fé, em si e no resto da humanidade, era algo que o enchia de orgulho;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não ri mais das coisas que costumava rir, por prudência, recato, medo de parecer idiota ou por que não acha nada mais daquilo engraçado, o que vem a ser a pior das hipóteses; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;dá uma olhada na agenda, na de papel, e não sabe onde foram parar alguns amigos, logo aqueles que era difícil imaginar a vida sem eles, e você não apenas imagina a vida sem eles, agora você toca a sua vida sem eles;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;você abre o armário e tem vontade de jogar fora tantas coisas que já não dizem mais nada e você nem se lembra mais por que as guardou mesmo; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;escondido do mundo e de si próprio, você se lembra de uma época em que ficava abismado ao ver algumas pessoas escondidas do mundo e de si próprias;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;reserva para o mundo um olhar triste e desesperançoso, o olhar de um médico diante de um paciente precocemente condenado, e se recorda do tamanho do medo – e da piedade – que sentia quando flagrava um olhar como este que agora é o seu;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pensa em voltar e começar uma nova estrada, mas vê que o combustível está acabando, que não se lembra mais de onde as estradas começam e decide seguir pois, dos males o menor, você já está na metade do caminho mesmo;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;é acometido por aquela sensação desconfortável e pretensiosa de que já viu quase tudo, de que tudo foi, é ou está condenado a ser igual, quando seu despreparo diante da vida é a prova mais evidente de que ainda não viu quase nada;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e o cansaço, e o cansaço, e o cansaço...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...e então a gente se dá conta de que aconteceu com a gente também.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-6579523066159711992?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/6579523066159711992/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=6579523066159711992&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6579523066159711992'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6579523066159711992'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/06/papel-carbono.html' title='Papel carbono'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-6390824979327834018</id><published>2010-05-31T17:36:00.000-03:00</published><updated>2010-05-31T17:37:06.888-03:00</updated><title type='text'>Pedaço de mim</title><content type='html'>Comecei a ler ontem, e já passei da metade – o que não chega a ser um grande feito, visto que são apenas cem páginas – o último livro do escritor americano Philip Roth publicado no Brasil, A Humilhação. Mesmo quando não chega a ser genial, como no caso de A Marca Humana, Casei com um Comunista ou Indignação, Philip Roth se mantém como um autor muito acima da média.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Humilhação trata de um tema que seguramente representa um pesadelo para atores, músicos, escritores ou qualquer outra pessoa que trabalhe com arte: a perda da inspiração e do talento. Um dia, você acorda e se dá conta de que não consegue – ou não sabe – mais fazer aquilo que sempre fez bem e que permitiu a você chegar aonde chegou – supondo que a gente tenha chegado a algum lugar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob este aspecto, é um relato assustador, paranoico até. Por mais que as pessoas que convivem com o velho e famoso ator Simon Axler, o protagonista do livro,insistam em dizer que ele continua talentoso e carismático, ele sabe que foi abandonado por aquela centelha cujo brilho (que agora se percebe efêmero) o diferenciou dos demais atores de sua geração. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais que o abandono da mulher, dos filhos e da própria juventude, este parece ser o mais dolorido dos abandonos. O abandono de si próprio, aquele que te conduz a uma situação em que você não se reconhece mais capaz de fazer o que fazia, não se sente mais seguro para arriscar e acredita que o mundo a sua volta converteu-se em uma imensa camada de gelo fino, pronta a te engolir no primeiro passo que der. A mulher e os filhos podem ter ido para algum lugar conhecido onde sempre vai ser possível encontrá-los, a juventude provavelmente se consumiu em todos os espelhos nos quais você se mirou – e fez o mesmo com todos os seus amigos – mas o mais difícil é encarar, como no caso do personagem, uma parte de você, talvez a melhor delas, que resolveu te abandonar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem deixar vestígios, sem dizer para onde foi e, o que é pior, deixando a impressão de que é para sempre.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-6390824979327834018?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/6390824979327834018/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=6390824979327834018&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6390824979327834018'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6390824979327834018'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/05/pedaco-de-mim.html' title='Pedaço de mim'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-7461081708068432438</id><published>2010-05-28T15:40:00.000-03:00</published><updated>2010-05-28T15:41:03.434-03:00</updated><title type='text'>Coxia</title><content type='html'>No início do ano, eu estava voltando do Rio de Janeiro, sozinho no carro, quando um policial rodoviário me parou. Ele pediu meus documentos e perguntou o que eu fazia da vida. Respondi que era jornalista. Nestas ocasiões, eu acho sempre mais prudente dizer que sou jornalista. Quando a gente responde que também escreve para teatro, as pessoas costumam ficar muito decepcionadas ao descobrirem que a gente não escreveu nem Irma Vap e nem Romeu e Julieta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor é repórter do jornal O Globo?”, ele então me perguntou. Respondi que não, que eu morava em São Paulo e escrevia para publicações daqui. “Hum...sei... que negócio é esse de publicações?” Falei que eu era jornalista autônomo e escrevia para vários lugares... só que nós, jornalistas, costumamos chamar estes ‘lugares’ de publicações. “Entendi”, ele falou. “Então o senhor tem coluna?” Calmamente expliquei que não. Que eu não era colunista de lugar algum, que escrevia matérias quando os jornais e revistas me pediam. “Sei...sei...mas o senhor escreve sobre o quê?” Àquela altura, eu compreendi que a curiosidade dele não teria fim enquanto eu não fosse absolutamente didático. Expliquei a ele que eu escrevia sobre teatro, sobre peças que estavam entrando em cartaz, que entrevistava atores, diretores, escritores de peças, enfim, que basicamente eu escrevia sobre tudo que se referia a teatro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me olhou, fechou os documentos e me entregou a carteira. “Puta moleza de vida. Vai ser policial pra ver o que é bom, vai”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez alguém ficasse ofendido com isso. Eu, sinceramente, acho estas histórias uma delícia. Elas revelam um certo desconhecimento, ou uma certa ingenuidade, sobre o ofício do teatro. Mas eu sempre acho que é tudo muito saboroso. Há alguns anos, eu estava jantando no restaurante Luna di Capri com o ator Pedro Henrique Moutinho, que atuava em uma peça minha, O Encontro das Águas, ali pertinho, no Satyros. Chegou um casal para jantar e eu vi que eles tinham assistido à peça naquela noite. O cara disfarçou, disfarçou, até que chegou pro Pedrinho e perguntou: “Oi,você é o ator da peça que eu acabei de ver, né? O Encontro das Águas?”. O Pedrinho respondeu que sim. “É que eu tenho uma curiosidade sobre teatro. Você tem de falar toda noite esta mesma coisa ou se um dia você quiser mudar pode?” O Pedrinho explicou que tinha de ser toda noite igual, a mesmíssima coisa. “Nossa, deve enjoar, né?” Disse isso e voltou para junto da namorada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A última variação sobre o mesmo tema é bem recente. Aconteceu na semana passada. Eu estava fazendo esteira, na academia, quando chegou um professor novo. “Roveri, é verdade que você escreve peça de teatro?”, ele me perguntou. Reduzi um pouco a velocidade da esteira, que já não era muito alta mesmo, para tomar fôlego e dizer que sim. “Puxa, que legal. Mas você escreve só a peça ou escreve a história também?” Reduzi mais um pouquinho a velocidade. “Olha, normalmente, eu escrevo a peça e a história, tudo junto. É um pacote só”. Ele arregalou os olhos. “E o roteiro, quem escreve?” . Respondi que eu escrevia a peça, a história, o roteiro, os diálogos, os nomes dos personagens, tudinho. “Caramba, deve cansar, né?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ô, se cansa!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-7461081708068432438?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/7461081708068432438/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=7461081708068432438&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7461081708068432438'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7461081708068432438'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/05/coxia.html' title='Coxia'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-7713809342617248656</id><published>2010-05-26T17:42:00.001-03:00</published><updated>2010-05-26T17:44:29.144-03:00</updated><title type='text'>Brioche</title><content type='html'>"De tanto fazer o que é razoável, perde-se a dignidade"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do dramaturgo francês Michel Vinaver, mais afiado do que nunca aos 83 anos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-7713809342617248656?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/7713809342617248656/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=7713809342617248656&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7713809342617248656'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7713809342617248656'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/05/brioche.html' title='Brioche'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-9028710712980519115</id><published>2010-05-25T13:13:00.000-03:00</published><updated>2010-05-25T13:14:39.074-03:00</updated><title type='text'>Morrer na praia</title><content type='html'>Semana passada vi pela televisão um programa especial sobre o projeto Tamar, instituição mantida pela Petrobrás para cuidar da preservação das tartarugas marinhas na costa brasileira. O apresentador conversou com os biólogos do projeto sobre os diferentes tipos de tartaruga que habitam as praias do Brasil, seus hábitos, tamanhos e uma ou outra peculiaridade. Até aí, nada demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que me chamou a atenção foi a última parte do programa, quando repórter e biólogo acompanharam de madrugada o nascimento de centenas de tartaruguinhas. Podiam ser milhares, se as raposas não vissem nos ovos de tartaruga, enterrados na areia a 50 centímetros de profundidade, uma iguaria dos deuses. Mas até aí, tudo bem também – é só a natureza seguindo o seu curso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então as tartaruguinhas começaram a aparecer. O biólogo explicou que elas levaram três dias lutando contra a areia para vencer aqueles 50 centímetros que as separavam da superfície. Não entendo nada de tartarugas, mas depois de ouvir esta explicação, passei a acreditar que elas já chegavam à superfície completamente exauridas. E ainda tinham pela frente a última etapa de seu difícil parto: correr até o mar. E neste percurso, talvez de uns dez ou 20 metros, a maioria delas morria nas garras dos caranguejos, que estavam ali, à espreita, esperando apenas que elas saíssem de seus ninhos, depois de três dias de trabalho árduo, para virarem banquete de fim de noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então eu vi ali uma grande e cruel metáfora da vida: há os que dão um duro danado e há os que chegam e levam tudo. A gente esperneia, reclama, sofre e depois se dá conta de que até na natureza (ou principalmente nela) é assim mesmo que as coisas são – um trabalho insano e desesperado para tudo terminar na boca dos caranguejos. Como faço parte da natureza também, espero ansioso pelo meu dia de caranguejo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-9028710712980519115?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/9028710712980519115/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=9028710712980519115&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/9028710712980519115'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/9028710712980519115'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/05/morrer-na-praia.html' title='Morrer na praia'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-7320492751934716515</id><published>2010-05-20T13:12:00.001-03:00</published><updated>2010-05-20T13:12:42.740-03:00</updated><title type='text'>Páginas</title><content type='html'>“Você é daquelas pessoas que, por princípio, já não esperam nada de nada. Há tanta gente, mais jovem ou mais velha que você, que vive à espera de experiências extraordinárias – dos livros, das pessoas, das viagens, dos acontecimentos, de tudo que o amanhã guarda em si. Você não. Você já aprendeu que o melhor que se pode esperar é evitar o pior. É essa a conclusão a que chegou, tanto na vida privada como nas questões gerais e nos problemas do mundo. E quanto aos livros? Aí está: justamente por ter renunciado a tantas coisas, você acredita que seja certo conceder a si mesmo o prazer juvenil da expectativa num âmbito bastante circunscrito, como este dos livros, em que as coisas podem ir bem ou mal, mas em que o risco da desilusão não é grave”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do escritor Italo Calvino, no capítulo de abertura do livro Se um Viajante Numa Noite de Inverno&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-7320492751934716515?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/7320492751934716515/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=7320492751934716515&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7320492751934716515'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7320492751934716515'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/05/paginas.html' title='Páginas'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-2568179893825677313</id><published>2010-05-18T15:29:00.000-03:00</published><updated>2010-05-18T15:30:17.175-03:00</updated><title type='text'>Ilusão infantil</title><content type='html'>É quase uma fábula. Mas com final nem tão feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um amigo me contou ontem que quando ele era garoto, por volta de dez anos, costumava perguntar aos amiguinhos assim: “Hei, você gosta da Hebe Camargo?” Os amiguinhos respondiam que não. Então ele fazia outra pergunta: “E de missa, você gosta?” Os amiguinhos respondiam que também não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então ele voltava para casa muito feliz, repetindo a si próprio que se ninguém gostava nem da Hebe e nem de missa, quando eles crescessem não haveria mais nem Hebe e nem missa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Cresci, fiz 40 anos e a Hebe Camargo nunca esteve tão em evidência e nunca vi tantas missas e tantos cultos na televisão como agora. Você pode me explicar o que foi que aconteceu”, ele me pediu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se alguém souber a resposta, juro que conto pra ele.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-2568179893825677313?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/2568179893825677313/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=2568179893825677313&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2568179893825677313'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2568179893825677313'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/05/ilusao-infantil.html' title='Ilusão infantil'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-2409302707653476540</id><published>2010-05-16T17:12:00.002-03:00</published><updated>2010-05-16T17:15:20.182-03:00</updated><title type='text'>No alvo</title><content type='html'>"No concurso chamado 'a vida', não deve haver nem vencedores e nem perdedores; a única disputa que eu reconheço não é a com seus semelhantes, mas com sua própria imperfeição, na qual o único adversário é você mesmo. Porque o mais difícil não é vencer seu próximo, mas amá-lo e dividir com ele essa curta felicidade que é a vida"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do escritor e roteirista russo Aleksandr Gálin&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-2409302707653476540?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/2409302707653476540/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=2409302707653476540&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2409302707653476540'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2409302707653476540'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/05/no-alvo.html' title='No alvo'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-1043530270522474383</id><published>2010-05-14T16:16:00.002-03:00</published><updated>2010-05-14T16:22:01.687-03:00</updated><title type='text'>A vida é sonho</title><content type='html'>Sou uma pessoa que sonha muito. Não aquele tipo de sonho com o sucesso, dinheiro ou uma vida longa e feliz. Os sonhos aos quais me refiro são aqueles que ocorrem à noite, enquanto durmo. Acredito que todas as noites. Muitos sonhos. Já li que todas as pessoas sonham todas as noites – e mesmo os animais sonhariam. A diferença é que algumas pessoas se lembram dos seus sonhos, enquanto que outras não. Sou um digno representante do primeiro time. Me lembro de tudo com tanta clareza que, às vezes, meu estado de humor durante determinados dias parece estar intimamente ligado aos sonhos que tive à noite. De tão mirabolantes que são, evito contar meus sonhos aos amigos, com medo de ouvir deles que estou inventando tudo. Nos meus sonhos há lugar para todo mundo, desde os amigos mais íntimos, passando pelos conhecidos até chegar em gente como George Clooney, Madonna e Brad Pitt. Nos meus sonhos, eles falam português fluentemente e moram todos em Jundiaí, cidade em que nasci e que até hoje é o cenário de quase todos os meus sonhos, embora eu tenha saído de lá há mais de vinte anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao lado da casa em que passei a infância, havia um bar, com uma mesa de sinuca. Em um destes sonhos, passei uma tarde inteira jogando sinuca com a Julia Roberts. O problema do sonho é que ninguém sabia quem ela era, só eu. E todos os outros fregueses só queriam que a gente desocupasse logo a mesa. Em outro sonho, chegou um circo bem mambembe na cidade, e instalou sua lona puída no fim da rua, em um grande terreno baldio de terra vermelha. Eu gastei toda a lábia que tinha para tentar convencer o dono do circo a dar uma chance para um amigo meu, que era cantor e estava disposto a se apresentar ali, de graça. De tanto implorar, o dono do circo concordou com que meu amigo cantasse apenas duas músicas – e nem aplaudido ele foi. Meu amigo era o Caetano Veloso.  Como estes, há dezenas de outros. Até com o papa eu já sonhei. No meu sonho, cansado e com dor de cabeça, o papa sai na janela do Vaticano e atira um balde de água nos milhares de fiéis que estavam ali só para vê-lo. Depois, pega o microfone e manda todo mundo à merda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se eu fosse um paciente que gastasse as sessões de terapia apenas para contar os sonhos, eu não teria tempo de conversar sobre mais nada. Só menciono os meus sonhos para o terapeuta quando eles fogem demais da minha compreensão. Mas demais mesmo. Daí eu peço alguma ajuda, pois acredito que talvez eles estejam querendo dizer alguma coisa que foge à minha compreensão. Como no caso de três sonhos recorrentes, que me acompanham há vários anos e eu ainda sofro para decifrar os seus enigmas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No primeiro deles, eu estou de volta ao exército. Eu realmente servi o exército, passei um ano inteirinho lá e dei baixa como cabo. No sonho, eu estou de volta ao meu primeiro dia no exército, justamente na hora de receber a farda. Tento explicar a todos que eu já prestei o serviço militar, que não tenho mais idade para ser recruta e que minhas obrigações com os milicos estão quitadas. Ninguém acredita em mim e me obrigam a ficar. Terei, então, mais um ano pela frente para marchar, prestar continência e disparar tiros para lugar algum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No segundo sonho, existe uma casa imensa, praticamente um palacete, bem na frente da casa em que eu vivia na infância. No sonho, esta casa gigantesca pertence à minha família, mas não podemos nos mudar para lá. Da janela da casa pequena em que eu nasci, eu passo horas observando aquela mansão à nossa espera. Só há uma rua a nos separar dela, podemos quase tocá-la – mas nem eu e nem ninguém da minha família tomamos posse da casa. Estamos condenados (e conformados) a viver na casa pequena. Em algumas situações, recebemos a visita de parentes e amigos. Então, os levamos até o portão e exibimos, orgulhosos, aquela bela casa da frente que nos pertence. Mas, como nós, é na casa pequena que as visitas também entram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O terceiro sonho é o mais angustiante. Estou conversando com alguém, qualquer alguém, e de repente os ânimos vão se alterando e a conversa dá lugar a uma discussão absurda e violenta. Neste momento, na hora de defender meu ponto de vista e meus interesses, eu perco a voz. Quero falar, quero brigar, quero discutir e minha garganta não emite um único som. Acordo dilacerado diante daquela mudez tão inoportuna e dolorida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que deve haver algumas explicações para estes sonhos, das mais banais às mais complexas. Na minha cabeça, já tentei interpretá-los de todas as maneiras. A prova de que eu falhei é que estes sonhos continuam me visitando com uma imensa frequência. Mas não me aborreço mais. Porque, quando estes sonhos chatos dão uma trégua, eu posso jogar sinuca com a Julia Roberts e agendar shows para o Caetano Veloso. Não é pouca coisa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-1043530270522474383?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/1043530270522474383/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=1043530270522474383&amp;isPopup=true' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/1043530270522474383'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/1043530270522474383'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/05/vida-e-sonho.html' title='A vida é sonho'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-2727578132196624708</id><published>2010-05-09T19:22:00.000-03:00</published><updated>2010-05-09T19:23:11.471-03:00</updated><title type='text'>Dúvidas I e II</title><content type='html'>Primeira dúvida&lt;br /&gt;A toda hora a ciência nos surpreende com novas descobertas. Telescópios espaciais nos presenteiam com imagens deslumbrantes do universo, antropólogos comprovam que existem genes do neanderthal correndo soltos em nosso sangue e a cada dia parece haver menos segredos no campo científico a serem revelados. Só uma coisa os cientistas não conseguem desvendar: onde é que o apresentador Fausto Silva compra aquelas camisas com brasões no peito? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segunda dúvida&lt;br /&gt;No dia do jogo entre Corinthians e Flamengo pela Libertadores da América, a rádio Bandeirantes fez uma pesquisa com centenas de torcedores. A resposta mais ouvida foi a seguinte: eles não se importavam em ver os seus times fora da competição, desde que o Corinthians fosse eliminado. A reportagem quis saber, no fundo, o que os torcedores mais desejavam. A resposta: que, em primeiro lugar, o Corinthians se ferrasse, pouco importando se os times para os quais eles torciam também levassem a pior.Se o futebol, em alguns casos, reflete um pouco a nossa vida do lado de cá dos estádios, será que a gente também não se importa em se dar mal, desde que os outros se ferrem mais ainda? Dá um medo de pensar assim....&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-2727578132196624708?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/2727578132196624708/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=2727578132196624708&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2727578132196624708'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2727578132196624708'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/05/duvidas-i-e-ii.html' title='Dúvidas I e II'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-6768833345507997622</id><published>2010-05-04T14:55:00.001-03:00</published><updated>2010-05-04T14:55:31.131-03:00</updated><title type='text'>O bom filho à casa torna...</title><content type='html'>Se este espaço fosse uma criança, teria morrido de inanição nas últimas semanas. Não me lembro de outro período em que eu tenha sido tão relapso com este blog. Dei início e apaguei vários posts. Nada do que eu começava a escrever me parecia interessante. Se não era interessante a mim, imagine aos outros. Já antecipo, para evitar futuras decepções, que o que segue abaixo talvez não seja interessante também, mas espero que sirva de aquecimento para alguém que estava tão afastado deste pequeno confessionário virtual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi o trabalho que me deixou longe. O excesso de trabalho, quero dizer. Gosto de trabalhar, mas não muito. Resolvi perder a vergonha de confessar isso diante de uma sociedade que parece admirar tanto os workaholics. Eu não admiro, sinto muito. Por mais excitante e compensador que seja o trabalho, sempre achei que quem passa 18 horas por dia enfurnado nele está tentando fugir de alguma coisa. Generalizar é um erro, eu sei. Mas todas estas pessoas que se orgulham em dizer que dormem cinco horas por noite e passam o resto do tempo trabalhando me dão um pouco de medo. Medo de mim, principalmente, porque na presença delas – e elas são muitas – eu me sinto um vagabundo. A cada dia eu aprendo a admirar mais os meus dois gatos, que dormem 18 horas por dia e tentam ser felizes nas seis que restam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nestes últimos tempos, no entanto, estive bastante afastado deste ideal felino de ser. Não cheguei às 18 horas de trabalho, e nem pretendo. Mas acho que me aproximei bem das 12 ou 13, o que também me parece bastante. Ao final de uma jornada deste porte, minha cabeça está esvaziada. Preciso recarregar a bateria longe de computadores e telefones. Volto-me, então, aos livros, filmes, programas televisivos de baixíssima qualidade – e eles existem aos montes – ou cervejinha com os amigos. Este último quesito é o meu predileto. Ainda mais quando os amigos não exigem discursos bacanas, posturas políticas ou raciocínios muito elaborados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falando em amigos, tenho vários que conseguem se dedicar a sete ou oito projetos simultaneamente. Eu, quando tenho três, já jogo a toalha. Meu cérebro não é multifuncional. Ele opera para trabalhar em um projetinho de cada vez – ao menos se esforça para fazê-lo bem. Só depois de concluído um trabalho, é que consigo pensar em outro. Paguei caro nas vezes em que desrespeitei este meu jeito: acordo de noite preocupado com prazos, perco o apetite diante de resultados finais que não me agradam e sinto uma compulsão para pegar o telefone e dizer para quem me contratou que estou abrindo mão de tudo. Como acho péssimo fazer isso, estou cada vez mais no lema devagar e sempre. &lt;br /&gt;Assim, sempre que notarem minha ausência prolongada por aqui, podem apostar em duas coisas: ou é muito trabalho ou é vagabundagem total. Torçam pela segunda alternativa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Drops 1: fui assistir ao filme Alice, de Tim Burton, alguns dias depois de ver o filme do Chico Xavier. Com todo respeito que o filme do Daniel Filho merece, cheguei à conclusão de que, em Alice, a vida que nos espera depois que a gente vai pro buraco é muito mais bacana e divertida. Se a gente vai mesmo encontrar alguém do lado de lá, espero que seja o Chapeleiro Maluco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Drops 2: tenho ido ao menos uma vez por semana visitar o querido amigo Alberto Guzik no hospital. O Guzik, quando estava bem, era uma dessas pessoas que conseguiam se envolver em dez atividades simultaneamente. E eu nunca entendi como ele conseguia dar conta de todas elas. Deve ser genético, porque mesmo agora, preso a uma cama de hospital, ele consegue estar muito mais informado do que eu sobre o mundo aqui fora. Ele sabe de todas as estreias, todos os filmes e todas as festas. Acho que ele tem um anjinho da guarda muito fervido, que sai todas as noites para descobrir o que está rolando do lado de cá do hospital.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-6768833345507997622?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/6768833345507997622/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=6768833345507997622&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6768833345507997622'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6768833345507997622'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/05/o-bom-filho-casa-torna.html' title='O bom filho à casa torna...'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-4033467665176929167</id><published>2010-04-19T19:13:00.000-03:00</published><updated>2010-04-19T19:14:37.873-03:00</updated><title type='text'>Um domingo para visitar Clarice</title><content type='html'>Como deve ter ocorrido com muitos leitores, fiquei fascinado pelo universo de Clarice Lispector ainda na adolescência. Aquela narrativa entrecortada, que desafiava a gramática que ainda estávamos aprendendo, aquela urgência em expelir as ideias, como se a morte pudesse surpreendê-la antes do final do parágrafo, e principalmente aquela tragédia iminente pronta a nos assombrar na linha seguinte. Tudo me fazia crer que não havia no mundo literatura mais apta para confortar o sobressalto e as incertezas dos corações jovens do que a literatura de Clarice. Ou para atirá-los de vez no abismo, como muitas vezes ocorreu comigo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o tempo foi passando e, por prudência ou covardia, o coração foi se aquietando. Os livros de Clarice, então, foram sendo empurrados para o fundo da estante por outros autores que escreviam com menos sangue e tremor nas mãos. Ou, como disse certa vez o jornalista Ruy Castro a respeito de Elis Regina, com menos vinagre na voz. Já adulto, e bem adulto, fui reler A Paixão Segundo G.H., um dos títulos de Clarice que haviam me tirado do prumo no primeiro ano da faculdade de jornalismo. E a temível barata que tanto me afugentara, já não me assustava mais. Nem asco, nem dor. Talvez uma curiosidade, ou a saudade de alguém que eu tinha sido. Ou, ainda, o temor de não saber quem havia mudado tanto: eu ou a barata. O certo é que devolvi o livro a uma das gavetas aqui de casa, onde a tal barata deve sofrer até hoje com a falta de ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falei sobre isso há algum tempo com um amigo, ele ainda um leitor assíduo de Clarice. Ele disse que entendia este meu desapego pela obra da escritora, embora com ele a situação tivesse sido inversa: quanto mais o tempo passava, mais ele a apreciava e dependia dela. E usou uma imagem ao mesmo tempo linda e perigosa para definir Clarice. “Ela era uma escritora com o fio desencapado”. Pode parecer bobo, mas eu gostaria de ter dito isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, no domingo, fui ver o espetáculo Simplesmente Eu: Clarice Lispector, solo que deu a Beth Goulart o prêmio Shell de melhor atriz do ano no Rio de Janeiro. Não é o caso de falar muito sobre o trabalho de Beth aqui – ainda que seja imprescindível dizer que em cada respiração do espetáculo percebe-se a inteligência e a dedicação de uma atriz talentosa e obcecada pela perfeição. Na composição de quatro personagens presentes em contos e romances de Clarice e na ousada representação da própria escritora em cena, com seus maneirismos e sotaques, Beth Goulart demonstra que levou a sério os anos que passou a pesquisar a vida e a obra da escritora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com todo respeito à bossa nova, eu diria que o espetáculo foi me conduzindo com a suavidade de um barquinho que vai enquanto a tardinha cai. Achei estranho, porque toda aquela paz parecia não combinar com o universo desencantado da escritora. Até que as águas se tornaram turvas, as ondas agitadas e os trovões no céu anunciaram o fim da brincadeira: agarre-se quem puder porque, de agora em diante, o dedo imortal de Clarice vai machucar a nossa ferida. O nocaute veio nos minutos finais, nos quais a atriz, tendo apenas o rosto iluminado, eleva uma estranha prece a Deus. Uma prece que fala das nossas ansiedades, do nosso desejo de sermos amados e da salvação que só se revela quando conseguimos amar o outro, do nosso medo da morte e do que vem depois dela (se é que algo virá), da nossa inutilidade aos olhos da natureza, incapaz de nos diferenciar de um rato morto na estrada, do nosso apetite de vida e da nossa vontade absurda de que este Deus a quem rezamos exista e possa nos ouvir. Ao final, Clarice diz que tem somente um desejo: a de que ela possa ter, na hora de partir, uma mão amiga para segurar a mão dela. E isso já teria sido o bastante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o espetáculo acabou, entendi que, naquele momento, a arte havia conseguido ser mais forte que a religião. Não sei se vou me reaproximar da literatura de Clarice, não sei mesmo. Mas senti que sobre aquelas palavras finais poderiam ser erguidos templos e estátuas. Clarice Lispector escreveu ali os dez mandamentos do homem moderno, sem falar em pecado, cobiça ou inveja. Mas, paradoxalmente, falando sobre algo que é muito mais perigoso que tudo isso junto: a vida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-4033467665176929167?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/4033467665176929167/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=4033467665176929167&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/4033467665176929167'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/4033467665176929167'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/04/um-domingo-para-visitar-clarice.html' title='Um domingo para visitar Clarice'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-8770476202358123834</id><published>2010-04-08T17:28:00.001-03:00</published><updated>2010-04-09T01:22:53.675-03:00</updated><title type='text'>Gasparzinho</title><content type='html'>Na noite de quarta-feira, participei de uma demorada reunião em um café ao lado de um cinema de shopping. Enquanto a chuva desabava lá fora, o trânsito estava caótico e a vontade de todo mundo provavelmente era de ficar em casa, eu me surpreendia com o tamanho das filas diante das salas que exibiam o filme sobre o Chico Xavier. Achei que aquela visão era tudo o que a família Barreto havia desejado para o seu Lula, O Filho do Brasil. Ainda não assisti ao filme do Chico Xavier, mas fiquei sinceramente feliz ao ver tanta gente no cinema numa noite tão inóspita. Chico Xavier é o nosso Avatar que não precisou de óculos 3D para enxergar os desejos do público. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sempre simpatizei com o espiritismo, embora não consiga acreditar em quase nada do que os espíritas dizem. O que não chega a ser um demérito para a religião, pois também acho complicado acreditar que Maria concebeu uma criança sendo virgem e que Cristo, antes de experimentar ele próprio o milagre da ressurreição, tenha trazido de volta à vida alguns mortos que julgava ou queridos ou importantes. E que, depois de ressuscitado, tenha subido aos céus com corpo e tudo. Prefiro acreditar no muito pouco que a ciência consegue nos explicar e deixo as questões celestiais para um outro momento da vida, quem sabe para quando a vida estiver perto do fim e a gente então, por medo e covardia, decide se apegar a qualquer coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensar desta forma não faz de mim uma pessoa mais feliz. Ao contrário. Na maioria das vezes fico desesperado com tantas perguntas sem resposta e com a aparente inutilidade de nossa existência. Eu invejo (olha aí um pecado!) quem tem fé. Mas a fé dos convictos, não a fé de quem acha prudente acreditar em algo para garantir um cantinho gostoso no além. Invejo os que acreditam sinceramente que Deus nos ouve, que olha por nós, que um dia mandou seu filho único para dar um upgrade na nossa humanidade tão mesquinha. Invejo quem acredita de coração que exista um lugar melhor à nossa espera, que iremos encontrar as pessoas queridas que já foram e que, neste lugar, a nossa alma vai ficar bem mais bacana do que ela é hoje em dia. São todas coisas nas quais eu gostaria de acreditar, mas tenho uma dificuldade imensa. A fé deve ser algo que deixa as perguntas de lado. Se a gente já começa duvidando, nem adianta entrar no jogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tenho um amigo muito querido que há algum tempo decidiu aproximar-se do espiritismo. Ele ficou, mesmo, uma pessoa mais feliz, mais leve e mais compreensiva. Mostra-se sempre disposto a ajudar quem precisa e o mau humor é uma condição que ele riscou do seu cotidiano. Então ele me conta algumas coisas que aprendeu no centro espírita e eu penso: ai, meu pai, como minha alma é rasteira e incrédula. Eu juro que tento crer nas coisas que ele me diz, como na existência de hospitais espirituais nos quais a nossa alma vai ser tratada após a nossa morte, em todos os entes de luz que vão nos ajudar no momento da travessia, nos estágios que faremos antes de decidirmos reencarnar novamente, em todos os obstáculos e provações que optaremos por encontrar na nossa próxima vida, nas nódoas espirituais que carregaremos justamente por não termos cuidado do nosso corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além de duvidar de tudo isso,eu não consigo entender como é que todo mundo de repente fica bom só porque morreu. Nos relatos que ele me conta, parece não haver mais lugar para raivas, ciúmes, decepções, invejas e angústias depois do nosso último suspiro. Extinguem-se todas as maravilhas e os horrores das paixões humanas. Então, é como se todos os males do mundo fossem responsabilidade do nosso corpo de carne. Liberta da nossa forma humana, a única forma que conhecemos e que a natureza levou milhares de anos para delicadamente esculpir, a nossa alma, enfim, conheceria a bondade e a perfeição. Repito: eu gostaria de acreditar, mas como é difícil. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que alguém iniciado no espiritismo vai dizer que este meu raciocínio é de um primarismo que assustaria até uma alma-penada. Mas é a minha maneira de pensar a respeito deste assunto a partir das informações que coletei ao longo da vida. E não foram, confesso, informações preguiçosas. Mais de uma vez eu me esforcei para ler os livros psicografados, mas nunca consegui passar da página dez. Não por que eles sejam mal escritos (e são mesmo, paciência!), mas porque todos trazem uma ingenuidade comovente. Tão ingênuos e tão comoventes que eles, às vezes, levantam-se como ameaça à nossa inteligência e ao nosso discernimento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há alguns dias eu falei para um amigo (que parece ser tão incrédulo quanto eu eu) que apesar do meu ceticismo, eu também tenho medo de que tudo acabe nesta vida aqui. Tenho medo de que somente a escuridão profunda e eterna estará à nossa espera – em contrapartida, não teremos consciência para sofrer com isso. Então, eu disse a ele, para evitar decepções futuras e ausência total de comunicação, eu já vou deixar escritas umas 10 ou 12 cartas psicografadas que serão lidas em intervalos de um mês após a minha morte. Tudo isso já para adiantar as coisas. Não sei ainda o que vou dizer nestas cartas, mas espero ter tempo para pensar. E, para não fugir à regra, prometo que só vou falar de coisa bacana. Espero que ninguém me desmascare.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-8770476202358123834?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/8770476202358123834/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=8770476202358123834&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8770476202358123834'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8770476202358123834'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/04/gasparzinho_08.html' title='Gasparzinho'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-6548793409242253458</id><published>2010-03-30T15:41:00.001-03:00</published><updated>2010-03-30T15:41:51.939-03:00</updated><title type='text'>Trem fantasma</title><content type='html'>CINCO COISAS QUE ME DÃO MUITO MEDO. PELA ORDEM DO SUSTO;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1) A capa da revista Rolling Stone, com o Pedro Bial escovando os dentes. (se tivesse escovado direitinho, desde criança, os dentinhos dele seriam mais branquinhos, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2) A atriz Suzana Vieira vivendo Maria, mãe de Jesus, no espetáculo da Paixão de Cristo em Nova Jerusalém (de Virgem Maria ela não tem nada, talvez só a idade aproximada da personagem)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3) O quadro de Marco Luque no programa CQC (supostamente, ele deveria dar respostas engraçadas para perguntas dos telespectadores. Mas a gente só ri, de alívio, quando o quadro termina)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4) O cenário, o figurino e as barbas postiças da série A História de Ester, na Record (é tudo tão feio que a sala da casa da gente parece que foi decorada pelo Sig Bergamin)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5) Ver a Xuxa fazendo comercial de shampoo (se ela tivesse cabelo, ia ser bem bacana)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-6548793409242253458?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/6548793409242253458/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=6548793409242253458&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6548793409242253458'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6548793409242253458'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/03/trem-fantasma.html' title='Trem fantasma'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-1564512536796884911</id><published>2010-03-23T16:14:00.000-03:00</published><updated>2010-03-23T16:15:20.719-03:00</updated><title type='text'>SOS Mulher</title><content type='html'>Já adianto que este não é um post feminista, ainda que sua intenção primeira seja sair em defesa das mulheres. Não sei se elas precisam, mas vou defendê-las mesmo assim. Nas últimas semanas, dei de prestar mais atenção nos comerciais de tevê e passei a sintonizar o rádio do carro em emissoras de notícias – acho que ando mais preocupado em saber das condições do tempo e do trânsito do que das novidades do mundo pop. Ou ouço notícias ou o CD Iê Iê Iê, do Arnaldo Antunes, que para mim faz as rimas mais simples e bacaninhas da música brasileira. Pois nesta minha recente imersão em notícias e comerciais, percebi o seguinte: a onda do politicamente correto, que decidiu preservar os anões, os gays e os gordos, não está nem aí pra mulherada. Em grande parte dos comerciais, elas continuam a aparecer como gastonas, fúteis ou como obstáculos para a felicidade dos seus maridos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muita gente caiu de pau no comercial da cerveja Devassa, que trazia uma Paris Hilton toda insinuante na janela de um apartamento na orla carioca. Tanto fizeram, que o comercial saiu do ar. Um amigo jornalista, cheio de fontes no mundo corporativo, me garantiu que aquele corpão nem era o da Paris Hilton. A loira americana, sem bunda e sem peitos, teria precisado de uma dublê nas gravações do comercial. Só a carinha de queixo pontudo era mesmo dela – o resto, todas aquelas curvas sinuosas, era produto brasileiro mesmo. Mas eu nem achei aquele comercial de cerveja tão ofensivo assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Para mim, muito pior é uma propaganda que está sendo veiculada agora, de uma cerveja que quer ser chamada de cervejão. Para poder sair e beber com os amigos, o rapaz do comercial tem de deixar o cartão de crédito com a namorada, que vai passar o dia esfolando a conta bancária do coitado. É um casal que realmente se merece. O que o comercial no fundo quer dizer? Que a liberdade tem, literalmente, um preço medido em cifrões: o rapaz aceita pagar por um dia livre na companhia dos amigos e a moça concorda em receber. Em troca de uma sandália nova, ou de um vestido da estação, ela não está nem aí para que o companheiro vai fazer. Realmente muito dignificante. Não sei se é machismo de minha parte, mas custo a acreditar que numa operação como esta a mulher leve alguma vantagem. Como nestas grandes transações financeiras, eu acho que ela está comprando a parte podre do negócio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No sábado, acho que mais por birra do que por distração, fiquei no carro ouvindo um programa especial sobre o evento Risadaria, uma reunião de comediantes que se estendeu por todo fim de semana no Ibirapuera. Uma amiga insistiu muito para que eu fosse com ela, mas eu fujo desta onda de stand-up comedy com o mesmo empenho que uma criança foge de salada de legumes. O programa do rádio era o seguinte: vários repórteres pediam para que os participantes do Risadaria contassem algumas piadas publicáveis no ar. Foi tão engraçado quanto ouvir o boletim dos congestionamentos nas marginais. Quase todos os comediantes contaram piadas sobre mulheres burras, feias ou depravadas. Fiquei ouvindo o programa por quase meia hora: contabilizei uma piada sobre criança gulosa, outra sobre velhinhos e todo o resto foi sobre mulheres. Um comediante disse que ter ciúme de mulher feia era tão desnecessário quanto colocar no seguro um Fiat 147. Outro contou a piada de um detetive que, ao ser contratado para seguir os passos da mulher de um homem desconfiado, encontrou a sua própria mulher, loira, é claro, no quarto de um motel – de onde a retirou na base de chutes e pontapés. Entendi, com tristeza, que parte dos nossos humoristas ainda vive de fazer pinturas nas cavernas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para completar minha semana feminina, leio na Folha de S. Paulo, de domingo, uma entrevista em que a atriz Lúcia Veríssimo diz que tem aprendido muita coisa com a velhice. Lúcia Veríssimo tem 51 anos. A coisa anda tão ruim para o lado das mulheres que uma delas, ainda bonita e famosa aos 51 anos, aceita que a velhice já chegou... Muito triste.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-1564512536796884911?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/1564512536796884911/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=1564512536796884911&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/1564512536796884911'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/1564512536796884911'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/03/sos-mulher.html' title='SOS Mulher'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-6791535284210083676</id><published>2010-03-10T19:56:00.000-03:00</published><updated>2010-03-10T19:57:14.910-03:00</updated><title type='text'>Café pequeno</title><content type='html'>Há dois meses foi inaugurado um restaurante sérvio na Vila Madalena. Um casarão quase de esquina, de paredes revestidas com páginas de jornais impressas em alfabeto cirílico e uma simpática varanda onde é possível ouvir um tipo de música que me pareceu cigana. Antes, no mesmo endereço, funcionou por pouquíssimo tempo um restaurante de comida mineira que eu visitei apenas uma vez, na companhia do amigo Márlio Vilela, um mineiro bem mais original do que a refeição que nos foi servida. Sou curioso por estes cardápios meio exóticos ao nosso paladar, como o catalão, o húngaro, o peruano. Embora, sempre que visite um lugar assim, talvez por medo eu peço o prato que me soa mais familiar. No caso do restaurante sérvio, onde estive no último domingo, optei por um peixe cozido com legumes. Mais banal, impossível. O que valeu a visita, no entanto, ainda estava por acontecer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O garçom, vestido com roupas militares, perguntou se eu gostaria de um café expresso ou do café turco. Pedi o expresso. Ele me disse, então, que se eu optasse pelo turco, o dono do restaurante, que nasceu em uma localidade próxima a Belgrado e está no Brasil há seis anos, iria ler minha sorte na borra do café. Cortesia da casa, ele me explicou. Óbvio que troquei o pedido. Meu café turco chegou em uma xícara grande e, com ele, algumas instruções. Antes de tomar, eu deveria esperar dois minutos, até que a borra se depositasse no fundo. Depois de tomar, eu deveria virar a xícara, esperar cinco minutos e chamar pelo dono. Foi o que fiz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dono, rapaz simpático e de bom papo, veio, se apresentou e sentou-se à mesa. Perguntou se eu era destro ou canhoto e então segurou a xícara com as duas mãos. Minutos de um silêncio apavorante, enquanto ele manipulava a xícara como quem está diante de um diamante de incontáveis quilates. “Eu não vejo futuro”, ele me nocauteou. “Que ótimo”, eu respondi. “Então eu nem vou pagar a conta”. Concentrado, ele retomou a leitura. “Eu vejo que em sua vida está tudo redondo”. Olhei preocupado para a minha circunferência e pensei que o cara sabia o que estava dizendo. “Você....”, ele prosseguiu.... “você é uma pessoa que demora muito tempo para reformar a casa. Hum... você demora uns dez anos para reformar a casa”. Desde quando os astros se preocupam com a reforma da nossa casa, eu ia dizer, quando ele continuou. “Eu vejo uma torre, um farol, um farol de mar...E vejo também um vulcão, um vulcão em cima de uma base muito sólida”. Perguntei se isso era bom. Ele respondeu que achava que era, porque a erupção do vulcão podia ser um grande acontecimento. Sempre que a televisão mostra erupção de vulcão, as pessoas estão correndo, apavoradas e sujas de cinza. Achei que as coisas estavam piorando legal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então ele pediu para que eu colocasse o dedo indicador dentro da xícara, girasse-o na borra de café de forma a produzir um furinho e fizesse um desejo. Obedeci. “Eu vejo um desejo muito fraquinho”, ele falou, enquanto eu tentava tirar aquela porra de café de debaixo da minha unha. “É um desejo fraquinho mesmo, viu. Nem sei se vai se realizar. Se for se realizar, vai demorar muito, mas acho que nem vai. Dá uma olhada na xícara, seu desejo é este buraquinho em forma de cisne aí no fundo”. Olhei a xícara e disse a ele que aquilo lá no fundo parecia um pato, e não um cisne. “Eu também acho que é um pato”, ele me disse. “Eu só falei que é um cisne para ficar um pouquinho mais bonito”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paguei a conta e fui embora. De todas as vezes em que visitei videntes e cartomantes, esta foi, disparada a melhor. Porque eu comi um peixinho bom, por um preço justo e o dono do restaurante não me enganou como as cartomantes sempre fizeram: ele deixou claro que sabia do meu futuro tanto quanto eu. Ou seja, nadinha!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-6791535284210083676?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/6791535284210083676/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=6791535284210083676&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6791535284210083676'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6791535284210083676'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/03/cafe-pequeno.html' title='Café pequeno'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-2170325981742150806</id><published>2010-03-08T16:05:00.000-03:00</published><updated>2010-03-08T16:06:16.756-03:00</updated><title type='text'>Variações sobre o mesmo tema</title><content type='html'>Toda semana tem a sua notícia trágica, ainda que não seja de grande impacto na mídia. A da semana passada, na minha opinião, veio do outro lado do mundo. Um casal de coreanos foi capturado pela polícia, após cinco meses de fuga, acusado de não alimentar a filha, um bebê de cinco meses, que morreu de inanição. Chocante, sim. Mas o que vem a seguir é pior: viciados em Internet, os dois passavam mais de 12 horas por dia em uma lan house, obcecados por um joguinho em que deveriam criar uma filha virtual. Enquanto se dedicavam ao bebê do computador, a filhinha de verdade, cujas fotos são estarrecedoras, morria de fome sobre um colchão na sala da casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem querer soar obsoleto, há algum tempo que a internet, a despeito de todas as suas vantagens e maravilhas, tem enlouquecido algumas pessoas. A Folha de S. Paulo publicou, neste domingo, reportagem mostrando uma série de jovens que, à mesa dos restaurantes, ficam checando e-mails em seus iPhones, deixando os interlocutores com caras de idiota. Já passei por isso e posso atestar que é uma sensação de desprezo irremediável: você ali, convidado que foi para jantar, fica observando seu anfitrião entretido com e-mails e notícias, sem ter nada mais a fazer além de contar as casquinhas de pão que caíram sobre a toalha do restaurante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na última sexta-feira, ludibriado pelos elogios da mídia, fui ver Direito de Amar, longa de estreia do estilista Tom Ford, um dos filmes mais bregas que já vi nos últimos tempos. Na sua tentativa de ser um esteta do cinema, quem sabe nos moldes de um Luchino Visconti, Ford nada mais fez do que colecionar imagens que ficariam bem num vídeo promocional de algum motel barato. Mas o povo da moda diz que Tom Ford é Deus e que seu filme tem uma beleza titânica...então, fiquemos assim: quem acreditar nisso, que corra para o cinema mais próximo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não é sobre o filme da tela que eu queria falar, e sim do filminho que rolou a duas poltronas da minha: assim que as luzes se apagaram, um sujeito relativamente conhecido do mundo cultural da cidade tirou seu iPhone do bolso e começou a checar os e-mails. Primeiro, os leu. Depois, passou a responder um a um. Feito isso, gastou o tempo restante da projeção a ler notícias e incomodar o público com a luzinha que escapava do seu aparelho.  Fico pensando se não é mais barato fazer isso em casa. Mas talvez ele more sozinho, e então é mais legal ir ao cinema mostrar o quanto a gente é antenada com a tecnologia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ainda estava com este episódio na cabeça quando uma amiga me ligou, no início da tarde de ontem. Ela tinha combinado de almoçar com um amigo, mas nada do sujeito aparecer. Ela ligava na casa dele e ninguém atendia, no celular dava caixa postal. Já eram quase três horas quando ela, finalmente, conseguiu falar com o cara. Ele estava em outra cidade e ficou surpreso com o telefonema da minha amiga. “Como assim?”, ele perguntou. “Eu avisei você que não ia almoçar”. Indignada, minha amiga respondeu: “Avisou como? Não me ligou no celular, não me ligou em casa. Para mim, o almoço estava em pé”. E então ele explicou: “Eu avisei pelo facebook”. O que a gente faz com um sujeito desses? Ou seja, agora a gente combina algo com alguém e tem de ficar conectado no facebook, no Orkut e no twitter para saber se o compromisso continua em pé? É isso que o futuro nos reserva?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já contei aqui que a primeira coisa que fiz neste ano foi sair do twitter. Poucas coisas me deram tanta alegria. Estou no facebook sei lá por qual motivo: nunca usei esta ferramenta para nada. Acho que nem foto eu tenho lá. O que eu preciso dizer, para os poucos e bons amigos que tenho, digo ao vivo ou pelo telefone. Ou por e-mail, que acho bacana também. Porque são formas discretas de comunicação. Digo o que interessa a mim e a eles, e não ao restante do povo que vive conectado. Saí do twitter quando me dei conta de que quase todo mundo usava aquele espaço para falar de si próprio, do sabor do miojo que tinha comido, do chocolate que tinha comprado para a filha e de quantos banhos havia tomado nos dias de calor. Eu vivia me perguntando por que raios eu tinha de saber de tudo isso? Fechei minha conta e fiquei bem feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje eu penso o seguinte: a gente usa o twitter não para dizer aos outros o que estamos fazendo. Usamos para convencer a nós mesmos de que estamos fazendo algo produtivo, de que nossos dias iguais têm uma pitadinha de excitação aqui e ali, de que nosso cotidiano massacrado pela rotina pode parecer interessante aos olhos dos outros. Pois não parece. Nem aos olhos dos outros e nem aos nossos próprios. Infelizmente esta é a nossa vida. Pode ser a nossa danação, ou a nossa delícia, dependendo de como encararmos o fato. Divulgamos o que fazemos na tentativa – saudável, eu acredito – de nos enganar, de nos dar uma importância que na realidade nem sempre temos. Afinal, levar o gato para tomar banho pode até nos fazer feliz. Mas eu pergunto: o mundo precisa saber disso?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-2170325981742150806?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/2170325981742150806/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=2170325981742150806&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2170325981742150806'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2170325981742150806'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/03/variacoes-sobre-o-mesmo-tema.html' title='Variações sobre o mesmo tema'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-5065863697374709891</id><published>2010-03-04T18:17:00.001-03:00</published><updated>2010-03-04T18:17:42.499-03:00</updated><title type='text'>Naquela mesa tá faltando ele</title><content type='html'>Assim que me mudei para São Paulo, um amigo do Jornal da Tarde me levou para jantar na cantina Famiglia Mancini, uma maneira carinhosa de me dar as boas-vindas à cidade. Eu já conhecia o lugar e confesso que nunca esteve entre meus prediletos. Em todo caso, achei que seria pouco elegante recusar o convite e lá fomos nós, enfrentar as filas na calçada do Bexiga. O garçom nos acomodou em uma daquelas saletas em que havia lugar para duas mesas – a nossa e a de um casal que chegara praticamente na mesma hora que nós. Eles deviam ter por volta de 40 anos e talvez, mas agora o cálculo é por conta e risco da minha imaginação – devessem estar juntos por mais de dez. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada um abriu o seu próprio cardápio e fez um pedido diferente ao garçom. Mergulharam, então, em um silêncio que perdurou pelo jantar inteiro, mais de uma hora de um mutismo assustador. Cada um olhava para um canto, os rostos não se encontravam jamais; um polvo talvez soubesse o que fazer com as mãos melhor que eles. A única expressão que ouvi, dele, foi um muito obrigado quando o garçom trouxe o troco. E foram embora tão mudos quanto chegaram. Eu e meu amigo, que à época era solteiro e hoje está no terceiro casamento, comentamos como devia ser chato voltar para casa daquele jeito, praticamente na companhia de um estranho. Imaginamos que aquele não deveria ter sido um episódio particular – era possível que aquele silêncio e aquele desconhecimento da presença do outro já rondassem aquele casal por muito tempo. Concordamos que a solidão a dois é um espetáculo muito triste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda hoje me lembro daquele jantar porque ele não foi só marcante, foi o primeiro de uma série que eu pude ver se repetir ao longo dos anos. Encontros tingidos pelo silêncio ou por um único assunto, repetido à exaustão. Há um mês, sentei-me ao lado de um casal num restaurante da Vila Madalena. Era horário de almoço e eles estavam visivelmente apressados e nervosos. Melhor dizendo, ela estava nervosa. Quanto a ele, não posso me certificar se estava realmente vivo. Ou ali. Foi impossível ignorar o motivo do nervosismo dela. Com a voz em volume máximo, ela contou que precisava ser operada e o plano de saúde não permitia que o procedimento fosse feito por um médico não conveniado. O problema era exatamente este – nem uma vírgula a mais, nem uma exclamação a menos. E ela levou cerca de 40 minutos para explicar isso para o marido. Ele deve ter entendido logo na primeira vez, mas ela repetiu a informação com todas as variações possíveis, enquanto ele não abriu a boca uma única vez, a não ser para introduzir o garfo. Pensei no que era mais dolorido – o silêncio total do casal do passado ou a repetição obsessiva de uma única fala para que não despontasse um abismo entre o casal atual. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como às vezes alguns assuntos parecem nos perseguir em determinadas épocas, três ou quatro dias depois daquele almoço saí para comer uma pizza, desta vez com dois amigos. Era domingo de carnaval e a pizzaria, concorrida durante todas as noites do ano, exibia uma calma estranha. Ao nosso lado, sentou-se – e lá vamos nós de novo – um outro casal, elegante e cheio de distinção. Pois ela passou todo o tempo, todo o tempo mesmo, contando de como perdera e mais tarde recuperara um anel de brilhantes, o mesmo que ela orgulhosamente exibia como prova de sua aventura. Novamente a história foi repetida pelo menos cinco vezes pela mulher, enquanto o marido entornava suas tacinhas de vinho tinto e mal tocava na pizza. No resto do país era carnaval, mas na mesa deles já havia sido decretada a quarta-feira de cinzas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É pretensioso demais tentar desvendar o que vai pela cabeça dos outros, embora alguns sinais sejam visíveis. Mas todos estes episódios de absoluta falta de comunicação e entrosamento só me fazem acreditar que muita gente já não está mais onde deveria estar. O corpo ainda continua saindo e fazendo companhia para o outro, mas a mente e o coração já escaparam faz tempo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-5065863697374709891?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/5065863697374709891/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=5065863697374709891&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/5065863697374709891'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/5065863697374709891'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/03/naquela-mesa-ta-faltando-ele.html' title='Naquela mesa tá faltando ele'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-1951293227358630252</id><published>2010-03-01T16:38:00.001-03:00</published><updated>2010-03-01T16:44:51.827-03:00</updated><title type='text'>Lei do psiu</title><content type='html'>Não houve nenhuma briga no caminho, nada de especialmente ruim aconteceu e também não estamos de mal com o mundo. Ao menos, acreditamos que não. Mesmo assim, não sentimos muita vontade de conversar, de sair, de encontrar as pessoas pelo prazer de jogar conversa fora, de passar um tempão com um amigo diante de uma xícara de café falando de nossa surpresa por até hoje não terem encontrado o túmulo da Cleópatra, ou qualquer outro assunto igualmente palpitante. A gente só quer ficar quieto. No máximo, ouvir vozes que não sejam as vozes dos amigos, mas aquelas que vêm dos livros, dos filmes, da nossa quietude. É aquela época em que a gente tem a certeza de que não veio do macaco, mas sim dos ursos – e por isso precisa hibernar, ainda que não seja inverno. Mas em algum lugar talvez já seja. Em algum lugar que talvez só a gente conheça já está fazendo frio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não costumo me assustar muito com estes períodos. Sei que eles partirão com a mesma delicadeza com que chegaram. Eu só sinto que é preciso levar a sério este momento, é preciso calar um pouco as outras vozes para que possamos ouvir o que esta voz especial que nos visita de vez em quando tem a nos revelar. O problema é que esta voz costuma falar baixo e insiste em que a conversa seja particular – daí nossa necessidade de se ausentar um pouquinho. Não tem a ver com tristeza, não tem a ver com depressão, não tem a ver com a incompreensão da qual às vezes nos achamos vítimas. Tem a ver com o silêncio – o que não é menos assustador. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penso se às vezes não temos o direito de dizer não ao mundo, não estamos interessados, volte outra hora. Não estamos interessados em saber se as ONGs que firmaram parceria com a Madonna ainda não receberam nenhum tostão da estrela; se a atual edição do Big Brother é a mais homofóbica – ou a mais homoafetiva – da história; se Jesus era gay, se o Aécio Neves vai ser o vice na chapa de José Serra à presidência da República ou se irá se lançar senador por Minas Gerais, se o ator Robert Pattinson, o vampiro do filme Crepúsculo, tem alergia à vagina e é dono de uma cabeleira indecentemente oleosa, se a Dilma Roussef caiu no gosto popular um mês antes do previsto e se, como eu li hoje numa matéria sobre teatro, ser broxa e fracassado é a cara dos paulistanos do ano 2 mil. Sei que é o mundo que temos, ou pelo menos parte dele (torço para que existam coisas bem melhores no nosso horizonte). Mas será que não temos o direito de, pelo menos por alguns dias, não fazer parte de nada? Será que estaríamos sendo arrogantes e prepotentes se pedíssemos para descer um pouquinho deste ônibus para verificar se os atalhos não são mais interessantes que as pistas expressas em que trafegamos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí para jantar há alguns dias com um amigo. Ele me disse que eu tinha perdido o brilho e o humor. É algo chato de ouvir (isso se a gente acreditar que algum dia teve brilho e humor). Mas é algo que ninguém precisa nos dizer: nós sabemos muito bem quando o nosso ibope está dando traço. Nestas horas, continuo acreditando, o melhor a fazer é não resistir a esta onda. O jeito é encher os pulmões de ar, acalmar-se, lembrar que desde criança nós já sabemos boiar e torcer, torcer de coração, para que esta onda nos leve para alguma praia bem bacana. Aonde chegaremos morrendo de saudade da algazarra dos amigos e cheios de boas histórias para contar. Até lá, só o barulho do mar. Se tanto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-1951293227358630252?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/1951293227358630252/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=1951293227358630252&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/1951293227358630252'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/1951293227358630252'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/03/lei-do-psiu.html' title='Lei do psiu'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-1741647259819999590</id><published>2010-02-21T14:29:00.001-03:00</published><updated>2010-02-21T14:31:03.755-03:00</updated><title type='text'>Olhos de azeitona</title><content type='html'>Há algumas semanas, o amigo e editor André Fischer me convidou para escrever uma crônica para a revista mensal que ele edita, a Junior. Eu sempre fico meio prevenido diante destes convites porque acho que não vou dar conta, não por falta de tempo, mas de inspiração. Sempre acho que quem convida a gente para alguma coisa alimenta alguma expectativa, sei lá, espera que a gente entregue um produto bacana. E então eu travo, acho que não consigo produzir nada legal e que a pessoa que fez o convite vai dizer que gostou só por camaradagem.&lt;br /&gt;Fui tomar um café com ele e ele me mostrou alguns números anteriores da revista. Pude ver, com muita alegria, que o espaço que ele estava me destinando fora ocupado, em meses passados, por amigos queridos como o dramaturgo Alcides Nogueira e o jornalista Carlos Hee. Quando ele me disse que eu poderia escrever sobre qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, então eu topei. Chegando em casa, li o que o Alcides e o Carlinhos haviam escrito em seus respectivos meses, entendi o espírito da seção e, na mesma tarde, escrevi a crônica que segue abaixo. O título, Olhos de Azeitona, foi dado pelo próprio André e eu achei bem legal. Espero que curtam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Poucas coisas o irritavam mais nas noites de sábado do que o cheiro de pizza que escapava com igual incômodo dos dois elevadores do seu prédio. Ele sempre acreditou que aquele aroma, em que sobressaíam de maneira indisfarçável rastros de cebolas e lingüiças, era a principal prova da existência de vidas monótonas ao seu redor. Vidas que, em sua compreensão contaminada de inquestionável soberba, haviam se atrofiado tanto ao longo dos anos que hoje podiam ser acomodadas nas mesmas caixas de papelão em cujo interior as pizzas trepidavam ao ritmo dos baques do elevador. Em seu íntimo, ele sabia que era uma forma preconceituosa de diagnosticar os seus vizinhos, mas ele nunca acreditou que a melhor tradução da felicidade fosse a imagem de um queijo derretido escapando dos lábios num sábado à noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas naquele sábado ele concordou que precisaria se render. Havia acordado às sete da noite, confuso e enjoado depois de um chill out em que os copos de vodca e uísque repousavam sobre bandejas nas quais as carreiras de cocaína tinham traçado irresistíveis pegadas. A cabeça pesava e o estômago doía. Devia ser fome. Àquela hora, sabia, seria impossível encontrar companhia para jantar. Lembrou-se, sem muito ânimo, do imã que havia grudado em sua geladeira com o telefone de uma pizzaria. Resistiu em telefonar porque, se o fizesse, acreditava que em poucos minutos iria se igualar aos vizinhos que tanto desprezava. Olhou em sua despensa: um vidro pela metade de shoyu, uma lata de ervilha e uma embalagem de Bis com a data vencida. Discou e pediu uma pizza média, a mais simples do cardápio. Margherita, disseram do outro lado da linha. E três latas de Coca Cola normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cinco minutos antes do previsto, o interfone tocou. Um motoboy trazendo a pizza estava à sua espera na calçada.  Desceu com o cheque já preenchido. Nestas horas, pensou, era sempre bom ganhar tempo. O rapaz conferiu o valor, agradeceu os dois reais a mais pela gorjeta e pediu para que ele anotasse o número do celular no verso do cheque. À falta de caneta, usou a do motoboy. “O senhor é novo aqui no prédio?”, perguntou o rapaz, então com a viseira do capacete levantada, enquanto ele anotava o telefone. “Nem novo e nem senhor”, respondeu, mal-humorado. “É que pizza o senhor nunca pediu”. Ao levantar a cabeça para devolver a caneta, deparou com dois olhos negros e curiosos, que o observavam entre as grades do portão. Negros como as azeitonas que, pouco mais tarde, ele encontraria decorando sua pizza. “É que”, balbuciou hipnotizado pelo olhar do motoboy, “eu não gosto tanto assim de pizza”. O rapaz o encarou por alguns segundos em silêncio, baixou a viseira do capacete e respondeu que daquela ele gostaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comeu apenas metade da pizza. O que não o impediu de, na sexta-feira seguinte, fazer um novo pedido. E assim na terça, na quinta, e assim no outro sábado. Jogava fora as bordas da pizza, grossas e mal assadas. Às vezes, jogava fora o recheio também. O que o alimentava, a iguaria das suas noites, ainda que o excesso de romantismo e a infantilidade da situação o incomodassem profundamente, eram os olhos negros do motoboy. Os olhos de azeitona. As azeitonas que, ainda que murchas e pequenas, ele se recusava a jogar fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fim de tarde do terceiro sábado, o interfone tocou. O motoboy havia chegado. “Mas eu não pedi nada”, disse ao porteiro. “O motoboy mandou dizer que é por isso mesmo que ele veio”. Ele desceu e, pela primeira vez, viu o motoboy sem capacete, seus cabelos que, fossem mais longos, seriam encaracolados. “Tem uma coisa que eu faço todo sábado à tarde”, disse o motoboy, antes mesmo que o portão se abrisse. “Eu faço sempre sozinho, mas fiquei com vontade de te levar desta vez”. Ele olhou para aqueles olhos negros, que à luz da tarde nem tão negros assim eram, e não sentiu medo. Sentou-se na garupa, vestiu o capacete cinza que o motoboy lhe trouxera, e ficou feliz por, depois de muito tempo, se permitir ser conduzido para algum lugar que ele desconhecia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No sábado de ruas mais desertas, em menos de 15 minutos estavam no Ibirapuera. Caminharam em silêncio até o lago, sentaram-se na grama e, de dentro de uma bolsa de plástico, o motoboy retirou um mundo de fatias de pizza assadas e grosseiramente recortadas que jogava aos patos e cisnes com uma alegria infantil. “É só por isso que eu sou feliz de fazer o que eu faço”, disse, com os olhos fixos no lago. “Preferi que você visse. Se eu contasse, não ia ter a mesma graça”. Envergonhado, ele colocou a mão na bolsa do motoboy e prendeu entre os dedos uma quantidade tão grande de massa de pizza que chegou a espantar os gansos mais próximos. Olhou para o motoboy e riu de um jeito quase abobalhado. “Eu queria te pedir um favor”, disse o motoboy. “Se você for pedir pizza hoje...lá por volta da meia-noite, quando eu já estiver terminando o serviço, eu posso subir para comer junto?”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao voltar para casa, no início daquela noite de sábado, alegrou-se diante do aroma de cebolas e lingüiças que vazava dos elevadores”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-1741647259819999590?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/1741647259819999590/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=1741647259819999590&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/1741647259819999590'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/1741647259819999590'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/02/olhos-de-azeitona.html' title='Olhos de azeitona'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-481352951203473080</id><published>2010-02-11T16:09:00.001-02:00</published><updated>2010-02-11T16:09:51.974-02:00</updated><title type='text'>Começar de novo</title><content type='html'>Eu sempre alimentei a fantasia – ou deveria dizer ilusão? – de começar uma vida nova em algum lugar distante. Este sonho nunca teve nada a ver com trabalho ou estudo, pois quando viajamos para trabalhar ou estudar, normalmente damos continuidade a alguma coisa que já vínhamos fazendo por aqui. Seria um desdobramento, no máximo um aperfeiçoamento, de algo que sempre nos foi íntimo. Meu desejo era muito mais radical: eu pensava em partir para um local desconhecido onde pudesse ter uma outra vida. Começar de novo. Tentar ser outra pessoa, de preferência alguém que pouco lembrasse a pessoa que eu sou e sempre fui. A distância e o anonimato total me reinventariam, me deixariam talvez mais próximo da pessoa ideal, daquilo que a gente tenta ser e não consegue. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De todos os chavões contidos no parágrafo acima, nenhum parece ser tão improvável quanto o da pessoa ideal. Sei que, acima de tudo, são dois conceitos que não combinam: sendo pessoa, é impossível ser ideal; sendo ideal, é impossível ser humano. Mas nada me impede de sonhar, de sonhar com a possibilidade de um dia pairar um pouco acima dos erros e das deficiências que eu sempre critiquei, em mim e nos outros. Engraçado que eu nunca acreditei que as possíveis correções em minha rota pudessem ser feitas aqui mesmo, na casa em que vivo, no trabalho que exerço e na companhia das pessoas que conheço. Para ser outro, para ser um outro melhor do que eu, primeiramente a geografia teria de vir ao meu socorro. Uma nova paisagem, um novo clima, uma nova língua e o estranhamento decorrente de tudo isso: só assim eu poderia mudar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Precisei de quase 40 anos de vida para escrever meu primeiro texto de ficção. Coincidentemente, este primeiro texto, que me abriu as portas para uma concorrida oficina de monólogos oferecida por alguns professores da USP, tratava exatamente disto. Era um conto de três páginas chamado O Fantasma de Nova York. Espero que ele esteja arquivado em algum lugar, gostaria de reler em algum momento. Era a história de um homem de 30 e poucos anos que trabalhava no World Trade Center. Na manhã do 11 de setembro de 2001, ele decidiu que chegaria um pouco mais tarde ao escritório. Ao contrário do que sempre fazia, desceu do metrô uma estação antes e parou para tomar um café. A pouco menos de uma quadra das Torres Gêmeas, viu o choque do primeiro avião. Paralisado na rua, assistiu ao segundo choque e à conseqüente queda dos edifícios. Em seus devaneios, acreditou que o ataque significava, antes de mais nada, um aviso cósmico de que ele deveria mudar de vida. Afinal, se não tivesse parado para o cafezinho, àquela hora estaria morto como todos os seus amigos do trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em vez de ligar para a mulher e os pais e comunicar que estava vivo, o homem do conto pegou um táxi até a Estação Central de Nova York, onde tomou o primeiro ônibus para longe do estado. E então começou sua saga, de estado em estado, de profissão em profissão, trabalhando de marceneiro e garçom, escondendo sua identidade, se reinventando de alguma forma em cada trailer que alugava para provisoriamente morar. Fez trabalhos que jamais imaginara fazer, conheceu gente que passava a quilômetros do seu círculo social, tornou-se um estranho para si próprio. Até que, três anos depois, ele decidiu voltar. Procurou a mulher, que então já havia se conformado com sua condição de viúva – afinal seu corpo nunca fora localizado entre os escombros. Quando tentou explicar-lhe por que fez o que fez, ela lhe estendeu um envelope e partiu. Dentro do envelope estava seu atestado de óbito, fornecido pela prefeitura de Nova York no ano anterior. O conto termina com o homem olhando para o horizonte da cidade da qual um dia ele fugiu, com seu próprio atestado de óbito nas mãos, dizendo para si próprio que, para alguém que queria se reinventar a tal ponto, era bom ter em mãos o atestado de óbito em nome da pessoa que um dia ele fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este conto, vejo hoje, só expandiu o desejo que um dia também foi meu. Eu acho que não iria tão longe quanto aquele homem foi. E, caso fosse, tentaria ao menos suavizar o sofrimento daqueles que gostam e se preocupam comigo. Mas, vez ou outra eu me vejo exatamente como o homem do conto, suspenso na rua diante dos enormes prédios que desmoronam e dizendo para mim mesmo que, enfim, é chegada a hora de começar de novo em outro lugar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-481352951203473080?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/481352951203473080/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=481352951203473080&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/481352951203473080'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/481352951203473080'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/02/comecar-de-novo.html' title='Começar de novo'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-8061808845419948650</id><published>2010-02-08T16:15:00.000-02:00</published><updated>2010-02-08T16:16:08.032-02:00</updated><title type='text'>Ensaio aberto</title><content type='html'>Sempre que posso, evito falar de teatro neste espaço. São dois os motivos. Em primeiro lugar, acredito que os acadêmicos e críticos fazem isso bem melhor que eu. Quando eu estava no twitter, costumava usar meus parcos 140 caracteres para sugerir alguma peça em cartaz na cidade; agora, longe do twitter, que infelizmente se transformou, como quase tudo na internet, em um indigesto exercício de promoção pessoal, nem isso mai s faço. Em segundo lugar porque, depois que passei a ter peças encenadas, me sinto um pouco constrangido em falar a respeito do trabalho dos colegas, ainda que seja para elogiar. Sendo assim, o teatro virou um assunto muito raro neste blog – principalmente o teatro feito por mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senti vontade de voltar ao assunto depois de ter assistido, neste início de ano, a alguns espetáculos que me provocaram tédio, irritação e uma sensação incômoda de estar sendo enganado ao vivo e mediante meu consentimento. Não vou dizer aqui que espetáculos são estes. Quem acompanha a cena teatral da cidade talvez já saiba de que peças estou falando já que, em comum, elas trazem uma série de sintomas geralmente associados ao chamado teatro pós-dramático – narrativa fragmentada, projeção de vídeos, uma pretensa modernidade que já chega até nós cheirando a mofo, um jeitão descompromissado dos atores em cena que já antecipa a atitude que eles terão no coquetel de estreia, trilha sonora em excesso, discursos em primeira pessoa, utilização do nome de batismo do ator, postura de marqueteiros e mais uma coisinha ou outra que fazem a nossa plateia de caipiras  e sentir em Berlim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num destes espetáculos, cruzei um amigo que estava mudando de lugar na plateia. Ele ocupava uma das primeiras fileiras e estava migrando para a última. Perguntei o motivo. “Olha só quanta coisa tem no palco”, ele me alertou. “No mínimo, eles estão tentando esconder algo”. Sábias palavras as do meu amigo. Eles estavam tentando esconder, sim. Estavam tentando esconder que não tinham nada para contar. É como se diretor e elenco nos dissessem assim: “Vejam bem, temos apenas um fiapo de história, ou talvez história nenhuma. Mas isso não é importante. Prestem atenção em como nós sabemos disfarçar isso com toda a nossa parafernália eletrônica e nosso descolado jogo de cintura”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que este conceito de teatro pós-dramático ainda não está totalmente estabelecido. Mesmo o papa do assunto, o crítico e professor alemão Hans Lehmann, já chegou a declarar em entrevistas que as bases deste tipo de linguagem ainda continuam a ser estabelecidas, o que não nos impede de apontar belas experiências neste campo. Eu arriscaria dizer que Ensaio Hamlet, da Cia dos Atores, levou estas bases do pós-drama a um patamar sublime. Sei que podem dizer que neste caso havia um Shakespeare por trás. Concordo. Mas acredito que alguma coisa deve haver por trás desta quebra da linguagem e do formalismo do drama convencional. Se algo precisa ser quebrado, ótimo, vamos quebrar. Vamos, sim, porque às vezes o resultado pode ser surpreendente e animador. Mas vamos, em primeiro lugar, encontrar alguma coisa que possa ser quebrada em cena, que possa ser rompida para que, a partir daí, brote uma proposta estética inovadora e uma narrativa que nos envolva de imediato. Vamos encontrar uma história que, ao ser quebrada, nos encante com suas infinitas possibilidades de interpretação. Porque, até o momento, a única coisa que eu vi sendo quebrada, sem pudor e sem vergonha, é a cara de quem vai ao teatro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-8061808845419948650?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/8061808845419948650/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=8061808845419948650&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8061808845419948650'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8061808845419948650'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/02/ensaio-aberto.html' title='Ensaio aberto'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-4220515033427233560</id><published>2010-01-25T18:54:00.001-02:00</published><updated>2010-01-26T18:11:33.212-02:00</updated><title type='text'>Quando eu morrer, me enterrem na Lapinha...</title><content type='html'>A capa deste mês da revista Super Interessante traz uma manchete de um otimismo assustador. Aplicado na foto de um garoto, surge o título “Ele Pode ser Imortal”. Embaixo, a explicação: em 50 anos é possível que ninguém mais morra de velhice. A ciência está preparando um arsenal de drogas e tecnologia que permitem manter você vivo para sempre. E com o corpo que sempre quis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu teria ficado bem menos preocupado se a manchete da revista fosse: Confirmado o Fim do Mundo para 2012. Não consigo imaginar uma civilização capaz de extinguir a idéia da morte – ou sua existência, como propõe a revista. Este tipo de previsão só não me deixa mais alarmado porque eu tenho certeza de que, se tudo der certo, em 50 anos eu já estarei morto, enterrado e esquecido. E digo isso com muita alegria e um alívio maior ainda. Eu creio que só existe uma coisa pior do que a morte: é não morrer. Por mais otimista que eu esteja, e mesmo naqueles dias de alegria intensa e absoluta, me anima a ideia de que um dia as coisas vão terminar para mim e que a gente vai poder ir embora, sabe-se lá para onde. É sério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falo isso sem qualquer traço de morbidez ou depressão: tenho certeza de que um dia vai ser muito bom levantar acampamento deste planeta, mesmo sem saber se existe alguma coisa do lado de lá. Eu não gostaria que a ciência nos transformasse numa legião de Nosferatu: gente vivendo até os 200 anos de idade só para dizer que agora tudo é uma bosta e que bom mesmo era no tempo da juventude. Porque é isso que iremos fazer, tenho certeza. Reclamaremos destes anos extras como almas ranzinzas aprisionadas em corpos plastificados. Não sei como será o ser humano sem a ideia da finitude. Penso que continuaremos a morrer de acidentes aéreos, de desastres naturais, vítimas da violência urbana e outras dezenas de causas que seguramente surgirão. E tenho certeza, também, de que nos mataremos muito mais: aposto que, aos 120 anos, por exemplo, não agüentaremos uma nova desilusão amorosa e vamos nos atirar do primeiro prédio que encontrarmos com as janelas abertas. Porque eu acho que não fomos programados para tanta vida. Sei que odiamos a ideia da morte, da nossa e a dos nossos entes queridos. Mas odiaremos muito mais a ideia de que viveremos para sempre ao lado dos nossos entes a quem o tempo se encarregará de tornar menos queridos a cada década: a imortalidade é uma prisão que nós não merecemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E isso sem falar no planeta, que não aguentará este excesso de população imorredoura, e nos planos sociais de todos os governos do mundo, ensandecidos com a perspectiva de que nos aposentaremos aos 70 anos e receberemos o nosso benefício até os 350 anos, mais ou menos...Não haverá comida para tanta gente, nem habitação, nem serviços sociais e muito menos afeto: já que não vamos morrer mesmo, danem-se a culpa e a civilidade. Vou fazer o que eu quero, do jeito que eu quero e te dizer o que eu quero, na lata. E se você virar a cara para mim, tudo bem: daqui a uns 80 anos eu te procuro e, se Deus quiser (putz, como imortais, não acreditaremos mais nele!), você vai ter se esquecido da ofensa e seremos amigos novamente, andaremos de ônibus sem pagar passagem, seremos atendidos na fila preferencial do banco e do cinema e gastaremos com bebida e droga o que antes gastávamos com fraldas geriátricas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sabemos de onde viemos, para onde vamos e nem o que estamos fazendo aqui. E agora vem a ciência disposta a acabar com a única certeza que a gente tem nesta vida: a de que vamos morrer.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-4220515033427233560?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/4220515033427233560/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=4220515033427233560&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/4220515033427233560'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/4220515033427233560'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/01/quando-eu-morrer-me-enterrem-na-lapinha.html' title='Quando eu morrer, me enterrem na Lapinha...'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-2254743338833296097</id><published>2010-01-21T16:42:00.001-02:00</published><updated>2010-01-21T16:42:52.275-02:00</updated><title type='text'>Vinde a mim a imprensinha</title><content type='html'>A gente vive dizendo que não tem mais idade para fazer determinadas coisas. Felizmente, na maioria das vezes não passa de força de expressão. A gente diz que não faz, mas dali a pouquinho está fazendo. O que talvez seja bom, por demonstrar que a idade, no fundo, não é empecilho para algumas das nossas ações. Eu digo – e nestes casos levo a sério – que não tenho mais idade para apenas duas coisas: usar drogas e pegar fila em casa noturna.  Nem idade e nem paciência. A experiência e os anos me ensinaram que no dia seguinte a gente costuma se arrepender das duas coisas – então as evito com imenso prazer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, ao ler os jornais, descobri uma terceira coisa para qual eu não tenho – ou não teria – mais idade. Se eu trabalhasse em alguma redação de jornal e o editor me mandasse correr atrás do modelo Jesus Luz na São Paulo Fashion Week, é muito provável que eu, ainda que estivesse atolado em dívidas, chamasse o editor num canto para perguntar o que eu tinha feito para merecer tamanho mico profissional. Com todo respeito aos meus colegas que cobrem moda, eu já acho um castigo passar uma semana no pavilhão da Bienal tentando encontrar alguma qualidade e ousadia naquelas roupinhas mequetrefes que eles chamam de tendência. Confesso que não entendo de moda e, ainda que tivesse dinheiro para torrar nas vitrines, não compraria nada do que eu vejo nestes desfiles. Mais do que apontar caminhos, eu sempre acho que estes desfiles funcionam apenas para o galã da novela das oito exibir seus músculos diante de moçoilas e bibinhas embasbacadas com tudo – menos com as roupas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas até aí, tudo bem. Todo trabalho é honesto e merece respeito. Agora, ter de correr atrás do Jesus Luz pra cima e pra baixo, como se a celebridade fosse ele e não a cantora que ele namora, é dar atestado de que nossa imprensa é uma das mais caipiras do mundo. No fundo, eu admiro o Jesus Luz, justamente porque ele não dá declaração alguma. Os jornalistas correm atrás dele e ele corre dos jornalistas, pois deve saber que não tem muito mesmo o que dizer. Dizem que como DJ ele é bem fraquinho e, como modelo, não parece ser muito melhor. Seu grande feito – e ele deve ter isso muito claro – é dividir o colchão com a cantora mais famosa do planeta. Sendo assim, falar sobre o quê? Eu acho que ele tem de continuar fugindo mesmo e rindo muito de quem corre atrás dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que me deixa mais intrigado é que, ao ler os textos dos coleguinhas que passaram um dia todo na cola do Jesus, a gente percebe que houve um grande prazer nesta tarefa. É como se todos eles encontrassem uma certa nobreza e muito frisson em seguir os passos do moço. Quando eu era repórter, passei dias e noites correndo atrás de gente como o Michael Jackson, a Madonna, o Mick Jagger e o Bono durante suas turnês por São Paulo. E confesso que fazia isso com o maior prazer do mundo, porque se tratava de gente talentosa, carismática e, apreciem ou não, detentora de uma obra na maioria das vezes genial. Correr atrás do Jesus Luz, agora, só demonstra que a gente anda muito mal de ídolos e de celebridades, ainda que instantâneas. Quando eu estudava catecismo, os padres viviam falando que Jesus voltaria no começo do século 21. Nossa imprensa acreditou nisso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-2254743338833296097?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/2254743338833296097/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=2254743338833296097&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2254743338833296097'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2254743338833296097'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/01/vinde-mim-imprensinha.html' title='Vinde a mim a imprensinha'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-6585296851879465292</id><published>2010-01-20T17:32:00.000-02:00</published><updated>2010-01-20T17:33:27.279-02:00</updated><title type='text'>Os três porquinhos</title><content type='html'>CONSIDERAÇÃO UM: Nos dois meios que frequento com mais assiduidade, o jornalismo e o teatro, nunca conheci ninguém que tivesse conseguido emprego por meio de favores sexuais. É sério. Fofocas sempre houve, mas eu nunca soube de ninguém, comprovadamente, que tenha obtido trabalho nas redações ou papel em alguma peça por ter dormido com um editor ou um diretor.  No ano passado, dei uma palestra para jovens atores em uma cidade do interior. No meio de tantas perguntas sobre vocação e talento, alguém levantou o braço para saber se no teatro rolava mesmo o teste do sofá. Risos na plateia. Respondi na palestra o mesmo que escrevi nas duas linhas iniciais deste texto: se há, eu desconheço. É provável que haja, porque tanta lenda sobre este tema talvez tenha algum fundo de verdade. Mas, como eu nunca vi, nunca fiz e não conheço ninguém que efetivamente tenha feito, prefiro continuar acreditando no talento, na dedicação e no empenho pessoal. E eis que então a gente sai de casa, numa noite calorenta e desconfortável, para ver a estreia de uma peça badalada. E fica constrangido ao ver em cena alguém tão ruim, mas tão ruim que deveria ser preso por exercício ilegal da profissão de ator. A gente volta para casa, demora para dormir como sempre, pede licença para o preconceito e vocifera no quarto escuro: porra, ali rolou cama, não é possível!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONSIDERAÇÃO DOIS: Vejo uma pesquisa que aponta que, se pudessem, 55% dos moradores de São Paulo deixariam a cidade. Sei que São Paulo é uma cidade difícil, mas não me vejo morando em outro local do País. Eu fugiria do Rio de Janeiro e de Florianópolis como um camundongo foge de um gato faminto. Por razões que eu próprio desconheço, não me vejo morando numa cidade de praia. Eu até gosto de praia. Mas, para mim, o melhor dia da praia sempre foi o dia de voltar para São Paulo, sentir um pouco de frio (claro que esta semana não conta), tomar água sem medo de pegar diarreia e comer paõzinho francês que tenha sido feito no mesmo dia. Depois de ler a pesquisa, sem querer ser arrogante e prepotente, descubro um jeito fácil de melhorar nossa cidade: se quem quisesse ir embora realmente fosse atrás do seu sonho de viver na praia ou no interior, São Paulo seria um paraíso para os 45% que resolvessem ficar por aqui. Eu estaria entre eles. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONSIDERAÇÃO TRÊS: Sei que pode parecer cruel, mas já estou parando de ler as notícias sobre o terremoto do Haiti. Nos primeiros dias, li praticamente tudo que os jornais e revistas publicaram a respeito. Cheguei a ficar em casa, comovido, lágrimas nos olhos, ao presenciar o gigantesco sofrimento vivido por aquela população já tão historicamente castigada. Mas depois os nossos olhos, cansados de escombros, dor e miséria, começam a procurar paisagens mais amenas. É crueldade? Sim. É indiferença diante da dor humana? Sim. Mas, como eu já escrevi neste mesmo espaço há alguns meses, penso que o fastio é um mal dos nossos tempos. Parece não haver alegria ou dor no mundo que segure nossa atenção por mais de uma semana. As coisas podem ainda estar muito quentes, que nosso desejo é virar a página e ver qual é a próxima atração. É bem provável que todos nós tenhamos nos transformado em uma sociedade de avestruzes: chega uma hora que a gente quer por a cabeça no buraco e não ver mais nada. Ou, na melhor das hipóteses, enfia a cabeça no buraco em busca de uma cena mais bonita. Nem sempre encontra, mas a tentativa continua válida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-6585296851879465292?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/6585296851879465292/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=6585296851879465292&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6585296851879465292'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6585296851879465292'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/01/os-tres-porquinhos.html' title='Os três porquinhos'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-7385830035787582795</id><published>2010-01-13T17:29:00.002-02:00</published><updated>2010-01-13T17:36:44.957-02:00</updated><title type='text'>Uma mãe com microfone</title><content type='html'>A caminho do cinema, na noite de terça-feira, ouço no rádio um programa comandado por João Marcello Bôscolli. Se não me engano, o nome do programa é Música Urbana, transmitido pela Rádio Eldorado. Sempre que escuto o nome de João Marcello no rádio ou vejo sua imagem na televisão, me lembro da primeira vez em que o entrevistei. Eu trabalhava no Jornal da Tarde e fui conversar com ele para uma reportagem especial sobre o aniversário de morte de Elis Regina. Não me lembro agora se eram 15 ou 20 anos da morte – o que só reforça a minha suspeita de que o tempo anda passando mais depressa do que eu gostaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me recebeu em sua casa, no Morumbi. Me recordo somente de que era uma sala bem decorada, sóbria e com poucos móveis. Confesso que achei o ambiente um pouco frio, como também me pareceram frias, de início, as declarações de João Marcello sobre sua mãe cantora. Ele falava de Elis Regina com um distanciamento que eu não conseguia identificar se era prudência ou uma maneira de manter a saudade sob controle.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em nenhum momento da entrevista, que foi bem longa, ele empregou a palavra mãe. Ele se referia a Elis como se fosse um fã um pouco mais íntimo. Me lembro da Elis fazendo isso, me lembro da Elis falando aquilo, me lembro da Elis cozinhando... Suas frases eram sempre assim, cotidianas, mas estranhamente calculadas. Contou de um músico da banda da cantora que estava enfrentando sérios problemas financeiros, com risco de perder a casa em que morava. Elis, no relato de João Marcello, saiu de casa uma manhã sem avisar ninguém de onde iria. Ao voltar, algumas horas mais tarde, procurou o músico e disse: fique tranqüilo, todas as suas dívidas foram quitadas. Elis era assim, contou ele, fazia o que achava que tinha de fazer sem avisar ninguém. Enquanto eu anotava suas declarações, lembrava que nem eu e nem ninguém que eu conhecia se referia à mãe pelo nome, e não como minha mãe. Talvez porque nem eu e ninguém que eu conhecia fôssemos filhos da Elis Regina. Vai saber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na hora de ir embora, a surpresa. Quando eu já tinha guardado a caneta e o bloco de anotações, João Marcello quis saber se ele podia me fazer uma pergunta. “Claro”, eu respondi. E então a coisa veio: “Sérgio”, ele falou, desta vez com a voz mais acalorada, “você gostava da minha mãe?” Respondi que sim. Ele prosseguiu: “Minha mãe era boa, não era?” Então eu disse que fazia parte daquele time para quem a mãe dele havia sido a melhor de todas. Ele sorriu desarmado, me abraçou e se despediu desejando que eu escrevesse uma matéria inspirada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-7385830035787582795?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/7385830035787582795/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=7385830035787582795&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7385830035787582795'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7385830035787582795'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/01/uma-mae-com-microfone.html' title='Uma mãe com microfone'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-2640245530223052438</id><published>2010-01-12T16:23:00.000-02:00</published><updated>2010-01-12T16:24:20.545-02:00</updated><title type='text'>Rindo e aprendendo</title><content type='html'>De menino, por influência dos meus pais ou da igreja católica que frequentei regularmente até os 14 anos, aprendi que a dor e o sofrimento traziam sabedoria. Era justamente dos períodos mais tristes de nossas vidas que emergeríamos mais fortes e sábios, mais preparados até, acredito eu, para enfrentar de pé novos períodos de tristeza e dor. Não me lembro de ter sido ensinado a desfrutar do prazer e da alegria. Era como se a felicidade fosse um acidente de percurso, uma exceção em vidas que deveriam ser talhadas para conviver com o infortúnio. E, se prazer houvesse, era o prazer de sofrer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dito assim, parece que fui criado na Idade Média. Não é o caso. Como também não é o caso de dizer que este tipo de ensinamento caiu em desuso. Ainda hoje ouço, de bocas diversas, que é só na dor que se aprende. Devo ter sido sempre, e continuo sendo, um péssimo aluno então. Pois, em geral, minhas dores são sempre reprises de dores antigas. Todo meu sofrimento tem um sabor de revival e em todas as deprês que enfrento, quando penso nelas, localizo uma origem comum. Ou seja, meu repertório da dor é muito restrito e foi ele sempre o responsável pelos períodos tristes que enfrentei e enfrento na vida. Conclusão: a dor nunca me ensinou absolutamente nada. Talvez alguém levante a voz para dizer que fui eu quem nunca quis aprender. Pode ser. O certo é que não me lembro de lições muito proveitosas advindas da dor. A única coisa que eu consigo fazer bem nesta vida é me esquecer de um erro para, no mês seguinte, cometê-lo de novo. Às vezes com até mais galhardia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este post é decorrência do fato de eu ainda estar pensando, com insistência, nas famílias que perderam tudo neste período de chuvas. Imagino o casal que perdeu as filhas no deslizamento de terras em Angra dos Reis. Imagino as mães que tiveram seus filhos mortos em discussões banais. E então me pergunto: existe dor maior que enterrar um filho jovem? Acredito que não. E o que se aprende com esta dor brutal? Absolutamente nada. A não ser seguir em frente muito mais doloridos e despedaçados.  Eu sei que talvez saiamos um pouco mais fortalecidos de uma grande tragédia, mas continuo acreditando que o benefício não compensa as lágrimas e o peito em frangalhos. Eu acho que a dor da perda e a saudade só nos ensinam, no fim, a perceber o quanto é difícil viver sem alguém querido. Nos ensinam que podemos viver, mas, meu Deus, a que custo? Confesso que é um aprendizado que eu dispenso. Sei que todos nós iremos aprender isso em algum momento, mas, enquanto for possível, continuo dispensando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há alguns dias eu postei, neste mesmo espaço, uma relação de dez frases que eu não gostaria de ouvir em 2010. Abro espaço para colocar mais uma. Trata-se desta aqui: “eu não gostaria de ouvir que é na dor que se aprende”. A felicidade também deve nos ensinar muita coisa. E, ainda que não nos ensine nada, ela é uma professora muitíssimo mais agradável que a dor. Então, se nosso destino é mesmo patinar na ignorância e no desconhecimento da vida, prefiro ser um burrinho feliz com meus dentões à mostra.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-2640245530223052438?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/2640245530223052438/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=2640245530223052438&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2640245530223052438'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2640245530223052438'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/01/rindo-e-aprendendo.html' title='Rindo e aprendendo'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-4131711524120344589</id><published>2010-01-08T17:51:00.001-02:00</published><updated>2010-01-08T17:52:57.147-02:00</updated><title type='text'>Adeus, twitter</title><content type='html'>Primeira resolução do ano novo: deletei minha conta no twitter.&lt;br /&gt;Um problema a menos.&lt;br /&gt;Já estou me sentindo bem melhor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-4131711524120344589?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/4131711524120344589/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=4131711524120344589&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/4131711524120344589'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/4131711524120344589'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/01/adeus-twitter.html' title='Adeus, twitter'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-8774293344296480934</id><published>2010-01-07T01:12:00.001-02:00</published><updated>2010-01-07T01:12:47.245-02:00</updated><title type='text'>Ensaboa, mulata, ensaboa....</title><content type='html'>Acho que de tanto ouvir dizer que estes dias que cercam o Natal e o réveillon são uma época de amor, que eu acabei me lembrando de uma história de amor. Não chega a ser exatamente uma história de amor, muito menos uma história com final feliz. Mas é uma história em que o amor ocupou o centro da discussão, embora ele (o amor) deva ter se envergonhado de ver seu nome e sua função tão profanados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aconteceu comigo. Numa época bem complicada da minha vida, final dos anos 90. Um período em que os dias se arrastavam, a vida tinha se transformado num interminável filme em preto e branco com um roteiro perverso e meu maior desejo era ver meu corpo fundir-se às molas e espumas do meu colchão – até que não houvesse mais distinção possível entre dormir e viver. Um amigo, hoje um profissional bem-sucedido que trabalha no Exterior, ao me ver tão amante das sarjetas me indicou uma psicóloga cujo consultório, um casarão arejado e surpreendentemente silencioso, situava-se numa rua muito movimentada e barulhenta da região central da cidade. Ao chegar para a primeira consulta percebi que difícil não seria falar sobre minha vida e meus problemas, difícil seria entrar com o carro na minúscula garagem que a psicóloga me oferecera. Cheguei a pensar que aprender a estacionar o carro ali já deveria fazer parte do tratamento. Quem vence este obstáculo, imaginei, tira de letra qualquer complexo de Édipo ou fixação na fase oral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela atendia no segundo andar do casarão, aonde se chegava depois de vencer uma escada em caracol, com degraus escorregadios de uma madeira escura. “Tome cuidado aqui”, ela me preveniu. “Na semana passada um paciente caiu”. Na tentativa de provocar uma intimidade prematura, perguntei se a queda havia se dado antes ou depois da consulta. Ela não respondeu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela atendia em uma sala espaçosa, com duas mesas. A primeira, e maior, ocupava o centro do consultório. Foi ali que ela pediu meus dados pessoais. A segunda, praticamente uma mesinha de café, ficava embaixo de uma janela, com vista para duas árvores imensas no quintal. Ela me perguntou se eu não me incomodaria de realizar as sessões ali, ao lado da janela. Descobri, em seguida, que a janela não estava ali para arejar meus pensamentos, e sim dar vazão à fumaça dos incontáveis cigarros que ela consumia com sofreguidão durante as sessões. Fingi que tanta fumaça também não me incomodava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim, entre degraus lisos, cantos de passarinhos e nuvens de nicotina, teve início minha história com ela. Uma história, vejo hoje, de pouca intimidade e confiança. Eu sentia que as sessões não evoluíam, que as perguntas que ela me fazia eram inconsistentes, que seus exemplos eram inverossímeis e suas metáforas,  pobrezinhas. Até que um dia ela fez o tipo de pergunta que, ao meu ver, deveria representar a cassação do registro de qualquer profissional da análise por exercício irregular dos clichês: “Você se ama?” . Talvez por ver a expressão de frustração estampada em meu rosto, ela procurou evoluir: “Você diz diariamente a você mesmo que você se ama?” Dei uma chance a ela, perguntando sobre o que exatamente ela estava querendo falar. E aqui eu transcrevo, entre aspas, tudo o que ela me disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu quero saber se, durante o banho, quando você ensaboa seu braço, por exemplo, você diz assim: braço, eu te amo. Braço, você é uma parte muito querida do meu corpo e é essencial ao meu bem-estar e por isso eu te amo muito. E quero saber se depois você faz a mesma coisa com as pernas, com as mãos, com os pés. Eu quero saber se você declara seu amor incondicional a cada parte do seu corpo, enquanto as acaricia com água morna e sabonete... As partes do seu corpo precisam saber que são amadas por você. E assim, ao declarar seu amor a cada parte sua, um dia você vai se descobrir apaixonado por você mesmo”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por uma dessas graças divinas, a sessão acabou na sequência e eu não precisei responder nada. Saí do consultório e vim a pé para casa, me perguntando se eu não seria capaz de encontrar uma maneira mais inteligente de gastar meu dinheirinho suado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca mais voltei ao consultório dela, mas continuo tomando banho diariamente, dois por dia nestas semanas mais quentes. Na véspera do Natal, embaixo do chuveiro, me lembrei desta história e pensei em dizer o seguinte: “Braço, como você foi bonzinho para mim o ano inteiro, esta noite o papai Noel vai te trazer um lindo presente”. Mas achei melhor ficar calado: já imaginou se o outro braço, as duas pernas, as duas orelhas e os vinte dedos ouvissem a promessa e também exigissem uma lembrancinha de Natal...Achei melhor que eles se contentassem com a água morna e a espuminha. E já está bom demais!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-8774293344296480934?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/8774293344296480934/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=8774293344296480934&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8774293344296480934'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8774293344296480934'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2010/01/ensaboa-mulata-ensaboa.html' title='Ensaboa, mulata, ensaboa....'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-2200745257517277918</id><published>2009-12-21T18:46:00.003-02:00</published><updated>2009-12-21T18:52:13.728-02:00</updated><title type='text'>Minha antilista</title><content type='html'>Como não sou tão ambicioso para indicar Mil Lugares Para se Conhecer Antes de Morrer, humildemente transcrevo abaixo DEZ FRASES QUE EU NÃO GOSTARIA DE OUVIR EM 2010. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Olha, o problema não é você, sou eu&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Sinto muito, mas nossa cozinha acabou de fechar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Claro que você não é feliz, você vive se boicotando&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Tio, posso dar uma olhadinha no carro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. Também, você quer resolver tudo sempre sozinho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6. Temos uma esperinha de 40 minutos a uma hora&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7. O processo foi arquivado por falta de provas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8. AlÔ? É o gerente da sua conta. O senhor teria cinco minutinhos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9. Pôxa, esqueceu que tem mãe, é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10. Nunca antes na história deste país&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-2200745257517277918?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/2200745257517277918/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=2200745257517277918&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2200745257517277918'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2200745257517277918'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/12/minha-antilista.html' title='Minha antilista'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-306132414497008066</id><published>2009-12-20T14:16:00.001-02:00</published><updated>2009-12-20T14:16:35.350-02:00</updated><title type='text'>Desejos</title><content type='html'>Há muito tempo que deixei de fazer planos nesta época do ano. Basicamente por acreditar que cada plano se convertia em uma expectativa que eu jogava sobre minhas costas – e a chance de me curvar diante de tanto peso sobre os ombros era gigantesca. Resolvi facilitar as coisas para mim mesmo e relaxei. O que terá de vir, acredito, virá. E o que não era para ser meu, que encontre boa acolhida em mãos alheias. Não há nada de elevação espiritual nesta atitude, é só praticidade mesmo. Fui percebendo, ao longo dos anos, que o acaso sempre falou mais alto que meus planos e que grande parte daquilo que conquistei partiu de convites, associações com amigos e mesmo de ideias alheias – que nada mais são do que outros nomes para o acaso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me recordo com muita clareza do momento em que resolvi pensar assim. Era noite de 31 de dezembro (que óbvio!) e eu estava na Praia de Jabaquara, em Paraty, uma prainha que mais parece uma lagoa de água quente. Ou, como disse um amigo que estava comigo, uma banheira sem ondas e cheia de xixi. Não importa. Faltavam alguns minutos para a meia-noite e eu podia observar a concentração das milhares de pessoas na areia, acendendo velas, professando desejos silenciosos, rezando talvez. E minha cabeça estava completamente vazia. Não conseguia desejar nada, não conseguia pensar em nada concreto para o ano que teria início dali a poucos instantes, não imaginava como seriam meu trabalho, minha saúde, minhas aspirações. Nadinha. A mente estava estranhamente pacificada e vazia. Era como se eu estivesse num restaurante de comida exótica e cardápio ilegível: não adiantava escolher, tudo que me fosse servido seria estranho e arriscado. Mas poderia ser prazeroso também. Era um jogo. O jogo de estar vivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, como a atmosfera do local parecia exigir um desejo urgente para o ano novo, fiz o meu. E é o que eu repito até hoje, esteja eu nos últimos dias de dezembro, como agora, ou numa segunda quinzena de um julho qualquer: que eu saiba dar boas-vindas a tudo de novo que chegar na minha vida e que saiba, acima de tudo, dizer adeus ao que está indo embora. Pode parecer bobinho, mas talvez seja um aprendizado que exija uma vida toda – a certeza de que a permanência não existe e que tudo está mudando. Nem sempre para melhor. Mas nem sempre para pior também. E, entre o que chega e o que vai, que eu tenha o bom senso de ser caloroso e hospitaleiro com aquilo que realmente se anuncia como bacana, e que reserve a minha saudade sincera para os grandes afetos que eu não souber, ou não puder, conservar ao meu lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque um ano novo, um mês novo, um dia novo e talvez até uma hora nova não passam exatamente disso: de uma contabilidade em que ganhamos aqui e perdemos ali. E a esperança, neste jogo, talvez seja a torcida para que o placar penda a nosso favor. Embora eu acredite que o que vale mesmo é a partida. Assim, já que não temos outra alternativa mesmo, que venha o apito de 2010, então.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-306132414497008066?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/306132414497008066/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=306132414497008066&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/306132414497008066'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/306132414497008066'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/12/desejos.html' title='Desejos'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-8351606811560649397</id><published>2009-12-04T16:02:00.002-02:00</published><updated>2009-12-04T16:10:49.627-02:00</updated><title type='text'>De molho</title><content type='html'>Por motivos que fugiram à minha vontade, me vi obrigado a manter distância dos computadores – e por conseqüência deste espaço – por um período de 15 dias no mínimo. Se eu fosse um pouquinho mais prudente, não deveria estar aqui. Mas senti saudade. E como acredito que o médico que me despachou para o estaleiro por duas semanas nem sabe da existência deste blog, resolvi desobedecer um pouquinho. Prometi a mim mesmo que vai ser jogo rápido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui operado de uma hérnia inguinal na terça-feira da semana passada. O procedimento é relativamente simples. Em menos de duas horas eu já estava deixando o centro cirúrgico, praticamente consciente, com um talho de uns dez centímetros na virilha esquerda, que até hoje está com as bordas ligeiramente inchadas e vermelhas. A aparência do corte fez com que alguns amigos mais safados – e todos nós os temos, não é – passassem a comentar que eu tanto fiz que finalmente consegui ter uma xoxotinha paga pelo plano de saúde. Não sei se por ela ter aparecido muito tarde na minha vida, ou por ter sido esculpida um pouco mais à direita de onde deveria estar naturalmente, o certo é que minha xoxotinha genérica dói pra caramba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pequenos prazeres fisiológicos que acompanham todos os homens desde a mais remota infância, como fazer pontaria com o jato de urina na privada, tornaram-se um tormento para mim. Fazer xixi dói e sobre aquela outra coisa, então, é melhor nem falar. Quando se aproxima o momento de eu prestar contas com o banheiro, fico pensando que talvez a vida, ao menos nesses dias, seria bem mais fácil se eu fosse membro daquela seita de pessoas que só se alimentam de sol. Nunca foi tão sofrido dizer adeus aos meus excessos alimentares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o mais estranho neste pós-operatório em que tenho de fazer repouso quase total  é perceber o quanto mudou a minha relação com o dia. Ou com as horas do dia. Eu tenho tão pouca coisa a fazer que fico sinceramente excitado quando chega a hora de aplicar minhas compressas de água quente na região do corte. O médico me disse que três vezes por dia seriam suficientes, mas eu tenho feito cinco, na esperança de que o dia passe mais rápido e a noite me encontre com o cansaço de um estivador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na tentativa de tirar algum proveito concreto destes dias, tenho lido os jornais de cabo a rabo. Até mesmo aqueles cadernos de automóveis e classificados, que iam direto do sofá para a lata do lixo sem jamais serem abertos, hoje despertam meu interesse e preenchem minhas horas arrastadas com informações tão valiosas quanto a oscilação do preço do metro quadrado nos imóveis da Vila Prudente. Fiquei sabendo também – e o fato me causou uma profunda revolta – que o jogador Vagner Love, do Palmeiras, foi agredido em uma agência bancária no bairro das Perdizes. Minha indignação foi tanta que, ao ler a notícia até o final, corri para o Google para saber quem era o Vagner Love. Descobri que é um jogador que usa umas trancinhas no cabelo. Em algumas fotos ele surge de trancinhas azuis, em outras, de trancinhas verdes. Estou na torcida para que ele mude a cor das trancinhas nos próximos dias, o que me garantiria mais uns três minutos de informação a ocupar o meu tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A hora mais ingrata, no entanto, é aquela em que os amigos ligam. Eu adoro quando eles ligam e espero o telefone tocar com sofreguidão. O problema é sempre a primeira pergunta que eles fazem: e aí, o que você fez hoje? E eu respondo: até agora, nada. E não importa se o telefonema ocorra às dez da manhã ou às onze da noite, a minha resposta será sempre a mesma: não fiz nada. A outra pergunta que eles fazem é a seguinte: eu estava pensando em te visitar, qual é a melhor hora pra você? E minha resposta também é sempre igual: a hora que você vier para mim está perfeito. A chance de eu ser encontrado em casa é total e absoluta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ontem eu me rebelei perigosamente: vesti uma bermuda (não agüentava mais me ver de cueca há dez dias), calcei um par de tênis e peregrinei feito um romeiro cansado até a locadora que fica a 50 metros de casa. O tempo que eu levei capengando para ir, escolher um filme e voltar seria suficiente para ver E o Vento Levou na íntegra. Retornei para casa com a mesma sensação de vitória da personagem da atriz Alinne Moraes na novela Viver a Vida, que após passar vários dias imobilizada na cama, no capítulo de ontem conseguiu se sentar, o que levou às lágrimas todos os personagens da novela e eu aqui na minha casa, pois eu sabia o quanto estas pequenas vitórias são importantes para nós!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí fiquei torcendo para que alguém me ligasse para perguntar o que eu tinha feito do meu dia. Eu iria carregar a voz com esnobismo e superioridade para responder assim: “Eu? Ah, fui até a locadora sozinho...” Mas justo ontem ninguém me ligou e a resposta ficou entalada na minha garganta até agora. E só por isso eu vim aqui, contar para todos vocês, que ontem eu fui até a locadora, tá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me aguardem. Assim que a minha xoxotinha sarar, prometo tirar o atraso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-8351606811560649397?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/8351606811560649397/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=8351606811560649397&amp;isPopup=true' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8351606811560649397'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8351606811560649397'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/12/de-molho.html' title='De molho'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-5403898392973923017</id><published>2009-11-19T16:03:00.000-02:00</published><updated>2009-11-19T16:04:18.819-02:00</updated><title type='text'>Labirinto</title><content type='html'>Terminei de ler Felicidade Conjugal, novela do escritor russo Lev Tolstói publicada em 1859 e estou me controlando para não reproduzir aqui a última página do livro, na minha modestíssima opinião uma das peças mais belas, simples e sensíveis da literatura universal. Em poucas palavras, Tolstói descreve com a maestria dos gênios uma sensação que todo mundo já deve ter experimentado ao menos uma vez na vida: aquela certeza de que algo mudou sem que as coisas tenham, efetivamente, mudado. A coisa, no caso da novela, é o amor. Um dia, a heroína da história, Mária, jovem da aristocracia rural casada com um proprietário de terras de 36 anos, um velho para os padrões do século 19, constata com dolorida aceitação e inevitável conformismo que o amor que ela sentia pelo marido metamorfoseou-se para sempre – ela continuava a ser a mesma mulher, ele o mesmo homem e nada de estranho havia ocorrido aos dois filhos do casal, ainda assim, o mundo que os dois conheceram estava irremediavelmente morto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É uma constatação tão sutil, uma alteração tão ínfima no estado da alma da personagem que só mesmo um escritor superlativo poderia dar conta de tornar este relato não apenas verossímil, mas cruel e contagiante. Porque, se nos dermos a chance de pensar um pouco em nossas vidas, encontraremos a Mária que habita a nossa alma: um dia, assim como ela mas talvez com menos elegância, a gente também percebe que nada aconteceu, mas o mundo que conhecíamos até ontem também não existe mais. Alguma coisa se perdeu e se quebrou – nada que nos impeça de continuar a nossa caminhada. Mas só nós sabemos o quanto estamos mancando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois que fechei o livro, fiquei pensando que talvez seja mais difícil ser escritor nos dias de hoje. Não porque tudo já teria sido dito, como atestam os niilistas. Mas porque nos tornamos mais incrédulos e de alguma forma desesperançosos, não só como leitores, mas como pessoas. Em uma das passagens de Felicidade Conjugal, por exemplo, Tolstói consome algumas páginas para relatar os sentimentos de culpa provocados na heroína por um mais que inocente beijo no rosto que lhe fora dado por um pretendente, quando ela já estava casada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro, precisamos recorrer à moral da época para entender a auto-condenação que se instalou na mente da personagem. E a qual moral específica um autor da nossa era teria de recorrer para nos causar uma impressão semelhante? Sei que os escritores de agora contam com um repertório muito mais vasto do que aquele oferecido a Tolstói: podemos falar de coisas que ele nem imaginaria que fossem existir algum dia, como a internet, satélites, viagens espaciais, transplantes de órgãos, telefonia, efeito estufa, camada de ozônio e mais um sem número de novidades tecnológicas que, sejamos justos, não fazem frente à beleza da descrição de um sentimento humano. E é nisso, acredito eu, que devemos continuar apostando, porque é só o que nos resta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penso num amigo que, há algumas semanas, aventurou-se a escrever seu primeiro livro. Não o injevo. Em sua narrativa seca e contemporânea, que tem início com uma pomba se estatelando contra o pára-brisas de um táxi em alta velocidade pela marginal do Tietê, somos apresentados a uma garota de 17 anos recém-chegada do Sul com o sonho de se tornar modelo em São Paulo. Em sua primeira manhã na capital, enquanto sobe de elevador até o andar em que vive um modelo também em início de carreira e que irá hospedá-la, a garota se pergunta se deve dar para ele assim que chegar ou se seria mais conveniente tomar um banho e descansar um pouquinho antes. Tolstói precisou de mais de 100 páginas para que sua heroína fosse contemplada com um beijo que lhe queimou as faces e a alma. A heroína do meu amigo estava prestes a ir para debaixo dos lençóis já na terceira página de seu livro inacabado: e eu, primeiro leitor desta obra em processo, inconscientemente torcia para que ela transasse logo de uma vez e só depois pensasse no que faria da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tolstói soube muito bem o que fazer com sua personagem atormentada pelo beijo proibido e a conduziu por reentrâncias do espírito que ainda nos amedrontam. Meu amigo – e aqui não estou julgando o talento de um e outro escritor – escreveu para me dizer que não sabia mais o que fazer de sua heroína que já abrira as pernas na página três. Não porque ela fosse uma garota amoral ou desavergonhada: ela abrira as pernas porque, acima de tudo, era isso que esperávamos que ela fizesse. E, se não o fizesse, sairíamos por aí dizendo que havia algo de errado com um dos três: a garota que não deu, o carinha que não comeu, ou o autor que não colocou logo um em cima do outro. Nós temos pressa e nenhum tempo a perder com culpas, beijos no rosto ou delicadezas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho pena dos autores de hoje. Nós nos tornamos muito cruéis.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-5403898392973923017?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/5403898392973923017/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=5403898392973923017&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/5403898392973923017'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/5403898392973923017'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/11/labirinto.html' title='Labirinto'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-3772876775596323674</id><published>2009-11-17T20:14:00.000-02:00</published><updated>2009-11-17T20:15:27.300-02:00</updated><title type='text'>2012 - ou um pouquinho depois</title><content type='html'>Assisti ontem ao filme 2012. Mesmo para quem é fã de cinema-catástrofe, como eu sou, o filme é bem chatinho. E piora muito na meia hora final. Tudo bem que os efeitos especiais são bacanas – é impressionante ver a costa oeste dos Estados Unidos sumir do mapa em meio a terremotos e furacões e um pouco estranho ver o nosso Cristo Redentor despencar do Corcovado, em uma sequência que só consegue provocar risos na plateia. Nós, brasileiros, conseguimos rir até do apocalipse, bendita seja esta dádiva. Poderia ser um filme legal se não houvesse a eterna preocupação do cinema americano de mostrar que, antes de salvar o mundo, o mocinho tem de salvar seu casamento, seus filhos e principalmente sua moral desacreditada por conta de incontáveis erros cometidos nos anos que antecederam a catástrofe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então, diante de um mundo que já está recebendo a extrema-unção do Todo-Poderoso, um pacato e fracassado escritor consegue reunir a força de um Sansão à inteligência e astúcia de um Einstein – garantindo a sobrevivência de todos aqueles que lhe são caros. Grande porcaria.  O fim de toda a nossa espécie, de toda nossa cultura e civilização serve apenas de pretexto para que o mocinho se reabilite diante da ex-mulher e dos filhos pequenos que já não o respeitavam. Se a intenção era só resgatar a moral do cidadão médio americano, os estúdios podiam fazer algo mais simples e economizar em efeitos especiais. Vai ver que, para a cultura americana, toda reabilitação moral deva ser comemorada com um tsunami.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se há algo de interessante no filme é sua postura didática de reafirmar a nossa pequenez diante da natureza. O que não é novidade, eu sei. Qualquer ser humano pouco pretensioso sabe que, para o planeta, a nossa espécie deve valer tanto quanto a dos percevejos: basta uma coisinha de nada para que a gente desapareça como um dia os dinossauros e os mamutes também desapareceram. E olha que eles eram bem maiores e mais barulhentos que a gente. No filme, a temperatura no interior da Terra começa a subir assustadoramente, os pólos derretem, a crosta terrestre vira uma gelatina e todos nós, como se fôssemos uns torrõezinhos de açúcar, somos mergulhados nesta gigantesca e fumegante xícara de café em que o planeta se transformou. E pronto: a linhagem de primatas que culminou nas sinfonias de Beethoven, na pintura de Da Vinci e nos versos de Shakespeare recebe, enfim, seu ponto final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejo o filme no dia em que os principais dirigentes do mundo anunciam que o acordo climático de Copenhague já nasceu morto. As emissões de gases de efeito estufa vão prosseguir, os países ricos querem continuar a ser ricos, os emergentes não querem desacelerar seu processo de industrialização e danem-se os ursinhos brancos que não têm mais nem um pedacinho de gelo em que se equilibrar. A destruição do planeta, para todos nós, vai continuar restrita às imagens dos bichinhos morrendo de sede e fome, às tempestades tropiciais que parecem atingir somente os nossos vizinhos, às nevascas que ficam lindas nas fotos dos turistas e ao calor insuportável que nos obriga a correr até as Casas Bahia em busca de ventiladores e aparelhos de ar condicionado. Qualquer decisão sobre o clima foi jogada para 2010 e o homem continua a tratar este mundo como se ele fosse eterno e inesgotável. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho válida a pretensão de qualquer país de se desenvolver e garantir uma vida de farturas e recursos para os seus habitantes. Mas, daqui a pouco, penso que teremos algum dinheirinho no banco, às custas deste desenvolvimento descabido, e não haverá em loja alguma ventilador que possa refrescar o nosso corpo e a nossa consciência. Não sou fatalista e nem acredito nestas bobagens de 2012 ou 2030. Tenho certeza de que o mundo não vai acabar antes de alguns bilhões de anos. O que eu acho, de verdade, é que um dia o planeta irá se cansar desta coceirinha irritante que fazemos no nariz dele e ele então soltará um grande e proposital espirro, nos empurrando para muiiiiiiiiiiiiiito longe e para todo o sempre. Espero que a espécie que venha a nos substituir, e ela virá, seguramente, seja um pouquinho mais esperta do que a gente conseguiu ser.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-3772876775596323674?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/3772876775596323674/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=3772876775596323674&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/3772876775596323674'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/3772876775596323674'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/11/2012-ou-um-pouquinho-depois.html' title='2012 - ou um pouquinho depois'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-4189307971456029322</id><published>2009-11-17T14:49:00.001-02:00</published><updated>2009-11-17T14:51:01.306-02:00</updated><title type='text'>Soneto*</title><content type='html'>Por que me descobriste no abandono&lt;br /&gt;Com que tortura me arrancaste um beijo&lt;br /&gt;Por que me incendiaste de desejo&lt;br /&gt;Quando eu estava bem, morta de sono&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com que mentira abriste meu segredo&lt;br /&gt;De que romance antigo me roubaste&lt;br /&gt;Com que raio de luz me iluminaste&lt;br /&gt;Quando eu estava bem, morta de medo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que não me deixaste adormecida&lt;br /&gt;E me indicaste o mar, com que navio&lt;br /&gt;E me deixaste só, com que saída&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que desceste ao meu porão sombrio&lt;br /&gt;Com que direito me ensinaste a vida&lt;br /&gt;Quando eu estava bem, morta de frio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*(Chico Buarque. De quem mais poderia ser, né?)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-4189307971456029322?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/4189307971456029322/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=4189307971456029322&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/4189307971456029322'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/4189307971456029322'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/11/soneto.html' title='Soneto*'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-6392905415632580091</id><published>2009-11-11T19:36:00.001-02:00</published><updated>2009-11-11T19:36:40.987-02:00</updated><title type='text'>Palavras cruzadas</title><content type='html'>Nunca tive a chance de perguntar aos amigos Alberto Guzik , Mário Viana e Marta Góes que, como eu, começaram a vida no jornalismo para algum tempo depois se dedicar à dramaturgia,  se eles têm um olhar específico para as reportagens que produziram em suas carreiras, e um outro destinado às peças, contos e biografias que também saíram de suas mãos. Na verdade, o que eu gostaria de saber deles é se é possível a existência desses dois olhares e como cada um deles se comporta. Pode parecer uma pergunta trivial, mas acho que ela faz toda diferença do mundo. De sua resposta depende, acredito, o grau de satisfação (ou não) que sentimos diante de cada ponto final. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como os três queridos amigos que citei acima, eu também fui treinado profissionalmente para dar conta do imediatismo. Por mais interessantes, informativos e saborosos que pudessem ser os nossos textos nos jornais e revistas em que trabalhamos, sabíamos sempre que eles estavam condenados a uma morte prematura. No caso das revistas, talvez tivessem eles uma sobrevida de poucas semanas, mas nos jornais diários nossos textos estariam irremediavelmente mortos na hora do almoço do dia seguinte. E isso porque construímos nossas carreiras antes da chegada avassaladora da Internet. Hoje, um repórter da mídia impressa sabe que, na maioria das vezes, seu texto não passa de uma bela criança natimorta: se ele conclui uma matéria às seis da tarde, ela já estará velha desde as cinco. Em pouco tempo, até os peixes exigirão ser embrulhados por notícias mais quentes e interessantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me lembro de um episódio ocorrido quando eu era redator do Jornal da Tarde. A revista New Yorker havia publicado um artigo imenso sobre o maestro e arranjador Quincy Jones. O jornal adquiriu os direitos de publicação, traduziu o material e um editor pediu para que eu deixasse o texto no tamanho – o que vale dizer que 2/3 de todo aquele palavrório deveria ser cortado. Era um texto tão bem redigido e com as informações tão emaranhadas que, se eu cortasse uma linha aqui, ela iria fazer falta no parágrafo seguinte. Trabalhei dois dias na edição daquele texto. Quando entreguei o material pronto para o editor, estava feliz com o resultado: o que era realmente relevante no artigo sobre o maestro parecia estar ali. A matéria seria publicada no dia seguinte. Quando chego para trabalhar, às 11h da tal manhã seguinte, vejo as duas páginas com toda a história do Quincy Jones encharcadas e jogadas no bueiro. Havia chovido, parte do jornal desceu literalmente pelo ralo e justamente aquelas duas páginas estavam ali, para me alertar sobre a fragilidade do nosso trabalho e a brevidade das nossas aspirações. Aquelas duas páginas sobre o bueiro formam uma imagem que irá me acompanhar para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faço todas estas divagações a propósito de um fato concreto: há 15 dias, a Imprensa Oficial do Estado publicou, em um livro chamado O Teatro de Sérgio Roveri, quatro de minhas peças: O Encontro das Águas, Abre as Asas Sobre Nós, Andaime e O Funil do Brasil. Depois de muito tempo, voltei a ler estes textos, agora impressos, e a imagem do jornal com o Quincy Jones voltou a me assombrar: até que ponto resistiremos? Ou melhor: qual será o destino, a validade, a função e o objetivo das coisas que fazemos? Vejam: é uma questão prática e funcional, sem nenhuma conotação pessimista ou mesmo derrotista. E, o mais importante: uma questão que não esconde nenhum desejo de reconhecimento e posteridade. Até porque, sempre que ouço alguém dizer que está produzindo uma obra para ficar, eu rio de tanta pretensão. Eu sempre acreditei que, nesta vida, a gente só fica pra titia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reli os quatro textos e tive a tranqüila sensação de que continuaria a assumir a paternidade de cada um deles – o que é raro. No entanto, é preciso admitir que alguma coisa mudou: os textos cumprem, com honestidade, a função de revelar uma história que um dia eu desejei contar. Hoje eu contaria as mesmíssimas histórias, mas talvez de forma diferente – e então eu percebo que o tempo só faz colaborar para que a gente se torne obcecado pela palavra exata, pelo sentido inconfundível, pelo frescor que os dias apagam. Eu sinto que algo poderia ser mudado, mas não sei precisar o quê – até me dar conta que não temos o destino às vezes cômodo das histórias, que as páginas dos livros abrigam e preservam. Em um único dia, levantamos uma pessoa e somos outra na hora de dormir – e nada de tão importante assim aconteceu. Apenas uma camada nossa morreu, como uma casca que a cebola despreza. Parece, então, haver uma ingenuidade naquilo que fizemos num passado recente – e os dias, assustadoramente, estão nos tornando um pouco mais cruéis e talvez um pouco mais cínicos. A gente descobre, ao visitar o nosso passado de palavras, que a ingenuidade agora é algo que nos incomoda, porque parece que ela não diz mais respeito a uma pretensa pureza de espírito. Ou a uma benvinda inocência. Detectar ingenuidade em algo que fizemos parece sinalizar que não fomos espertos o suficiente, só isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, ainda vou pedir para que os amigos acima me digam sinceramente o que eles sentem quando esbarram em sua própria obra pelas lentes do tempo. Talvez a questão seja apenas uma grande encanação da minha cabeça, mas eu continuo acreditando que este tema, de tão poderoso, pode separar o dia da noite naquilo que fazemos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma curiosidade: sempre que estes assuntos impalpáveis cutucam a minha cabeça, eu me lembro de uma entrevista do genial diretor de cinema John Houston. Um dia, pediram para que ele falasse sobre Marilyn Monroe. Ele disse exatamente o seguinte: “Marilyn Monroe era exatamente igual a milhares de loiras que chegam todos os anos a Hollywood para tentar a carreira no cinema. Mas ela era diferente”. Em três linhas ele disse tudo que eu tentei dizer no imenso post acima. Talvez sem conseguir.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-6392905415632580091?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/6392905415632580091/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=6392905415632580091&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6392905415632580091'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6392905415632580091'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/11/palavras-cruzadas.html' title='Palavras cruzadas'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-2725672106387641803</id><published>2009-11-08T19:21:00.002-02:00</published><updated>2009-11-08T19:28:34.339-02:00</updated><title type='text'>O caso do vestido</title><content type='html'>Quando abri os jornais nesta manhã de domingo e li que a garota Geisy, aquela que incendiou de desejo, volúpia e bestialidade o campus da Uniban ao aparecer para as aulas no curso de turismo com um microvestido cor-de-rosa (que cá entre nós é bem sem gracinha), havia sido expulsa da faculdade, precisei de algum tempo para acreditar que o que eu tinha nas mãos, mesmo, era um jornal brasileiro, e não um tablóide do Paquistão, Irã ou Afeganistão. A notícia, por si só indigesta, ia se tornando cada vez mais repulsiva quando se lia o motivo da expulsão. De acordo com a Uniban, a garota precisou ser excluída do quadro de alunos porque havia muito tempo ela já “se insinuava” para os colegas. O obscurantismo é tamanho que a vontade é de rir. Punir um jovem brasileiro (vamos colocar no masculino para a afirmação assumir um caráter mais genérico), às vésperas do verão, porque ele se “insinua” é dar as costas à própria cultura do nosso país: o que temos feito, nos últimos 500 anos, em nossas praias, em nossas festas, em nossa alegria popular provavelmente única no mundo a não ser praticar o jogo da sedução? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que alguém poderá dizer que a sedução tem hora e local propícios para se desenvolver e que os bancos universitários foram feitos para a prática monástica dos estudos, e não dos olhares de cobiça. Será mesmo? O grande erro de Geisy teria sido, então, seduzir em hora e local inadequados? Somente aceitando este ponto de vista é que podemos entender por que ela foi expulsa por usar um vestidinho provocante enquanto que os jovens violentos que torturam e matam calouros nos trotes têm seus nomes e suas matrículas preservados pelas grandes faculdades do País. Porque estes jovens sabem exatamente como agir: eles são violentos, cruéis e assassinos nos campus universitários – onde a violência e o homicídio são tolerados, mas a sedução, não. E isso num país que faz do seu jogo de sedução moeda corrente e que orgulha-se de exibir ao resto do mundo as bundas bronzeadas das jovens nas praias com o mesmo afã que exibe os índices animadores da economia. É um país muito estranho, não há dúvida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este post não tem a menor intenção de defender Geisy. As entrevistas e a postura da garota revelam que ela não precisa de defensores. Articulada e direta, ela sabe exatamente em que armadilhas a universidade pisou ao assinar seu termo de expulsão, e agora está pronta para dar uma bela mordida nos cofres da instituição, num processo que, segura e justamente, ela deverá ganhar. Mais que isso: que me perdoem os puristas, mas todos nós sabemos que, também em outras vias, a garota saberá tirar o máximo proveito deste episódio lamentável. É contar os dias até que uma revista a convide para posar nua ou uma emissora de televisão a empregue em um programa humorístico de qualidade duvidosa. São estes os meios que a nossa sociedade encontrou de reparar aquilo que considera injusto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Geisy deve mesmo aceitar todos os convites e aproveitar esta fama repentina. E, acima de tudo, mostrar para os xiitas da Uniban que existe um país doidinho para apreciar aquelas coxinhas roliças que tanto incomodaram o puritanismo dos seus coleguinhas de faculdade. Se é esta a linguagem que parte do país entende, que seja esta a linguagem usada então.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-2725672106387641803?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/2725672106387641803/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=2725672106387641803&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2725672106387641803'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2725672106387641803'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/11/o-caso-do-vestido.html' title='O caso do vestido'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-7934053773798504094</id><published>2009-11-04T18:20:00.002-02:00</published><updated>2009-11-04T18:35:53.815-02:00</updated><title type='text'>Palavrinha mágica</title><content type='html'>Conheço algumas pessoas obcecadas por tecnologia, outras por dieta, algumas poucas por informação e outras tantas por compras. Tento pensar nas minhas obsessões e percebo que não há nada, ao menos nos últimos meses, que me ocupe tanto a atenção quanto a passagem do tempo. Não sei se isso chega a ser exatamente uma obsessão, mas o certo é que tenho buscado por este assunto nos livros, nos filmes e principalmente nas conversas. A passagem do tempo, ao menos na forma como a venho encarando, não tem a ver necessariamente com agum processo de envelhecimento – penso mais sobre o efeito sutil que o acúmulo de anos e sensações exerce sobre nossa maneira de enxergar o mundo e a nós mesmos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há algumas semanas – e já escrevi sobre isso aqui – eu tive a oportunidade de entrevistar a Fernanda Montenegro a propósito de seus 80 anos, completados agora em outubro. Na última quinta-feira, conversei com a atriz Christiane Torloni, que está em cartaz na cidade com a peça A Loba de Ray Ban. O texto é a versão feminina do espetáculo O Lobo de Ray Ban, que a própria  Torloni fez em 1987, quando tinha 30 anos. Ela usou grande parte da entrevista para falar sobre estes dois momentos de sua vida, aos 30 e agora aos 52 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os 30, segundo ela, trouxeram, além da consolidação profissional, uma certa calma que até aquele momento ela dizia desconhecer. Como as coisas na vida parecem estar muito interligadas, a calma foi necessária para que ela pudesse investir objetivamente na carreira. “Foi o período em que eu comecei a me sentir realmente uma mulher, liberta de qualquer resquício herdado da adolescência”, ela disse.&lt;br /&gt;E então ela chega aos 52 anos e diz que é preciso ter muita coragem para entrar nesta idade, "pois você se vê obrigada a abandonar uma zona de conforto na qual você viveu até este momento". É como, segundo o raciocínio da atriz, se os 50 anos viessem acompanhados de alguma compensação pelas coisas bacanas que você fez e também pelas cobranças de tudo aquilo que deveria ter feito e deixou para trás. Daí a necessidade de muita coragem para dar os passos necessários e inevitáveis rumo ao meio século.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei pensando muito nesta palavra: coragem. Por coincidência, encontrei com um amigo mais jovem e muito mais safado que eu dois dias após a entrevista. Enquanto tomávamos um café, comentei com ele sobre estes depoimentos da atriz. Ao nosso lado, como se para ilustrar esta conversa, havia uma revista justamente com a Christiane Torloni na capa e em fotos sensuais nas páginas internas. Perguntei se ele encarava. Ele disse que sim, que ela era linda e ele a encararia sem problemas, “desde que se esquecesse que ela tem 52 anos”. Mais cruel, impossível. Naquela hora entendi o que ela quis dizer com “é preciso ter coragem para passar dos 50”. Senti que é algo que as pessoas não perdoam em você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na terça-feira, para alimentar um pouco mais minha obsessão com este assunto, leio na Folha de S. Paulo um colunista dizendo que nossa época só venera dois deuses: o da juventude e o da saúde. Se o colunista estiver certo, o ser humano deve ser muito masoquista mesmo, pois conseguiu encontrar dois deuses mais cruéis que o deus dos católicos. Os deuses da juventude e da saúde estão dispostos a nos abandonar a qualquer hora – e nos abandonarão no momento em que mais precisarmos deles. O da juventude, este então, começou a nos abandonar na hora exata em que nascemos, o que me faz crer que é muito injusto seguir com esta veneração para com qualquer um deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chego ao final deste post sem nenhuma conclusão, a não ser a de que o tempo, &lt;br /&gt;tenhamos ou não coragem, irá passar de qualquer maneira e o melhor que temos a fazer é encarar esta passagem com alguma leveza e também  com alguma indulgência em relação aos planos que não conseguimos levar adiante. Até porque só existe uma maneira de a gente interromper a passagem do tempo, pelo menos para nós mesmos. E,sem nenhum julgamento moral, acho melhor a gente nem pensar nesta hipótese. Nossa guerra contra o tempo já nasceu como um jogo perdido, mas pode haver muita diversão  durante as batalhas. Talvez coragem seja mesmo a palavra.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-7934053773798504094?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/7934053773798504094/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=7934053773798504094&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7934053773798504094'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7934053773798504094'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/11/palavrinha-magica.html' title='Palavrinha mágica'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-7312075944702474926</id><published>2009-10-29T20:10:00.003-02:00</published><updated>2009-10-29T20:16:52.531-02:00</updated><title type='text'>Almofadas</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SuoTe3VraMI/AAAAAAAAAJs/nuq46xrWPPU/s1600-h/P1080041.JPG"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SuoTe3VraMI/AAAAAAAAAJs/nuq46xrWPPU/s400/P1080041.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5398148524328839362" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Antes que alguém pense que este blog está se tornando especialista em histórias de faxineiras e diaristas, já vou adiantando que não é o caso. No último post, falei sobre a vocação para a felicidade da Maria, diarista de um grande amigo. Hoje eu iria falar sobre um episódio desagradável envolvendo o twitter – do qual talvez eu tenha me afastado até segunda ordem – mas um pequeno diálogo ocorrido de manhã, aqui em casa, me fez mudar de ideia. Vou falar sobre a Malu, a diarista que me foi recomendada há cerca de três meses.  E que, por sinal, é ótima. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei muito pouco sobre ela – como em geral sabemos pouco sobre as pessoas que trabalham ao nosso redor. Ela diz ser cozinheira diplomada, especialista em comidas baianas e drinques eróticos. Esta informação já rendeu várias piadas entre meus amigos, mas juro que são habilidades que ela alega possuir. Malu trabalha cantando o dia inteiro. Liga o rádio assim que chega, em uma emissora que só toca hits. Ela acompanha cada uma das músicas, sejam elas em português, inglês ou mesmo italiano. Não entendo direito o que ela canta, mas acho que é sempre bom ter alguém cantarolando dentro de casa. Eu mesmo já fiz muito isso, hoje ando muito mais calado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Malu adora meus dois gatos, o Pirulito e a Ritinha, e fico muito constrangido em constatar que este amor não é recíproco. Logo que ela abre a porta, nas manhãs de quinta-feira, o Pirulito se esconde debaixo dos cobertores e a Ritinha pula em cima do armário da cozinha – às vezes ele pula junto, mas é raro (como no caso da foto no alto da página). Só voltam a circular pela casa quando ela vai embora. Eu já expliquei a Malu que eles resistem aos afagos dela porque é ela quem liga o aspirador  aqui em casa – e um bicho que dorme 18 horas por dia odeia quem faça barulho por perto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso era tudo que eu sabia sobre a Malu até hoje de manhã, quando ela foi tirar o pó dos sofás. Enquanto batia as almofadas, ela me disse: “Seu Sérgio, o senhor precisa comprar uma nova capa para estas almofadas”. Concordei com ela, dizendo que precisava mesmo, porque as almofadas estavam velhas. “O problema não é que elas são velhas”, Malu respondeu. “Tem muita coisa velha que é bonita. O problema é que elas são feias demais, Deus me livre”. Olhei para ela sem nenhuma resposta pronta, tomei banho e saí para trabalhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pensem que fiquei chateado com a observação da Malu. Ao contrário, eu adorei. Nem tanto pelo motivo da observação, e sim pela sinceridade com que ela se referiu às minhas velhas almofadas, que talvez sejam feias mesmo. Em seu lugar, eu teria feito mil rodeios, teria dito que talvez fosse elegante substituir as capas das almofadas de vez em quando, que a sala poderia ficar mais alegre, enfim, eu jamais diria que as almofadas de alguém são feias, ainda que fosse isso o que eu estivesse pensando. Confesso que senti uma inveja danada da Malu ao pensar em todas as ocasiões em que eu não fui capaz de dizer não, em que dourei a pílula, em que engoli em seco algo que deveria ter colocado para fora, todas as vezes em que, em nome de uma certa polidez, a gente acaba fazendo papel de bobo. Ninguém aprende a ser tão sincero e direto de uma hora para outra nesta vida, mas se a Malu continuar em casa por mais algum tempo, é bem capaz de eu criar coragem para começar a falar de todas as almofadas velhas e feias que cruzam o nosso caminho...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-7312075944702474926?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/7312075944702474926/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=7312075944702474926&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7312075944702474926'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7312075944702474926'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/10/almofadas.html' title='Almofadas'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SuoTe3VraMI/AAAAAAAAAJs/nuq46xrWPPU/s72-c/P1080041.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-3813806340767752277</id><published>2009-10-22T15:59:00.002-02:00</published><updated>2009-10-22T16:06:01.312-02:00</updated><title type='text'>A felicidade de Maria</title><content type='html'>A faxineira de um amigo é uma mulher negra e solitária. Nunca se casou. Vive em dois cômodos pequenos em Franco da Rocha, município da Grande São Paulo que só é citado na imprensa por seus índices de violência. Para vir trabalhar, no bairro das Perdizes, toma um trem de subúrbio e depois mais dois ônibus. Calculo que, num dia tranqüilo, ela deva gastar duas horas para vir ao trabalho e talvez um pouco mais para voltar para casa, na hora do rush.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com todas estas credenciais, um dia ela chegou para este amigo e perguntou: “Seu Gustavo, é verdade que tem gente que não é feliz? Eu não entendo isso, como é que alguém pode não ser feliz nesta vida?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais do que em definições filosóficas ou conceitos psicanalíticos, é nesta pequena história que eu penso sempre quando a palavra felicidade – e sua presença ou ausência em nossas vidas – me vem à mente. Maria, se não me engano é este o nome dela, concentra quase todas as particularidades que definem grande parte do trabalhador brasileiro: vive longe do emprego, tem uma remuneração baixa, só entra nos bairros da classe média pelas portas dos fundos e provavelmente sonha em algum dia ter uma casa igual àquela que ela limpa. E como é que Maria responde a tudo isso? Sendo feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando me lembro desta história – e me lembro muito dela – imediatamente penso em tudo aquilo que parece ser necessário à nossa felicidade. Um amor, algum dinheiro, a possibilidade das compras, conforto, bem-estar, realização profissional, uma viagem no horizonte, horas dedicadas à leitura e ao lazer, cuidados com o corpo, bons amigos, um doce far-niente e a certeza de que estamos seguros quando passamos a chave na porta. Examino todos estes itens e penso que a maioria deles seja estranha a Maria. Ou desnecessária. Não a conheço, mas desconfio de que sua felicidade dependa apenas de sua capacidade de trabalhar e se manter, de seu otimismo em relação ao mundo e do fato inquestionável de estar viva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos nossos olhos, não digo aos nossos olhos de classe média, mas aos nossos olhos que em algum momento de nossas vidas se tornaram tão insatisfeitos, tudo que faz Maria feliz nos parece tão pouco e, assumamos, quase desprezível diante da nossa imensa sede que não se sacia com quase nada daquilo que temos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que Maria sim é um livro de auto-ajuda, sem chavões, sem conselhos bobos e sem moralismos a preencher  páginas inúteis. Mas algo me diz que sua receita não se ensina.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-3813806340767752277?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/3813806340767752277/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=3813806340767752277&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/3813806340767752277'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/3813806340767752277'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/10/felicidade-de-maria.html' title='A felicidade de Maria'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-1317433379920057592</id><published>2009-10-13T17:46:00.001-03:00</published><updated>2009-10-13T17:46:29.481-03:00</updated><title type='text'>O tempo das incertezas</title><content type='html'>Quando eu tinha entre 12 e 13 anos comecei – como a maioria dos adolescentes, acredito – a ser incomodado por uma série de questões para as quais não encontrava uma resposta satisfatória. Talvez eu pensasse, naquela época e com outras palavras, que a falta de respostas fosse fruto da imaturidade e do pouco, ou quase nulo, conhecimento da vida. Mas me lembro bem de acreditar que quando chegasse aos 18 anos, junto com a carteira de motorista e o livre acesso aos filmes proibidos, viria a maturidade. Os 18 anos chegaram mais depressa do que eu imaginava e não trouxeram resposta alguma. No lugar delas, novas questões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encarei este fato com naturalidade. Havia tanta coisa prática a ser decidida que sobrava pouco tempo para indagações existenciais ou filosóficas. Antes de pensar em conceitos como felicidade e realização, havia que se decidir sobre qual profissão escolher, como pagar pelos estudos e como circular com alguma competência pelo mundo dos adultos – esta última ainda a ser resolvida. Achei normal, então, que eu jogasse esta sabatina da vida para os 30 anos, esta sim a idade da maturidade e do conhecimento. Os 30 anos chegaram ainda mais depressa do que os 18 haviam chegado e percebi, já com alguma consternação, que às questões levantadas aos 12 anos haviam-se somado aquelas surgidas aos 18, aos 20, aos 25 e finalmente aos 30. Em comum, todas continuavam sem resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gente não se dá por vencido tão facilmente. Os tempos modernos nos ensinaram que 30 anos é quase o final da adolescência e algumas certezas só se revelariam agora, na casa dos 40. Desnecessário dizer que os 40 também chegaram e não trouxeram as respostas. Foi então que algo de novo ocorreu neste jogo: a gente finalmente se dá conta de que, ainda que a tentação exista, é inútil esperar que o tempo venha a nos trazer alguma certeza. Acredito que seja neste momento das nossas vidas, neste momento em que a gente assume que o tempo nunca foi nosso aliado de verdade, que se instala em nós uma certa melancolia, ou um certo descrédito. Ou ainda, em casos mais leves, uma certa indiferença. O que não sabíamos aos 12, continuamos sem saber aos 40 e daí por diante, sem o consolo, funcional até agora, de que era possível jogar tudo para frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje eu acho que a grande dor da aventura humana não é a morte, a separação, a doença, o abandono ou a frustração e seus derivados. A grande dor da aventura humana é o não saber. Não me refiro ao não saber de fundo antropológico, do desconhecimento do nosso elo perdido, de onde viemos e para onde vamos, da falta de provas de que um dia nos separamos dos nossos antepassados primatas e começamos a sofrer de hérnia de disco porque decidimos andar sobre dois pés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu falo do não saber pequeno, mesquinho, que nos ataca a cada manhã em que nos levantamos da cama sem justamente saber os motivos, por menores ou mais nobres que eles sejam. Falo deste não saber que vai nos acompanhar até o último dos nossos dias: por maior que seja o número de livros lidos, de trabalhos realizados, de amigos adquiridos, de filhos criados, de sucessos e fracassos acumulados e dos incontáveis dias vividos, chegará o momento em que nos olharemos no espelho e nos perguntaremos, afinal, o que estamos fazendo aqui e qual o verdadeiro tamanho da nossa importância neste mundo, se é que existe algum. E não poderemos mais jogar esta pergunta para o futuro porque o futuro, neste dia, não existirá mais. Isto sim é a face da dor, acredito eu agora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas como eu disse que a gente não desiste à toa e dar murro em ponta de faca é a grande especialidade do ser humano, quem sabe aos 70 anos eu venha a ter algumas certezas que não tenho hoje... Não custa esperar. Até porque, passa cada vez mais rápido.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-1317433379920057592?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/1317433379920057592/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=1317433379920057592&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/1317433379920057592'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/1317433379920057592'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/10/o-tempo-das-incertezas.html' title='O tempo das incertezas'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-4439169369978239613</id><published>2009-10-09T16:09:00.002-03:00</published><updated>2009-10-09T16:15:02.964-03:00</updated><title type='text'>Fernanda Montenegro</title><content type='html'>Na próxima sexta-feira, dia 16, a atriz Fernanda Montenegro chega aos 80 anos. Eu a entrevistei na semana passada, para uma matéria publicada na edição de hoje do jornal Diário do Comércio. Compartilho aqui com vocês alguns momentos da conversa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus 80 anos estão sendo considerados como uma efeméride para o teatro brasileiro. Que importância esta data tem especificamente para você?&lt;br /&gt;Fernanda Montenegro: É absolutamente marcante no sentido de que 80 anos é um número que representa o infinito. É o limite a que um homem pode aspirar a chegar com inteireza. Os noventa minutos da minha partida nesta vida já estão transcorridos. Passo, agora, a viver o tempo complementar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que você sente ao dizer isso?&lt;br /&gt;Serenidade, até porque não tem outro jeito. É assim o jogo da vida. Mas não há nada de especial ou único nisso. Inúmeros colegas meus estão chegando aos 80 e alguns poucos aos 90. Estamos todos trabalhando sem o caráter de uma exibição circense. Estamos vivos e organizados mentalmente, com produtividade e, acima de tudo, com qualidade artística. Não há mais novidade nisso, o ser humano aprendeu a chegar produtivo aos 80 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta qualidade artística a que você se refere é aprimorada com o passar do tempo e o aprendizado?&lt;br /&gt;Nesta vida de artista somos expostos a uma série de experiências, de propostas, de alternâncias estéticas. Só no teatro eu passei por quase 90 espetáculos. Isso garante a qualquer ator uma imensa mobilidade. Desde que você não seja uma pessoa preconceituosa, você pode experimentar tudo, o convencional, o marginal, o alternativo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em quais espetáculos você sentiu o peso do marginal ou do alternativo?&lt;br /&gt;A Volta ao Lar, de Harod Pinter, por exemplo, foi um auê em 1967. As pessoas vaiavam e abandonavam o teatro quando minha personagem era humilhada e chamada de prostituta pelo sogro. Também experimentei este universo em textos do suíço Friedrich Dürrenmatt e de Nelson Rodrigues, um autor que joga sempre com a possibilidade da busca. Mas eram tempos em que as coisas ainda chocavam. Hoje nada mais choca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você já disse que poucos artistas conheceram este País tão bem quanto você e o Paulo Autran na época em que excursionavam com seus espetáculos produzidos com empréstimos pessoais feitos nos bancos. Fazer teatro hoje ficou mais fácil?&lt;br /&gt;Eu sou uma mambembeira. O ofício do teatro é e sempre será difícil porque ele nunca é solitário. Você não fica num banco de jardim pintando ou escrevendo suas elucubrações sobre a vida. Você precisa se locomover, se associar a pessoas. Uma produção minúscula viaja com no mínimo seis pessoas. Mas as coisas mudaram. Hoje o teatro assumiu um caminho de total dependência do governo, tudo tomou um outro rumo. Infelizmente, o teatro parece não existir mais sem as verbas públicas, já que os ingressos não correspondem aos custos de produção. Este é um assunto sobre o qual poderíamos passar dias conversando. Não é que eu não me sinta disposta a falar sobre isso, mas este assunto consumiria todo o nosso tempo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você acredita que criou uma escola Fernanda Montenegro de interpretação? Reconhece seu estilo em jovens atrizes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escola? Eu? Não tenho esta pretensão, confesso que nunca havia pensado nisso até este momento. Isso é algo que não ocupa a minha cabeça, de modo algum. Mas, já que você tocou neste assunto, vou começar a reparar no trabalho de outras atrizes. Quem sabe daqui a algum tempo eu lhe telefone para dizer: olha, aquela pergunta ainda está de pé? É que descobri uma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você é mãe de dois artistas reconhecidos, a atriz Fernanda Torres e o diretor Cláudio Torres. Que peso isso tem em sua contabilidade de vida?&lt;br /&gt;Eu dei todo mundo para o mesmo ramo. Eles estão fazendo o que querem fazer. São pessoas vocacionadas e, com olhos nem tão maternos, posso dizer que eles têm talento para fazer o que optaram. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, quando você examina seu extenso currículo, você diria “que bom que fiz aquilo” para que trabalhos?&lt;br /&gt;Que bom que eu trabalhei por tantos anos na Rádio do Ministério da Educação e Cultura no Rio de Janeiro. Que bom que eu fiz a tevê Tupi nos anos 50. Que bom que eu fiz o Grande Teatro Tupi, que durou até 1967, época em que pudemos levar para o grande público os melhores textos de teatro e de literatura. E que ótimo tudo o que eu fiz em teatro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ótimo vai para o teatro?&lt;br /&gt;Eu acho que tudo o que fiz no teatro foi ótimo pelo seguinte motivo: algumas peças me deram um excelente resultado artístico e as que não deram me ensinaram como melhorar. Tive momentos consideráveis de qualidade e outros de negatividade. Este é um mural que me honra muito. É um mural que me educou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você gosta de trocar experiências com artistas mais jovens?&lt;br /&gt;Gosto muito, e não existe mérito algum nisso. As trocas são importantes porque nós não somos eternos e vivemos a partir da substituição das gerações. Isso é próprio da luta para ser e existir neste métier. Eu preciso saber por quais caminhos os novos artistas estão indo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você chega aos 80 anos com algum medo ou pacificada com suas apreensões?&lt;br /&gt;Eu tenho medo. Não se pode chegar aos 80 anos sem medo, principalmente no campo da saúde, ainda que se possa contar com algum tipo de socorro imediato. Há a decadência física, a finitude chegando e você não sabe bem por onde ela virá. Aos 40 anos você começa a pensar que a morte existe. Aos 80, ela é uma realidade. Ela existe e ela virá sempre disfarçada. E, como ela virá disfarçada, você pensa com apreensão sobre o disfarce com o qual ela irá se apresentar a você. Não vivo me autoperscrutandoo, mas a apreensão existe.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-4439169369978239613?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/4439169369978239613/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=4439169369978239613&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/4439169369978239613'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/4439169369978239613'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/10/fernanda-montenegro.html' title='Fernanda Montenegro'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-1067949187362837744</id><published>2009-10-04T17:45:00.000-03:00</published><updated>2009-10-04T17:46:06.501-03:00</updated><title type='text'>O que será que me dá?</title><content type='html'>Confesso que nunca entendi direito qual a diferença entre paixão e amor e, entendo menos ainda, porque estes dois sentimentos aparentemente não podem conviver. Nos artigos e matérias que já li sobre o tema (talvez eu não tenha lido o que precisava) a paixão costuma ser descrita sempre como algo fugaz, sintomático, alguma coisa que parece já ter nascido com os dias contados. Me lembro que um renomado psicólogo há pouco tempo escreveu, em sua coluna num grande jornal, que a paixão dura em média dois anos – como se os nossos sentimentos de vez em quando resolvessem produzir uma bienal. Outros especialistas costumam se referir à paixão como sendo a infância do amor, no máximo sua adolescência – uma fase de trapalhadas, sobressaltos, confusões e uma quantidade de adrenalina que vai muito além do desejável. Já o amor seria a maturidade do sentimento, uma elevação, um nirvana que nos deixaria mais seguros e pacificados. Algo que, com um pouco de sorte, poderia durar a vida inteira e ter somente um único alvo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que eu nunca compreendi, realmente, é se a gente não pode estar apaixonado (ou apaixonar-se) pela pessoa que a gente ama. Ou o inverso: não podemos amar aquela pessoa por quem nos apaixonamos?  Os manuais de psicologia parecem dizer que não: ou é uma coisa ou outra. Ou a serenidade do amor ou o fogo da paixão, pois nesta aritmética de possessão, as duas coisas não podem habitar o mesmo corpo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fim da tarde do sábado, eu estava tomando um café na Vila Madalena com um amigo. O celular dele tocou – e sempre que isso ocorre, sei que vai demorar um bocado para ele desligar. Não que ele seja mal-educado, talvez seja apenas ocupado, ainda que numa tarde fria de sábado. Enquanto ele falava ao telefone, reparei que na mesa ao lado três garotas tentavam definir o que uma quarta estava sentindo. Como não ouvi o início da conversa, imagino que esta quarta garota tivesse contado de seu recente interesse por um carinha. Então uma delas perguntou: “Mas o que você está sentindo? É paixão ou é amor?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ela cometeu a insensatez de dizer que não sabia. A segunda garota, um pouco mais alterada, emendou: “Como não sabe? Todo mundo sabe isso. Ou é paixão ou é amor. Você precisa saber o que é”. Ela tentava explicar que gostava de sair com o cara, estava curtindo este início de relacionamento, as coisas pareciam caminhar bem e, por isso, preferia deixar rolar. A terceira garota, até então calada, resolveu colaborar. “Então talvez não seja nem amor e nem paixão. Acho que é só sexo”. A primeira garota, incomodada com a falta de diagnóstico, prosseguiu. “Ainda que seja só sexo ela precisa saber o que é. Suas pernas tremem quando ele chega perto?” A garota sabatinada respondeu que um pouco. Acrescentou que ainda ficava um pouco vermelha, sem assunto e a garganta parecia secar. Como se tivesse acabado de diagnosticar um caso de gripe suína, a primeira garota respirou aliviada. “Ah, são todos os sintomas da paixão. Pronto, é isso que você sente”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, com isso, parece ter resolvido o problema da amiga. Ou, quem sabe, colocado um ponto final numa fase prazerosa para a qual a jovem não estava a fim de procurar nenhuma definição. Ela saiu para tomar um café e, aparentemente a contragosto, voltou apaixonada para casa. Meu amigo desligou o telefone, pediu outro café e retomamos nosso assunto que, pelo que me lembro, era bem menos interessante que o papo das garotas. Eu voltei para casa sem entender direito, ainda, o que é amor e o que é paixão. Mas eu prefiro assim. Se alguém souber a diferença exata, por favor, não me conte.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-1067949187362837744?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/1067949187362837744/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=1067949187362837744&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/1067949187362837744'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/1067949187362837744'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/10/o-que-sera-que-me-da.html' title='O que será que me dá?'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-2509486675328542294</id><published>2009-09-30T16:13:00.003-03:00</published><updated>2009-09-30T16:29:17.881-03:00</updated><title type='text'>Cleyde Yáconis</title><content type='html'>Tenho um amigo chamado André Fusko. Ele é ator e médico - exerce este segundo ofício com invejável profissionalismo, mas o conheço bastante bem para dizer aqui que seu sonho seria poder viver daquilo que o palco tem a nos oferecer. Em 2006, Fusko participou, ao lado das atrizes Cleyde Yáconis e Maria Manoella, da belíssima montagem de Cinema Éden, texto da francesa Marguerite Duras encenado por Emilio di Biasi no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois ontem à noite encontrei o Fusko na cerimônia em que o Teatro Cosipa, na estação Conceição do metrô, passou a se chamar Teatro Cleyde Yáconis. Tive a honra de ser convidado para escrever o roteiro da festa, mas não é sobre isso que quero falar. Quero falar que estavam presentes ao evento grandes amigos de Cleyde, atores e diretores que ela conhece de longa data. Após seu pequeno discurso no palco (Cleyde odeia este tipo de celebração), houve um coquetel no saguão do teatro, em que ela foi disputada por dezenas de fotógrafos, repórteres, cinegrafistas e fãs. Magra e elegante, ela se locomovia com dificuldade por entre tantos flashes. E então ela viu André Fusko no meio daquela gente toda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhou até ele, abriu os braços, sorriu e perguntou: "Oi, André, você se lembra de mim?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostaria que todos os blogueiros, tuiteiros e jovens artistas que não fazem outra coisa na vida a não ser falar dos seus próprios umbigos tivessem testemunhado esta pequena prova de humildade e generosidade de uma atriz fantástica que, aos 86 anos e na noite dedicada a ela, pergunta a um jovem ator se ele se recordava de um dia ter trabalhado com ela. Que pena que vivemos num mundo de poucas Cleydes e muitas celebrities de última hora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-2509486675328542294?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/2509486675328542294/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=2509486675328542294&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2509486675328542294'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2509486675328542294'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/09/cleyde-yaconis.html' title='Cleyde Yáconis'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-1059434179746179547</id><published>2009-09-25T16:21:00.000-03:00</published><updated>2009-09-25T16:22:24.745-03:00</updated><title type='text'>À francesa</title><content type='html'>No intervalo de apenas seis dias tive o prazer de assistir a duas peças da escritora francesa Marguerite Duras em São Paulo. Demorei um pouco para escrever sobre isso porque fiquei pensando se haveria algo em comum entre os dois textos, escritos com um intervalo de vinte anos e, cada um ao seu modo, testemunhas de um mundo em transmutação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;La Douleur, de 1945, narra a terrível espera da escritora pela libertação de seu companheiro Robert D., levado pelos nazistas para o campo de concentração de Dachau, na Alemanha. O monólogo foi apresentado em São Paulo em apenas dois dias, 12 e 13 de setembro, diante de um público extasiado no Teatro do Sesc Anchieta. Mirrada e magnética como uma Edith Piaf, a atriz francesa Dominique Blanc, dirigida por Patrice Chéreau, fez de La Douleur uma pequena descida aos infernos sem previsão de retorno. Ao inferno da dor, já presente no título, mas também ao inferno da espera, da angústia, da separação e principalmente da proximidade da morte.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Conversei sobre este texto com um amigo médico, leitor voraz e eternamente insatisfeito. Ele me disse que foi apresentado a este livro de Duras por um professor de clínica médica, que um dia surpreendeu os jovens estudantes com a declaração de que se eles quisessem entender a dor humana, deveriam ler La Douleur e não os livros de medicina. “Nenhum autor médico conseguiu chegar tão perto da descrição da dor quanto ela”, disse o professor. “Leiam e vocês entenderão até onde pode chegar o sofrimento humano”. Ele leu – e me garantiu que o professor tinha razão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda sob o impacto de La Douleur, que deixou várias pessoas prostradas na poltrona quando o espetáculo terminou, fui ver La Musica, que Marguerite Duras escreveria bem mais tarde, em 1965, já superadas as dores da guerra e na antessala da chegada do feminismo. La Musica, em cartaz no Tuca Arena, fala de um casal que se reencontra três anos após a noite da separação apenas para assinar a documentação do divórcio. Conversam aproximadamente das seis da tarde às três da manhã – um diálogo interrompido por três telefonemas, dois da nova parceira do homem e um do novo parceiro da mulher. Sim, nestes três anos eles refizeram a vida, mas de uma maneira que o público chega a pensar que seria melhor se não tivessem refeito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então eu entendi que os dois textos falam, acima de tudo, da separação, talvez mais do que da própria dor. No caso de La Douleur, a separação imposta por um mundo em guerra; em La Musica, a separação como consequência de pessoas motivadas por uma guerra mais particular, alimentada por pequenas traições, intransigências, fadiga, rotina e descaso. E, com suas palavras certeiras e impressionantemente precisas, Duras parece querer dizer que os bombardeios, sejam eles despejados dos aviões ou das bocas dos amantes, têm poderes igualmente letais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;La Douleur é um texto de sofrimento escancarado, imediato e reconhecível. La Musica, e agora isso me parece muito claro, traz a dor camuflada pela civilização cuja ausência permitiu justamente o nascimento do texto anterior. Talvez eles se complementem, talvez tragam um ponto de vista trágico e outro mais cotidiano sobre a dor da separação, sobre aquele hiato em que o amor num caso e a diplomacia no outro falharam. Talvez seja muito mais que isso. Ou talvez seja muito mais simples. É possível que os dois textos queiram mostrar apenas que viver sempre dói, em tempos de guerra ou de paz. E que não há receita possível para evitar isso, a não ser a nossa disposição de acreditar em alguma redenção possível.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-1059434179746179547?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/1059434179746179547/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=1059434179746179547&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/1059434179746179547'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/1059434179746179547'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/09/francesa.html' title='À francesa'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-5533575581280141598</id><published>2009-09-17T17:05:00.000-03:00</published><updated>2009-09-17T17:06:06.534-03:00</updated><title type='text'>O último entre tantos adeus</title><content type='html'>Na manhã desta quinta-feira minha tia, única irmã da minha mãe, morreu aos 81 anos. A morte de hoje, ocorrida às 8h30, foi sua segunda morte. Ou sua morte oficial, aquela que constará nas certidões e atestados. Vítima de Alzheimer, ela já estava morrendo há pelo menos seis anos. Para seus filhos e netos, é bem provável que a morte tenha ocorrido inúmeras vezes ao longo dos dolorosos episódios em que ela foi apagando cada um deles da sua memória. A mulher idosa e macérrima que cerrou os olhos pela última vez na manhã de hoje já havia se convertido em uma espécie de fantasma em uma data que talvez ninguém se lembre exatamente qual – até porque foram tantas. Uma para cada pessoa que um dia escapou para sempre de suas lembranças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como vivíamos em cidades diferentes, não acompanhei de perto seu processo degenerativo. Mas aprendi que o Alzheimer é uma doença de inúmeras faces – algumas delas muito peculiares, até. Um doente de câncer é sempre um doente de câncer – e não parece haver nada de engraçado nisso. O Alzheimer, não. Antes de revelar sua faceta mais aterradora, é uma doença que transforma sua vítima, logo nos primeiros sintomas, em uma atração para a família. Confesso que era difícil ocultar o riso – ainda que fosse um riso piedoso – diante da visão da minha tia plantando e regando flores de plástico, aquecendo o telefone celular dos netos dentro do microondas até que eles explodissem ou tentando fazer um suco de laranja com o secador de cabelos. Até então, achávamos apenas que era uma pessoa com pouco mais de 70 anos compreensivelmente alheia a um mundo cheio de aparelhos tecnológicos. Como se fosse uma criança, talvez ela apenas não soubesse o que fazer diante de tantos aparelhos que a tecnologia, os filhos e netos haviam trazido para sua casa. Mas esta “infância” do Alzheimer dura pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois da confusão com os objetos, veio uma fase, ainda mais inquietante, em que ela era invadida por ondas de intenso desejo sexual. Maquiava-se, tomava vários banhos por dia, recorria a velhos frascos de perfume para esperar pela chegada de um namorado misterioso, com quem ela iria “rosetar” a noite inteira. Recorri ao Aurélio. Rosetar: divertir-se às pampas com alguém do sexo oposto. A doença parece ter desenterrado nela um apetite sexual que seu marido, um pouco mais velho e já bastante doente, jamais seria capaz de dar conta. E então percebemos que não havia nenhuma contradição, física ou moral, em seu irrefreável desejo pelo sexo: dentre todas as pessoas próximas, o marido foi a primeira de quem ela se esqueceu. Uma tarde, ao sair do quarto arrumada e de batom nos lábios, ela viu o marido deitado no sofá. Olhou para os filhos e perguntou: quem é este velho que está dormindo na minha sala? É seu marido, responderam os filhos. Eu sou solteira, ela respondeu. E se tivesse de me casar, não seria com um homem tão velho e feio como este aí. Neste dia, se ainda havia alguma picardia na doença, ela foi embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então começaram a vir os episódios mais tristes. Em meio às suas constantes crises de choro, ela dizia sempre que queria voltar para casa. Não adiantava dizer que aquela era a casa dela. Chorando e diante dos portões já com cadeados, para evitar sua fuga, ela procurava pela sua casa de infância. Tinha no rosto a impressão de uma criança perdida. E então, um a um, ela foi apagando os cinco filhos e cada um dos tantos netos. Foi falando cada vez menos, o olhar foi se tornando mais estranho e inquisidor, as pessoas ao seu redor já não lhe diziam mais respeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até então, não tinha visto minha mãe chorar por causa da minha tia – talvez porque minha mãe fosse a única pessoa de quem ela ainda se lembrava. Mas, numa tarde de domingo, minha tia olhou bem para minha mãe e disse: Já está na hora de você se casar e ter filhos. Você não pensa em arrumar um marido?”. Minha mãe respondeu que já era casada, tinha dois filhos e uma neta. E fez a pergunta que finalmente trouxe as lágrimas aos seus olhos: Você não sabe quem eu sou? Minha tia olhou para ela e respondeu simplesmente: Não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos meses e anos seguintes, ela foi mergulhando em um silêncio cada vez mais impenetrável. Já não andava mais, apresentava várias escaras pelo corpo e na segunda-feira à noite parou de comer. Morreu nas mãos dos enfermeiros enquanto estava sendo ligada a sondas e outros aparelhos totalmente inúteis. O adeus que lhe deram nesta manhã cinzenta de Jundiaí ainda foi o mais dolorido. Mas para todos aqueles que acompanharam o seu descomunal sofrimento, estava longe de ser o único.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-5533575581280141598?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/5533575581280141598/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=5533575581280141598&amp;isPopup=true' title='18 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/5533575581280141598'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/5533575581280141598'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/09/o-ultimo-entre-tantos-adeus.html' title='O último entre tantos adeus'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>18</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-3378855591956203627</id><published>2009-09-14T18:17:00.001-03:00</published><updated>2009-09-14T18:17:36.102-03:00</updated><title type='text'>Data de vencimento</title><content type='html'>Há alguns dias eu compartilhava uma mesa de bar com dois amigos. Um deles estava bem, como pareceu estar sempre bem ao longo de todos estes anos que a gente se conhece. O outro estava um caco. Tinha acabado um namoro de quase um ano, chorava na nossa frente e dizia ter certeza de que aquela mulher de quem ele começava agora a se afastar era a mulher da vida dele. Eu nunca sei bem o que dizer diante de alguém que chora. É como se as lágrimas brotassem de algum lugar aonde as palavras não chegam. Eu prestava muita atenção ao que o amigo dizia, tentava compreender sua dor e, por algum motivo qualquer, achava que ele tinha razão. Naquele momento – e ainda que aquele momento não viesse a durar para sempre – a mulher por quem ele chorava era mesmo a mulher da vida dele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O outro amigo, cuja praticidade eu sempre invejei, ouvia tudo calado como eu, movimentando apenas o braço direito, que levava o copo de chope até a boca. Então, quando o desabafo do nosso amigo triste parecia ter chegado ao fim, ele pediu a palavra para dar seu surpreendente diagnóstico – que depois eu cheguei a me perguntar se seria sempre este o diagnóstico masculino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Chore mesmo – disse o amigo prático. - Chore e esperneie tudo o que você tem de espernear. Sofra, pragueje, vá ao fundo da sua dor. Mas calcule um tempo exato para este sofrimento: um mês, a contar de hoje. Daqui a um mês você deve se levantar, olhar para o espelho e dizer: agora acabou. Vou partir para outra porque esta dor ficou antiga. Chega de sofrer por isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, que já estava quieto, resolvi me calar ainda mais, na tentativa de acreditar que fosse possível estipular um prazo para o fim da dor. Depois pensei muito no que tem sido a vida deste amigo prático durante todos esses anos que o conheço. E tive de admitir que ele sempre seguiu à risca seu próprio conselho. Não importava o tamanho do amor ou do luto, do prazer ou da dor: uma manhã qualquer ele levantava e decretava o fim daquilo que sentia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca acreditei que nossa supremacia sobre os sentimentos pudesse chegar a este nível. Reagir à dor é possível – mas que possível, talvez seja saudável. Quanto a dizer em que momento ela deve terminar, isso eu já não sei. Se pudéssemos controlar a dor com tanta aritmética, talvez pudéssemos fazer o mesmo em relação ao amor, à saudade e a tudo aquilo que faz de nós ser o que somos. Depois pensei se haveria teatro, literatura, cinema e música se a dor tivesse prazo de validade. Pensei em todas as peças, filmes e livros que só nasceram porque a dor e o amor fugiram totalmente do controle de algum autor. Talvez nós estejamos aqui porque um dia o amor e o desejo fugiram ao controle dos nossos pais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se eu soubesse que o que eu sinto agora poderia ser controlado daqui a um mês, acho que eu não seria nada e nem ninguém. Talvez um boleto bancário, talvez um calendário preso na parede, no máximo um aviso colado na porta da geladeira. Eu acho que a gente é bem mais do que isso porque a nossa dor e o nosso amor vão sobreviver mais do que um mês. Vão sobreviver a nós mesmos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-3378855591956203627?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/3378855591956203627/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=3378855591956203627&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/3378855591956203627'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/3378855591956203627'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/09/data-de-vencimento.html' title='Data de vencimento'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-7153840629852996437</id><published>2009-09-07T13:37:00.003-03:00</published><updated>2009-09-07T13:49:51.468-03:00</updated><title type='text'>Gurus</title><content type='html'>Leio hoje que o psicanalista e escritor Augusto Cury, autor de inúmeros best sellers, entre eles O Código da Inteligência, atualmente em terceiro lugar na lista dos mais vendidos na categoria "Autoajuda e Esoterismo" é o guru da senadora Marina Silva, provável candidata do PV à presidência da República. Confesso que nunca li um livro inteiro do Augusto Cury - um dia, enquanto esperava por um voo no aeroporto de Congonhas, entrei numa livraria e fiquei lendo capítulos esparsos de um de seus incontáveis títulos, agora não me recordo qual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo que me lembro da leitura, esta notícia me deu uma tristezinha. Sempre achei esta história de guru meio babaca. Eu penso que se a gente devesse seguir algum guru da área da literatura, esse alguém deveria ser um Philip Roth, um Ian McEwan, um Coetzee (isso para ficar entre os vivos, pois guru vivo deve funcionar melhor), um Paul Auster ou um Milton Hatoum, se fosse o caso de prestigiar um guru nacional. O problema é que eles talvez não aceitassem ser guru de ninguém - descrentes que parecem ser deste ramo de atividade....&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim. Se o assunto é religião, futebol e agora guru, a gente tem de respeitar todo mundo, né? Desde que a gente não precise ler nada dos gurus alheios, aí já seria pedir demais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-7153840629852996437?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/7153840629852996437/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=7153840629852996437&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7153840629852996437'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7153840629852996437'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/09/gurus.html' title='Gurus'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-7875024283274364236</id><published>2009-09-06T20:32:00.001-03:00</published><updated>2009-09-07T13:54:07.746-03:00</updated><title type='text'>Aconteceu na casa ao lado</title><content type='html'>Fui almoçar com meus pais há alguns dias. As conversas entre aqueles que não se veem com tanta frequência, ainda que sejam pais e filhos, levam um certo tempo para engatar. Primeiro é preciso dar conta de questões corriqueiras como o trabalho, a rotina, o que cada um de nós fez desde a última vez em que nos vimos, para só então entrarmos naquilo que realmente nos toca mais. E, deste último encontro, sei que não poderia ter saído mais tocado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mãe contou, com alguns detalhes que não se fazem necessários aqui, de um verdadeiro drama enfrentado por um casal de vizinhos, pais de um garotão de 16 anos que no domingo tentou o suicídio ingerindo cerca de 70 comprimidos de vários gêneros de medicamentos. Quando a mãe entrou no quarto, ele já estava desfalecido. Chegou ao hospital em estado grave, passou por uma série de procedimentos de desintoxicação e ressurreição (desconheço os termos exatos) e precisou ser levado para a UTI, onde permaneceu por dois dias. Quando eu soube desta história, ele já estava em recuperação no quarto do hospital. O pai permanecia ao lado dele havia 72 horas ininterruptas, dividido entre a guarda e o desespero. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele sempre foi um menino tão diferente dos outros”, disse a minha mãe. “Ele sempre teve paciência e atenção com os mais velhos. Eu saio na rua e os meninos desta idade mal me olham. Ele, não. Toda vez que me via, parava para perguntar como eu estava e se tudo corria bem aqui em casa”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais que o relato da tentativa do suicídio, o que me pegou de jeito foi justamente esta observação da minha mãe... um menino tão diferente dos outros. Diferente em quê, fiquei pensando. Na atenção, na delicadeza, na aparente importância com o próximo, na sensibilidade e na preocupação com o bem-estar alheio? Em pequenos gestos e sentimentos que talvez não encontrem muito mais lugar no mundo? Se eu o conhecesse, talvez a única coisa que lhe dissesse seria esta: calma, porque por mais que pareça, você não está sozinho. Ainda há, felizmente neste mundo, muitas pessoas que cultivam e dão valor a tudo aquilo que torna você diferente aos olhos dos outros. Se é que este seja realmente o problema. Se é que alguém algum dia vai detectar e entender o problema. Se é que o problema poderá vir a ser solucionado. Se é que o problema ao menos exista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, e ele gosta muito de livros. Vinha, uma vez por semana, emprestar algum livro do meu irmão – a quem chamava também de senhor. Na semana seguinte, devolvia o já lido e perguntava se havia algo de novo que ele pudesse levar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a semana, liguei para minha mãe apenas para saber do garoto. Ele tinha tido alta, os pais já estavam procurando a ajuda de um psicólogo ou psiquiatra. Minha mãe contou que havia se encontrado com o avô dele no dia anterior. O homem estava invadido pela dor e pela insegurança; é seu único neto. “Ninguém entendeu ainda o que aconteceu”, disse o homem. “Ele fez uma festa de aniversário para comemorar os 16 anos e, dois dias depois, isso. Agora nós temos tanto medo, a gente vai ter medo para sempre porque a gente nunca mais vai saber o que fazer”, completou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gente nunca mais vai saber o que fazer....&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-7875024283274364236?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/7875024283274364236/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=7875024283274364236&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7875024283274364236'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7875024283274364236'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/09/aconteceu-na-casa-ao-lado.html' title='Aconteceu na casa ao lado'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-1489105527477961951</id><published>2009-09-04T19:55:00.003-03:00</published><updated>2009-09-05T13:32:12.122-03:00</updated><title type='text'>Isso não pode, filhinha. Mas eu queroooooooooooooooo</title><content type='html'>Todo mundo já deve ter se deparado com uma criança voluntariosa que faz questão de ter absolutamente tudo. Talvez nós tenhamos sido uma criança assim, talvez tenhamos abrigado uma criança assim em nossa família, talvez uma criança assim tenha crescido muito perto de nós, sem conhecer limite algum, incansável em sua meta de obter aquilo que ela julga essencial para satisfazer o seu desejo. Ainda que o objeto deste desejo não tenha importância alguma, a tal criança  briga pela posse, esperneia no supermercado, faz escândalo na loja, empaca na rua como se fosse um pequeno animal teimoso. Por mais que os pais tentem explicar que para tudo nesta vida existem certos limites, que a satisfação do desejo infantil, ainda que legítimo, deve obedecer a algum padrão, ou ético ou econômico ou utilitário, a criança não ouve. Ela quer porque quer, simplesmente assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada pode obstruir o caminho entre ela, a criança, e o objeto do seu desejo. Se ela não consegue pelas vias normais do pedido ou da necessidade, então ela grita, então ela berra, então ela adoece, então ela chantageia, então ela faz conchavos inacreditáveis para a pureza de uma alma infantil, então ela implora para os tios, então ele roga para os avós, então ela joga os pais contra tios e avós, então ela se alia ao irmãozinho de quem sempre manteve distância, então ela quebra o cofrinho das moedas, então ela falta na escola, então ela vomita, então ela pisa no rabo do gato e dá vassouradas no cachorro, então ela se torna impossível. Aí, após desafiar todos os conceitos da integridade, é possível que ela consiga o que tanto queria. É possível que os pais, por fim incapazes de controlar aquele pequeno furacão que um dia eles geraram, joguem a toalha; a criança, vitoriosa, do alto de sua caminha poderá então ver o mundo de cima, como sempre quis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez Dilma Rousseff tenha sido uma criança assim. Ao ver hoje, na Folha de S. Paulo, a foto da ministra de mãos dadas com o apóstolo Estevam e a bispa Sônia, que até ontem mesmo estavam presos nos Estados Unidos, acusados de tentar entrar no país com uma bolada de dólares escondidos na bíblia e no corpo do netinho, eu fiquei com ainda mais medo do tamanho da ambição desta mulher. Como a criança imaginária dos dois parágrafos anteriores, ela não conhece obstáculo capaz de afastá-la da cadeira que hoje é de Lula. O problema, nesta história toda, é que Dilma já é bem crescidinha e, pelo visto, não existe mais ninguém por perto para lhe dizer: que coisa feia, senhorita, isso não se faz porque não é certo e o papai não gosta. No caso de Dilma, o “papai” gosta e faz coisa ainda pior.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-1489105527477961951?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/1489105527477961951/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=1489105527477961951&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/1489105527477961951'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/1489105527477961951'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/09/isso-nao-pode-filhinha-mas-eu.html' title='Isso não pode, filhinha. Mas eu queroooooooooooooooo'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-8964437239911572087</id><published>2009-09-01T20:12:00.001-03:00</published><updated>2009-09-02T01:41:38.449-03:00</updated><title type='text'>Twitter</title><content type='html'>Adoro o Twitter. Estou viciado no Twitter. Não por que esta nova ferramenta da Internet contribua de forma valiosa para aprimorar a nossa cultura geral – creio que 90% do que escrevemos ali poderiam ir diretamente para o grande lixo do cosmos sem prejuízo algum para a humanidade. Eu adoro o Twitter porque ele me proporciona os mais singelos momentos de prazer que eu já experimentei desde o advento da Internet: bloquear alguém é quase tão gostoso quanto desligar o rádio quando a Ana Carolina ou a Zélia Duncan começam a cantar. O problema é que se trata de um prazer tão legítimo que vicia. Se eu passar um dia inteiro sem bloquear alguém no Twitter, começo a suar frio, a boca seca, a pressão cai e sou acometido por náuseas incontroláveis. Então, tenho de parar o que estou fazendo e correr ao Twitter para bloquear alguém que tenha postado, por exemplo, que naquele dia a mãe faz aniversário. Bloquear este usuário deve ser tão gostoso quanto o cigarro depois do cafezinho – no mundo em que ainda era possível fumar, é claro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devo contar para vocês em que circunstâncias o vício me dominou. Eu passei a fazer parte do Twitter depois que minha amiga Bárbara Oliveira, jornalista da área de informática, me apresentou a esta ferramenta. Eu não tinha a mínima ideia de como o Twitter funcionava e a que ele se prestava, mas fiz minha inscrição. No final daquele dia, eu já tinha cinco seguidores. Achei um luxo. Duvido que a bispa Sônia tenha convencido cinco evangélicos a segui-la logo em seu primeiro dia. A Bárbara então me explicou que, para que meu número de seguidores aumentasse (como se isso tivesse algum valor na vida da gente!), eu deveria começar a seguir muitas pessoas. Foi o que eu fiz. Passei uma tarde fuçando nas páginas dos meus amigos em busca de gente bacana para seguir. Eu não sabia que, naquele momento, estava abrindo minha casa para o inimigo. Em poucos minutos os comediantes do CQC começaram a dominar meu computador com informações tão úteis como a relação das cidade em que eles estavam levando seus shows de stand-up comedy à cor da camisa do motorista de táxi que os havia apanhado no aeroporto. Então pensei: mas é para isso que serve o Twitter?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vindo em meu socorro, um amigo me explicou que era possível me livrar para sempre desta legião de chatos: bastaria que eu os bloqueasse. Senti um misto de alívio e culpa. Bloquear um usuário, naquele momento, me parecia tão deselegante quanto convidar alguém a se retirar da sua casa. Então resolvi fazer um teste: bloqueei o mais chato entre todos os apresentadores do CQC (escolha difícil). Depois de despachá-lo para o cemitério dos exibidos, voltei para minha página do Twitter e senti então um gozo indescritível: não é que suas mensagens nunca mais iriam aborrecer o meu dia, muito melhor que isso – tudo que ele havia escrito tinha miraculosamente sumido da minha tela. Foi uma sensação tão boa que resolvi dar um segundo gole nesta cachaça – e mandei outro comediante sem graça do CQC fazer companhia ao seu chefe. E depois eu mandei um terceiro, um quarto até que, quando vi, não restava mais nenhum deles na minha grade de programação caseira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então me vi diante de um dilema. Bloquear desconhecidos chatos é fácil e indolor. Mas como reagir diante da possibilidade de fazer o mesmo com alguém que você conhece, que sabe o número do seu telefone e freqüenta sua casa? Passei dias batendo a cabeça pelas paredes, como um noia em processo de abstinência. Então um outro amigo me socorreu. Eram 16h quando ele escreveu assim no Twitter: “Hum, são 16 horas e estou com uma fominha....Agora são 16h10 e acho que vou fazer uma comidinha. Que delícia esta comidinha que estou comendo às 16h30. Puxa, são 16h40 e minha fominha passou. Acho que vou tirar um soninho”. Mal sabia ele, coitado, que no meu Twitter ele acabava de ingressar no sono eterno. Ele foi embora mais silenciosamente do que nasceu. E então comecei a dar o mesmo destino aos que dizem que vão cortar a unha, aos que vão levar o gato tomar banho no veterinário, aos que vão abrir a geladeira para tomar um todinho, aos que só sabem fazer auto-promoção e, principalmente, aos que postam mais de dez comentários por dia – um mais irrelevante que o outro. Bloquear estas pessoas é como eletrocutar mosquitos naquelas raquetes elétricas.Tshhhhhhhhhhhh – e lá se foi mais um chato, sem deixar rastros de fumaça. Como o Twitter é higiênico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que este pode parecer um post antipático, paciência. E sei, também, que eliminar os chatos do mundo virtual serve apenas como paliativo para quem não consegue apagar as chatices do mundo real. Mas o que seria de nós sem os paliativos? Acima de tudo sei que, ao ler este post, é bem provável que alguns dos meus seguidores corram ao Twitter para me deletar. A eles, gostaria de dar o seguinte recado: se, ao ser deletado eu puder fornecer a vocês o mesmo prazer que eu sinto quando deleto outros chatos, meu dia já terá valido a pena. Fiquem à vontade e vejam o quanto é bom!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-8964437239911572087?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/8964437239911572087/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=8964437239911572087&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8964437239911572087'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8964437239911572087'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/09/twitter.html' title='Twitter'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-9181469820350175916</id><published>2009-08-26T20:02:00.000-03:00</published><updated>2009-08-26T20:03:27.218-03:00</updated><title type='text'>Pas-de-deux</title><content type='html'>Hoje eu me lembrei de uma história antiga e senti vontade de compartilhar com vocês. Um dia, quando eu estava no Exército (um aviso aos incrédulos: eu sou cabo do Exército Brasileiro, tá?), chegou a notícia de que receberíamos a visita de um general quatro-estrelas. Para quem nunca pisou num quartel, talvez isso queira dizer pouca coisa. Mas a aparição de um general quatro-estrelas a uma unidade do interior, em que a autoridade máxima era representada por um capitão, deve ser algo equivalente a um evangélico depositar seu dízimo nas mãos do próprio Edir Macedo: uma concessão de deus na terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que só a notícia de uma guerra contra os Estados Unidos deixaria os oficiais mais nervosos do que esta visita do general, marcada para a semana seguinte. Começou um tal de cortar a grama, pintar as paredes, lustrar os fuzis e pistolas, dar brilho nos coturnos, ensaiar o Hino Nacional e a Canção do Exército e raspar ainda mais os cabelos que qualquer um que visse aquela loucura toda poderia jurar que se tratava de algum teste para um novo musical do Jorge Takla. Tínhamos de estar lindos, limpos, afinados e muito, acima de tudo bem preparados fisicamente, pois era bem provável que o general quisesse assistir a uma sessão de educação física.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, dois dias antes da chegada do general, o tenente encarregado do nosso condicionamento resolveu incrementar as sessões de educação física com uma série de movimentos até então inéditos para nós. Eu não sabia que, justo naquela tarde, aprenderíamos uma nova coreografia para encantar os olhos do general. Como eu estava com dor de garganta, resolvi dar um balão: me escondi em um dos banheiros do quartel e passei uma hora lá, imóvel e silencioso, enquanto meus companheiros decoravam os novos passinhos. Quando a sessão de ginástica terminou, saí do banheiro com os trajes da educação física e me misturei rapidamente à tropa, como se tivesse feito parte da aula. Um soldado descobriu meu truque e vaticinou: “ Roveri, você tá fodido. A educação física agora é todinha diferente e você não aprendeu.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tarde seguinte, último ensaio antes da chegada do quatro-estrelas. Eram 142 soldados na quadra, calções azuis, camisetas brancas e tênis preto sem meias, esperando pelo comando do tenente. A cada apito do homem, a tropa executava um determinado movimento ensaiado na tarde anterior. E eu errei absolutamente tudo. 141 soldados olhavam para a direita e eu para a esquerda; 141 soldados caíam de bruços para a flexão de braço e eu pulava no polichinelo... Ao ver o meu estranho deslocamento no meio daquele batalhão tão bem ensaiadinho, o tenente parou a sessão, subiu numa arquibancada e gritou: “Soldado Roveri, você não é uma bailarina!”&lt;br /&gt;Silêncio na tropa; as gargalhadas são tão proibidas na caserna quanto a admiração pelo comunismo. A muito custo, consegui terminar a sessão e corri envergonhado para o alojamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto eu pegava a toalha para ir ao banho, um grupo de dez soldados se aproximou de mim, comandado pelo recruta Fagundes, número 411 (eu era número 312). Fagundes me encarou seriamente, colocou a mão no meu ombro e disse: “Roveri, eu fui escolhido como representante do batalhão. Eles pediram para que eu desse um recado a você”. Fiquei mudo, porque nunca tinha visto nada parecido no quartel. Imaginei que ele fosse me dizer que eu tinha ferrado toda a sessão de educação física e levaria um gelo dos colegas por isso. Mas ele queria me dizer algo bem diferente. Eis aqui o que era: “Soldado Roveri”, continuou formalmente o amigo Fagundes, “o tenente não sabe reconhecer um talento e você não deve dar bola para o que ele disse. Para todos nós deste quartel, você é sim uma grande bailarina”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-9181469820350175916?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/9181469820350175916/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=9181469820350175916&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/9181469820350175916'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/9181469820350175916'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/08/pas-de-deux.html' title='Pas-de-deux'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-3712944980461117578</id><published>2009-08-26T00:25:00.003-03:00</published><updated>2009-08-26T00:44:39.806-03:00</updated><title type='text'>Fofoqueiro</title><content type='html'>Hoje eu almocei sozinho em um restaurante aqui perto de casa. Almoçar sozinho não está entre meus programas prediletos, mas é nestas ocasiões que costumo praticar um pecado indefensável: prestar atenção na conversa alheia. Com o tempo, a gente desenvolve alguns métodos muito sutis de exercitar esta completa falta de educação. O mais eficaz deles também é o mais simples. Ele consiste em jamais olhar na direção de onde vem a conversa. Quem já parou um minuto para observar gatos e cachorros, sabe do que estou falando. Eles giram a orelha na direção de onde está vindo o som, sem mover a cabeça. É uma maneira muito elegante de ser indiscreto e curioso. Não sei mexer a orelha como os cães e gatos, mas com o tempo a gente aprende a apurar a audição e ouvir somente aquilo em que está interessado. &lt;br /&gt;Bom, depois desta introdução desnecessária, reproduzo aqui o diálogo que ouvi enquanto comia meu estrogonofe com arroz e salada de alface. Dois caras estavam sentados em uma mesa atrás da minha. Deviam ser músicos, porque só falavam sobre gravadoras, selos e instrumentos. Acredito que não eram músicos muito produtivos, pois fazia cinco anos que não gravavam nada. Nisso entrou no restaurante um amigo deles, mais sóbrio, de terno e gravata escuros, que veio animado até a mesa para cumprimentá-los. &lt;br /&gt;- Pô, que coincidência encontrar vocês aqui - disse o recém-chegado enquanto abraçava um dos caras que havia se levantado para recepcioná-lo. - E aí, alguma novidade?&lt;br /&gt;- Sim - respondeu o rapaz que se levantou. - Eu estou envolvido num projeto super bacana. Mas não vou contar para você porque não quero que se espalhe.&lt;br /&gt;O cara ficou meio sem graça, perguntou como ia o casamento do amigo e depois correu para procurar uma mesa bem longe deles. E os outros dois continuaram alegremente sua conversa sobre batidas, percussão e a dureza do mercado fonográfico.&lt;br /&gt;Almoçar sozinho é chato, mas às vezes a gente volta pra casa com uma pérola no bolso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-3712944980461117578?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/3712944980461117578/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=3712944980461117578&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/3712944980461117578'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/3712944980461117578'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/08/fofoqueiro.html' title='Fofoqueiro'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-2997015187840336156</id><published>2009-08-20T19:03:00.004-03:00</published><updated>2009-08-20T19:15:07.731-03:00</updated><title type='text'>Marina Morena você se candidatou...</title><content type='html'>Hoje eu li na Folha que a Ivete Sangalo foi cantar na entrega do Prêmio Multishow de Música e mobilizou toda a quantidade de álcool disponível no Rio de Janeiro. A produção teve de passar álcool no microfone, nos corredores, nas maçanetas, nos interruptores, nas torneiras, no palco, nos fones de ouvido e desconfio que até em quem tentou chegar perto dela. Tudo por que ela, grávida de sete meses, queria ficar longe do risco de contrair gripe suína. Então eu pergunto: não era mais fácil e mais seguro ficar em casa? Mas quando a gente fica em casa não vira notícia, né? Então vamos comprar muito álcool e cair na vida....&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A única alegria que o mundo político nos deu ontem foram as declarações da senadora Marina Silva. Falta ainda muito tempo para a eleição presidencial. Mas eu já tenho candidato. Sim, ela mesma: a acreana Marina, a dona de um dos discursos mais lúcidos, inteligentes e acima de tudo humanos que eu tenho ouvido nos últimos tempos. Tão diferente do discurso daquela outra mulher que também se diz candidata e que eu nem quero dizer o nome dela aqui, porque eu gosto muito do meu bloguezinho e tenho o maior cuidado com as pessoas que eu resolvo citar.Para aquela mulher, eu só desejo que ela fique bem de saúde e possa curtir dias ensolarados em São Luiz do Maranhão, em companhia do José Sarney, a quem ela parece se identificar e defender com unhas e dentes - bem ao gosto do seu patrão barbudinho. Quanto a este, além de preferir não dizer seu nome pelos próximos dias, eu gostaria mesmo de esquecer que passei 20 anos da minha vida, religiosamente, digitando o número 13 na urna eletrônica sempre que sua cara aparecia na telinha. Hoje, quando sua cara agora antipática aparece na telinha, em qualquer telinha, eu mudo de canal. Ou saio correndo. Nem mais como piada ele serve. Que vá embora logo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-2997015187840336156?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/2997015187840336156/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=2997015187840336156&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2997015187840336156'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2997015187840336156'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/08/marina-morena-voce-se-candidatou.html' title='Marina Morena você se candidatou...'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-1068580909084414395</id><published>2009-08-15T17:29:00.000-03:00</published><updated>2009-08-15T17:30:28.426-03:00</updated><title type='text'>Bate e volta</title><content type='html'>Durante todos estes anos como jornalista, tive a chance – ou seria melhor dizer a sorte? – de entrevistar pessoas muito interessantes. Algumas delas, inesquecíveis. E o interesse, neste caso, não tem a ver necessariamente com fama. Eu me recordo de entrevistados marcantes que eram pessoas comuns, gente anônima que, por necessidade da pauta, se prestava como personagens para as matérias. Um destes personagens foi um senhor que jogava vôlei na unidade do Sesc Pompeia. Era uma matéria sobre atividades físicas na terceira idade. Fui até a quadra, vi o finalzinho do jogo e escolhi aquele senhor ao acaso. Como Sartre dizia: a última palavra é sempre do acaso.&lt;br /&gt;Resumidamente, a história do homem era a seguinte: ele estudava num seminário e estava prestes a ser ordenado padre quando viu um padre idoso e doente desesperado diante da proximidade da morte. O velho padre, ele me contou, se agarrava à cama de maneira quase histérica, gemendo que não queria morrer de jeito nenhum. Então ele, o entrevistado, perguntou ao enfermo: “Mas padre, pense que o senhor está indo ao encontro de Jesus. O senhor nos ensinou a esperar a vida inteira por este momento e agora, quando este momento chega para o senhor, o senhor fica assim, tão apavorado?” E o velho padre então lhe respondeu: “Você acha que em algum momento eu acreditei nestas coisas que eu ensinava a vocês? Você acha que eu acredito que vai ter um Deus me esperando? Não vai ter nada. Acaba tudo aqui”.&lt;br /&gt;No dia seguinte, meu entrevistado fez as malas e abandonou não apenas o seminário, mas também o catolicismo. Ele me contou muito mais de sua vida, a profissão de farmacêutico que ele escolheria depois, uma viagem à Patagônia e uma tragédia familiar que o mergulhou numa tristeza durante anos. Escrevi com detalhes a vida deste homem naquela reportagem. Lá se vão mais de dez anos, mas não me esqueço de nenhum episódio que ele relatou&lt;br /&gt;Nos últimos tempos, voltei a me lembrar também de uma entrevista que fiz com a atriz Julia Lemmertz. Era uma tarde fria de domingo e a assessoria da atriz marcou o nosso encontro no café do Centro Cultural do Banco do Brasil, onde ela estrearia, nos próximos dias, a peça Molly Sweeney – Rastro de Luz. Ela chegou no horário combinado e, antes de eu começar as perguntas, perguntou se eu me importaria se ela tomasse um chimarrão durante o nosso papo. E no mesmo instante começou a preparar aquela mistura de erva com água fervente que eu nunca consegui fazer em casa. Ofereceu-me o chimarrão de sua própria cuia – o que, vim a saber depois, é prova de amizade e confiança entre os gaúchos. Pergunta vem, pergunta vai e ela sempre respondendo a todas com muita convicção e simpatia. Até que, assim do nada, ela me perguntou por que as pessoas insistiam nos erros. Devo ter ficado calado diante da súbita mudança nos papéis: de entrevistada, ela havia se transformado em entrevistadora. Vendo o meu silêncio, ela expôs seu raciocínio. No seu íntimo, ela me disse, as pessoas sabem quando estão errando. Sabem que aquilo que elas estão fazendo não está correto e não vai terminar bem. Elas sabem que estão construindo sua própria infelicidade. E, no entanto, não são capazes de parar. Continuam insistindo no erro até quebrar a cara e o coração de forma irreparável. E o mais estranho nisso, ela prosseguiu, é que elas sabiam desde o início que este seria o fim. Podiam ter interrompido este curso, podiam ter mudado esta rota, mas nada fizeram para evitar a tragédia. Ao contrário, elas provocaram a tragédia. Por que nós somos assim, ela voltou a me perguntar.&lt;br /&gt;Dali a pouco a entrevista terminou e eu voltei para casa pensando se ela estaria se referindo à peça. Fui à estreia e vi que não. A peça era linda e Julia Lemmertz estava comovente no papel da mulher cega que um dia, ao recuperar a visão, perde o controle que tinha quando seu mundo era totalmente escuro. Acho que até hoje não sei direito ao que ela se referia – talvez eu devesse ter perguntado, mas senti que não era o momento de perguntar nada naquela hora.&lt;br /&gt;Hoje eu acho que as pessoas falam daquilo que elas entendem e também daquilo que não entendem e gostariam de entender. E é nos momentos em que falamos com perplexidade daquilo que não entendemos, que nos tornamos mais compreendidos. Vai ver que é isso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-1068580909084414395?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/1068580909084414395/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=1068580909084414395&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/1068580909084414395'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/1068580909084414395'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/08/bate-e-volta.html' title='Bate e volta'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-6374380766382502137</id><published>2009-08-14T18:08:00.001-03:00</published><updated>2009-08-14T18:09:51.172-03:00</updated><title type='text'>Procura-se</title><content type='html'>Atores de São Paulo que não estejam em cartaz em alguma stand-up comedy.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-6374380766382502137?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/6374380766382502137/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=6374380766382502137&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6374380766382502137'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6374380766382502137'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/08/procura-se.html' title='Procura-se'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-8265081635035320974</id><published>2009-08-06T13:26:00.002-03:00</published><updated>2009-08-10T00:59:22.247-03:00</updated><title type='text'>Sobre cigarros, críticos e Caetano Veloso</title><content type='html'>PRIMEIRA BAFORADA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vésperas da entrada em vigor da lei antifumo, fui até a padaria e comprei um maço de Marlboro  para os meus amigos. Não se trata de um protesto pessoal contra a lei, não. Acho a lei até muito bacana e pertinente. É apenas um mimo para os meus amigos, uma forma de dizer que na minha casa nada mudou. Os amigos que fumam continuarão sendo muito benvindos aqui em casa, onde terão sempre à disposição o cigarro, o isqueiro, um cinzeiro muito legal, presente de um amigo fumante, e cerveja gelada. Por aqui, nada mudou.&lt;br /&gt;Confesso que fumaça de cigarro em lugares mais ou menos arejados é algo que nunca me incomodou. De verdade. Sei que podem dizer que se eu estou a fim de jogar meus pulmões no lixo isso é problema meu. Bom, na verdade é problema meu mesmo. O que eu quero dizer é que o cigarro nunca foi motivo para que eu me afastasse ou discriminasse alguém. Nunca fumei um único cigarro na vida e sei o quanto eles incomodam. Não costumo mais freqüentar casa noturna, em parte pela minha falta de paciência mesmo, mas em grande parte por causa da fumaça dos cigarros. Nestes ambientes, eles são abomináveis. Na última vez em que fui à Lôca, por exemplo, saí de lá depois de 15 minutos, com os olhos ardendo e dor de cabeça. Não devo voltar tão cedo. Porque se existe algo que parece não funcionar na Lôca é a obediência a qualquer norma.&lt;br /&gt;Mas se alguém pede para fumar na minha casa, com as janelas abertas, ou no meu carro, também com os vidros abertos, jamais ouvirá um não de mim. Acho que a sociedade já anda repressora demais para que eu passe a engrossar este coro. Tudo bem que fumar ao lado de quem está comendo não é nada educado, e muito menos saudável. Mas meus amigos fumantes sabem disso e só acendem seus cigarros aqui em casa quando o rango – isso nos dias em que há rango – já terminou. O prazer deles de empunhar um cigarrinho numa mão e uma cervejinha ou um copo de uísque na outra me parece ser tão grande que eu jamais cortaria o barato deles. Eles são grandinhos, inteligentes e devem saber que fumar faz um mal do caralho. E eu não preciso lembrá-los disso, não aqui em casa, pelo menos.&lt;br /&gt;E tem mais: podem me chamar de fresco, metido, babaca ou qualquer outra coisa parecida: mas entre jantar ao lado de alguém que fume e alguém que palita os dentes na minha frente, eu estou com o fumante e não abro. Cigarro pode matar, mas tem um charme danado. Os palitos não matam, mas viram o estômago de qualquer um.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FALEM BEM MAS FALEM DE MIM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu gostava mais dos tempos em que os críticos guardavam uma distância prudente dos artistas a quem deveriam criticar – ainda que houvesse fortes laços de amizade ligando os dois lados. Aprendi, ao lado de alguns grandes críticos que (infelizmente para a grande imprensa)  foram ser mais felizes em outras áreas que esta distância, ainda que não obrigatória, se fazia necessária ao exercício da profissão. Era como se, ao se afastar do convívio diário e direto com os atores, o crítico também promovesse um distanciamento quase científico da obra a ser criticada. O resultado era um só: as críticas costumavam ser muito melhores do que são hoje. Hoje, se você quiser encontrar um crítico, basta  ir até qualquer festa de atores. Eles estarão lá, felizes como se fossem um deles, integrados, extremamente benvindos e estranhamente cúmplices e participantes. No dia seguinte saberão retribuir tanta hospitalidade em seus espaços nos jornais e revistas. Antes havia crítica, hoje existe uma animada ação entre amigos. Quer que seu espetáculo seja bem falado? Não precisa caprichar no texto e na direção: basta começar a freqüentar festinhas. De um dia para outro, você será o maior sucesso da temporada. Só morro de pena do público, que além de não ser convidado para as festinhas, vai cair no conto do vigário na hora de deixar seu suado dinheirinho na bilheteria daquela peça, show ou filme tão bem recomendados. Mas, sejamos sinceros: quem liga para o público hoje em dia, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LEÃOZÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui ver ontem o documentário Coração Vagabundo, realizado durante algumas apresentações de Caetano Veloso em São Paulo, Nova York e no Japão. Saí muito mais emocionado do que imaginava. Uso a palavra emocionado e não surpreso porque, no caso de Caetano Veloso, não são exatamente surpresas o que ele nos reserva. Sabemos que de Caetano podemos esperar sempre por três coisas: belíssimas letras (em alguns casos precisaremos de muitos anos para entender a beleza contida ali), interpretações originais nas quais a personalidade exuberante do artista sempre é capaz de corrigir eventuais deficiências na voz ou no domínio do violão, e um gosto irrefreável pela polêmica, ainda que nem sempre a de alto nível. Dizer que o documentário traduz Caetano Veloso não seria correto, porque não é isso que ocorre. Coração Vagabundo mostra um artista afinado na profissão e no pensamento. E há uma coerência tão grande ao longo dos 90 minutos, uma unidade tão arrebatadora que talvez tenha sido até acidental: o que vemos de Caetano é sempre seu olhar estrangeiro diante de um mundo tão vasto de possibilidades. Caetano é um músico que conquistou o mundo, não há dúvidas: mas ele continua a ver este mundo com os olhos de um garoto que nasceu e viveu até os 18 anos em uma cidade pequena do interior baiano. Excluindo qualquer possibilidade pretensiosa de comparação, quem nasceu no interior deve saber do que estou falando. Os olhos dele trazem a curiosidade e o estranhamento que o sucesso e a idade não apagaram. E só isso já vale qualquer ingresso. Se alguém pretende ver o documentário, por favor, preste atenção em dois momentos: sua fala final sobre a velhice e seu desconforto diante de um doce japonês oferecido a ele em um templo budista. Ali não é o artista, não é o músico, não é o cara polêmico e nem o ególatra: é só um ser humano, a quem os anos já deixaram claro o sinal de sua visita,  diante das mesmas dúvidas que machucam o meu coração, o seu, o nosso e o da humanidade inteira. E de vagabundo, estes corações não têm nada. Eles dão um duro danado para entender esta vida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-8265081635035320974?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/8265081635035320974/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=8265081635035320974&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8265081635035320974'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8265081635035320974'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/08/sobre-cigarros-criticos-e-caetano-velo.html' title='Sobre cigarros, críticos e Caetano Veloso'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-2873359378731265141</id><published>2009-07-29T19:07:00.000-03:00</published><updated>2009-07-29T19:08:34.902-03:00</updated><title type='text'>O botox do mendigo</title><content type='html'>Numa dessas tardes de chuva – poderia ser qualquer tarde, já que a chuva não dá trégua – eu estava esperando um táxi na Rua Bela Cintra, perto da Consolação, quando me lembrei de um fato que ocorreu ali, na mesma esquina, há alguns anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na ocasião, eu também estava tentando pegar um táxi, muito atrasado para um compromisso no centro, mas era uma dessas tardes quentes e abafadas, dessas que fazem a nossa irritação aumentar muito. Quando vejo, um morador de rua está se aproximando de mim. Antes que ele me dissesse qualquer coisa, eu já me antecipei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Hoje eu não tenho nada, estou sem troco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele endureceu a expressão, me mediu de alto a baixo e retrucou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu pedi alguma coisa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei sem jeito e me desculpei, dizendo que imaginei que ele fosse me pedir algum trocado. Ele me respondeu que não iria pedir nada, que tinha atravessado a rua apenas para me dizer que eu não deveria andar com a cara tão amarrada. Que aquela expressão sisuda (ele deve ter usado outro termo) me envelhecia muito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Posso chutar quantos anos o senhor tem? – ele me perguntou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disse que poderia. Ele chutou e acertou em cheio. O que é raro, porque – ainda bem – as pessoas costumam me dar um pouquinho menos de idade. Por enquanto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas com esta cara que o senhor estava fazendo, qualquer um daria pelo menos dez anos a mais pro senhor. O senhor precisa relaxar um pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante esta breve conversa, vários táxis passaram, vazios, mas eu estava interessado em ouvir o que mais aquele homem descalço e com o corpo envolto por um cobertor vermelho e surrado tinha a me dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu sou dez anos mais jovem que o senhor – ele me disse. – Mas olhe para mim. Todo mundo vai dizer que eu pareço mais velho. E eu pareço mesmo bem mais velho que o senhor. Eu não tenho dentes, não me cuido e vivo bêbado o dia inteiro. Eu posso parecer mais velho, no meu caso já está tudo perdido mesmo. Mas o senhor não precisa parecer mais velho. O senhor pode mudar esta cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei um tempo em silêncio, olhando para ele e procurando que palavras usar para dizer o quanto ele estava certo. Tristemente certo. Mas não precisei pensar muito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bom, naquela hora eu não pedi, mas agora eu peço – ele falou. O senhor tem um real aí pra me arranjar? E vou gastar com pinga, sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abri a carteira e dei bem mais do que ele me pediu. “Nossa, hoje eu vou tomar vodca”, ele falou. Entrei no táxi e fui feliz para o meu compromisso, enquanto sua imagem se perdia no retrovisor, no meio de gente tão apressada e carrancuda como eu estava até cinco minutos atrás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela tarde, ele merecia um brinde. E eu também.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-2873359378731265141?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/2873359378731265141/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=2873359378731265141&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2873359378731265141'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2873359378731265141'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/07/o-botox-do-mendigo.html' title='O botox do mendigo'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-5409114675704911346</id><published>2009-07-26T19:10:00.000-03:00</published><updated>2009-07-26T19:12:18.867-03:00</updated><title type='text'>Três coisinhas</title><content type='html'>Item 1.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por absoluta falta de espaço, a revista Serafina deste domingo, dia 26, não pôde publicar uma frase que eu julgava essencial na matéria de capa sobre o Antunes Filho. Sei que este blog é infinitamente menos lido que a revista, mesmo assim, queria compartilhar a frase com vocês. Principalmente com os amigos do teatro. Ao ser perguntado sobre como ele via a crítica atualmente, Antunes disse o seguinte:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A pior coisa que existe é a crítica amiga. Se um ator não está bem em determinado trabalho e o crítico amigo diz que ele está, o crítico está jogando este amigo no abismo. Por isso, eu peço encarecidamente aos críticos: deem uma chance aos seus amigos. Parem de falar bem deles”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Item 2.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No sábado, tentei ver o filme Inimigos Públicos, do diretor Michael Mann, em que Johnny Depp interpreta um lendário ladrão de bancos. Não consegui, estava tudo lotado. Então resolvi ver Lóki, o tocante documentário sobre a trajetória do ex-mutante Arnaldo Baptista. E saí de Lóki com a mesma sensação que tive ao ver Ninguém Sabe o Duro que eu Dei, sobre a vida conturbada de Wilson Simonal. Os dois documentários foram feitos, obviamente, mais sob o olhar da admiração. Mas o que me incomodou nos dois casos não foi isso. Saí incomodado com todos os depoimentos que colocaram tanto Simonal quanto Baptista nas nuvens, com todas aquelas frases de efeito que procuravam ressaltar o tamanho do talento, a genialidade às vezes incompreendida e depois o ostracismo dos dois músicos que, coincidentemente, passaram mais de duas décadas esquecidos dos amigos, do público e das gravadoras. Então eu faço aqui a pergunta que os documentários não fizeram: onde estavam, durante aqueles vinte anos, todas estas pessoas que agora correm diante das câmeras para falar bem dos seus queridos amigos injustiçados. Pode parecer estranho, mas a sensação que fica é que ninguém que agora corre para exaltar o Simonal e o Arnaldo Baptista estavam por perto quando eles realmente precisaram. Depois, diante das câmeras, é fácil elogiar, né? Segurar o ombro do amigo nas horas difíceis é que não tem glamour nenhum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Item 3.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que a gente observa bem os amigos. E, por mais queridos que eles sejam, não são todas as atitudes e comportamentos deles que a gente aprova – o que é muito saudável. Imagine que chatice seria se os nossos amigos fossem absolutamente perfeitos aos nossos olhos e se nós também parecêssemos perfeitos aos olhos deles. Ninguém aprenderia nada nunca – tudo já estaria pronto e seria um tédio só. O que me deixa um pouquinho preocupado às vezes é que eu acho que vira e mexe eu reproduzo tudo aquilo que me incomoda e chateia nos amigos. Ou seja: eu me vejo fazendo com o amigo “x” tudo aquilo que o amigo “y” fez comigo e eu não curti muito. Será que a gente não consegue reproduzir só aquilo que a gente gosta? Tem de imitar também o que é chato? Ô, saco.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-5409114675704911346?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/5409114675704911346/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=5409114675704911346&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/5409114675704911346'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/5409114675704911346'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/07/tres-coisinhas.html' title='Três coisinhas'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-3714265118068572913</id><published>2009-07-22T13:22:00.000-03:00</published><updated>2009-07-22T13:23:01.128-03:00</updated><title type='text'>Rachaduras</title><content type='html'>Eu admiro as pessoas fortes e decididas, aquelas que diante dos desafios tomam rapidamente a decisão que lhes parece a mais acertada e depois seguem resolutas por este caminho, aparentemente sem pensar em como teriam sido todos os outros. Eu gosto dos desafios e também clamo por eles – mas, quando eles finalmente surgem à minha frente, tenho vontade de me enfiar debaixo dos cobertores e pedir para que alguém de confiança decida por mim. E que só me chame quando tudo estiver definido. De preferência, da maneira mais prazerosa possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, há muito tempo, uma astróloga (que era também médica homeopata formada por uma faculdade conceituadíssima) me revelou que eu não tenho quase nada do elemento água no meu mapa astral. Segundo ela, minha carta astral é uma imagem tão ressequida quanto a superfície da Lua. Daí minha dificuldade em me renovar, em “me limpar” – usando as palavras delas – em lavar as mágoas passadas e seguir renovado rumo ao futuro. Eu sei que, nestes assuntos, a gente só acredita naquilo que é interessante. Mas infelizmente eu acredito nisso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Não sei se por ausência de água ou excesso de sapatos empoeirados, o certo é que as mudanças me amedrontam, ainda que elas venham para por fim a uma situação da qual eu já andava exaurido. Talvez seja masoquismo pensar que o estresse conhecido seja preferível ao desafio do acaso, mas às vezes é assim que eu penso. Um dos personagens da peça A Noite do Aquário, que escrevi há três anos, diz mais ou menos o seguinte: “Se nós não vamos mudar mesmo, por que sair daqui? Dá menos trabalho”. Não que eu concorde com ele, mas é assim que eu ajo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste exato momento estou sendo chamado a tomar uma série de decisões, a assumir uma série de novos desafios. São coisas pelas quais eu ansiei durante muito tempo – e pelas quais trabalhei às vezes arduamente. E então elas chegam e me dão medo. Elas chegam e, no meu íntimo, algo me diz que, no fundo, talvez eu não esperasse realmente pela chegada delas. E sinto vontade de me enfiar novamente debaixo dos cobertores e pedir para que me chamem só em novembro ou dezembro, quando tudo deve estar mais ou menos resolvido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Charles Darwin levou uma vida inteira para defender a tese de que nós viemos dos macacos – eu aprecio Darwin desde sempre, mas sinto que no meu caso ele errou. Às vezes eu acho que vim do avestruz – em vez de descer das árvores e criar computadores e sinfonia, acredito que descendo de nobres exemplares que, na hora do vamos ver, enfiavam o pescoço no primeiro buraco que aparecesse. Para variar, num buraco seco, na terra, cada vez mais em direção à aridez, ao desidratado e escuro centro da terra. Longe da água que lava e purifica, longe da água que vai poder apagar até meus erros futuros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será este o meu destino?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-3714265118068572913?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/3714265118068572913/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=3714265118068572913&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/3714265118068572913'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/3714265118068572913'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/07/rachaduras.html' title='Rachaduras'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-365469983271189470</id><published>2009-07-15T13:23:00.001-03:00</published><updated>2009-07-15T13:23:54.561-03:00</updated><title type='text'>A homeopatia da saudade</title><content type='html'>Nós não somos exatamente amigos. Sei que temos um carinho grande um pelo outro, mas não cultivamos a convivência que costuma ser a base das grandes amizades. Nos encontramos, quase sempre por acaso, no cinema, no teatro ou em alguma exposição. Nestas ocasiões, sempre nos cumprimentamos com carinho, perguntamos como anda a vida, nos brindamos com um beijo rápido e então cada um segue à procura do seu assento. Mas há algumas semanas, quando nos vimos pela última vez, foi um pouco diferente. Ela resolveu falar sobre a saudade do companheiro que perdeu no ano passado.  Foi uma conversa que não se estendeu por mais de dez minutos, mas sinto que depois dela talvez nossos encontros nunca mais sejam iguais: não é para todo mundo que revelamos as nossas dores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me disse que estava vivendo o que, em sua logística muito particular, poderia ser definida como a terceira fase do luto – ou da saudade, que embora seja tão dolorida quanto o luto, ao menos é uma palavra mais poética. O primeiro momento da perda, ela me revelou, e vejam só que estranho, foi percebido mais pelo ouvido do que pela alma. De repente, ela me disse, era como se ela estivesse dentro de um túnel, um submarino ou uma câmara onde todos os sons chegavam distorcidos. Era o estranhamento do impacto, aquele momento em que o cérebro recusa-se a processar o que se ouve e por isso mesmo todas as vozes soam estranhas. E ainda que todas elas afirmassem a mesma coisa – ele se foi! – o cérebro distorcia o som, mascarava o significado das palavras, para que a mensagem não fosse compreendida em toda sua tragédia e dimensão. É uma fase que dura muito pouco, segundo ela. Não mais que alguns minutos. Depois disso, você precisa agir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então vem a segunda etapa, em que a dor transmuta-se em algo prático: há muito a ser feito. Pessoas têm de ser avisadas, papéis precisam ser assinados e os olhos devem estar secos para que a vida não se revele embaralhada até nos documentos, os braços devem estar abertos e aptos para as condolências, o juízo deve estar minimamente em ordem, para que as pessoas não pensem que você já enlouqueceu diante da solidão que se revela, talvez um sorriso seja necessário, para deixar claro que a perda  já era esperada e que você estava desde sempre pronta. E, depois do adeus físico, começam as despedidas burocráticas: a conta no banco é fechada, os advogados começam a esmiuçar o espólio, correspondências precisam ser abertas – é um longo ritual em que o nome da pessoa começa a ser apagado de um certo tipo de história oficial.&lt;br /&gt;Quando tudo isso está concluído – e no caso dela foi necessário quase um ano – chega a hora de se haver com a saudade em seu estado bruto. Tudo que precisava ser feito já o foi, agora todo o tempo pode ser consumido em lembranças – ou não. No caso dela, foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então ela percebeu que a saudade é um sentimento que exige atenção e certos rituais. A saudade exige alimento. Uma ração diária não de dor, mas da falta. A saudade se alimenta daquilo que não temos mais para dar. Ouvi, então, a parte mais dolorida do seu breve relato. Ela me disse que começou a buscar nos outros aquilo que havia lhe sido roubado pela morte do companheiro. No olhar dos outros ela buscava o brilho dos olhos do marido que se fora. Ela buscava encontrar o mesmo tipo de humor, a mesma inteligência mordaz, a mesma observação cúmplice que denunciava anos de convivência, o mesmo retorno, o mesmo eco, a mesma comunicação sem palavras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então ela percebeu o quanto isto era cruel, com ela e com os outros. Ninguém conseguiria substituir aquilo que ela havia perdido – e nestas horas ela entendia que o que havia perdido era algo único, que jamais seria encontrado nos que haviam ficado, por mais que ela os amasse. E por mais que fosse amada por eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi neste ponto que nossa conversa terminou. Um pouco porque a peça que iríamos ver estava para começar, um pouco porque as lágrimas começavam a embaçar seus olhos. Desconfio que esta terceira fase da saudade ainda lhe consuma incontáveis dias, embora eu torça pelo contrário. Eu tive vontade de dizer algo inteligente e proveitoso, mas não consegui. Tive vontade, também, de dizer que se houvesse algo que eu pudesse fazer, eu não me furtaria. Mas nós dois, eu e ela, sabíamos que nada pode ser feito nestas horas. Um dia, esta dor e esta falta que ela sente agora vão ser encobertas pela fumaça do tempo. Mas eu sei, e ela também sabe, que muitos dias e noites se passarão, outras pessoas entrarão na vida dela e ela encontrará inúmeros motivos para sorrir, mas seus olhos, talvez contrariando seu desejo, vão continuar perseguindo nos outros o brilho dos olhos do amado que se foi. E não haverá nenhuma morbidez nesta hora: será apenas o amor, revelando mais uma vez que diante dele a morte não passa de uma piada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-365469983271189470?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/365469983271189470/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=365469983271189470&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/365469983271189470'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/365469983271189470'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/07/homeopatia-da-saudade.html' title='A homeopatia da saudade'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-322642519910552322</id><published>2009-07-12T23:12:00.002-03:00</published><updated>2009-07-12T23:15:44.287-03:00</updated><title type='text'>O toque final</title><content type='html'>Na quinta-feira à noite eu acompanhei, pela televisão, ao belíssimo concerto em comemoração aos dez anos da criação da Osesp, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Estava em companhia de José Roberto Jardim, grande ator e amigo maior ainda, que tocou num assunto sobre o qual eu também já havia pensado várias vezes. Ele desejava saber como se sentia aquele músico que, lá no fundo do palco, executava seu ofício somente no último minuto da sinfonia, fazendo vibrar aqueles imensos pratos metálicos ou batendo sem dó as baquetas sobre o couro esticado dos gigantescos bumbos, extraindo assim um som seco e grave como um trovão. Descobri, depois, que não se deve chamar aqueles instrumentos de bumbos - os músicos se referem a eles como tímpanos. Esses músicos ficam duas horas ali, me disse o Zé, observando atentos ao trabalho ininterrupto dos violinos, violocenlos e flautas, à espera de entrar em cena naqueles instantes em que a plateia já está quase pronta para aplaudir e sair da sala. O que eles devem pensar ao longo de toda sinfonia, ele me perguntou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois bem, por uma dessas coincidências, no sábado assisti a uma entrevista do jornalista americano Gay Talese, famoso pelos perfis que publica há mais de 40 anos na imprensa americana. No meio da entrevista, Talese disse que, se fosse convidado a fazer o perfil de algum músico de uma grande orquestra, jamais escolheria o maestro, o spala, os sopranos ou os flautistas. Ele escolheria falar justamente daquele músico que parece trabalhar por apenas um minuto, levantando-se no fundo da orquestra como a dizer que a sinfonia terminou. Talese disse que ficaria ao lado deste músico, quieto, observando seus movimentos e, se fosse possível, tentando adivinhar seus pensamentos no meio daquela imensa massa sonora. Ou seja, tentando adivinhar com o que ele se ocupa enquanto todos ao seu lado já estão trabalhando há um tempão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostei da coincidência, mas gostei ainda mais de algo que o jornalista disse pouco antes de terminar o programa também. É para se pensar muito a respeito, muito mesmo. Aqui vai:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;"O mais importante na vida não são as respostas que temos, mas sim aquilo que nem sabemos como perguntar".&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-322642519910552322?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/322642519910552322/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=322642519910552322&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/322642519910552322'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/322642519910552322'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/07/o-toque-final.html' title='O toque final'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-6928725016823665559</id><published>2009-07-09T21:41:00.003-03:00</published><updated>2009-07-09T21:51:52.018-03:00</updated><title type='text'>Trechos</title><content type='html'>Duas visões do amor para se pensar no fim de semana. Nenhuma foi escrita por mim, mas copiei direitinho. Espero que gostem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sua incorrigível tendência ao exagero se refletia também na questão do amor, pois o que é amar com uma estranha profundidade, silenciosamente, sem ser correspondido, senão amar exageradamente? Exagerava em tudo. E enquanto eu me dizia tudo isso, me perguntei se os que amam dessa forma não são os que pensam que o amor é o essencial e veem no sexo apenas um acidente. Para mim, Fernando estava apaixonado pela ideia do amor e conhecia, portanto, a única fórmula para que ele durasse toda uma vida"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(&lt;em&gt;Do conto Os Amores Que Duram Por Toda Uma Vida, presente no livro Suicídios Exemplares, do escritor espanhol Enrique Vila-Matas)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Você tem que ser maior que os seus sentimentos. Não sou eu que exijo isso de você, é a vida que exige. Se não, você vai ser levado de roldão pelos seus sentimentos. Eles te levarão até o mar e você não será mais visto. Os sentimentos podem ser o maior problema da vida. Os sentimentos podem nos pregar peças terríveis. Eles me pregaram uma peça (...) agora já lidei com estes sentimentos. Me promete que você vai lidar com os seus"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(Do romance Indignação, de Philip Roth, com certeza um dos melhores livros do ano)&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-6928725016823665559?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/6928725016823665559/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=6928725016823665559&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6928725016823665559'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6928725016823665559'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/07/trechos.html' title='Trechos'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-5414484792150438926</id><published>2009-07-07T19:31:00.000-03:00</published><updated>2009-07-07T19:32:18.560-03:00</updated><title type='text'>Bola de cristal</title><content type='html'>Muita coisa para fazer e eu passo praticamente a tarde toda diante da televisão, acompanhando hipnotizado o funeral de Michael Jackson. Fui um entre milhões, acredito. Muitos amigos estavam fazendo o mesmo – e comentavam comigo os discursos e os números musicais por meio de torpedos. Fiquei pensando se havia algo de mórbido em assistir a um programa de televisão em que a metade inferior da tela era ocupada por um caixão. Claro que não estávamos diante de um morto qualquer, mas ainda assim cheguei a me estranhar: quase três horas com os olhos pregados em um programa em que se homenageava alguém que se foi há quase duas semanas – um prazo mais que suficiente, na atual velocidade do mundo, para que qualquer tragédia seja assimilada e esquecida. E ainda assim ainda estávamos ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seria o poder da música de Michael Jackson? Seria o encanto dos seus passos inigualáveis? Seria a última parte de um show de aberrações do qual ele foi protagonista durante os últimos anos? Ou seria apenas a observação curiosa de uma dor que, em último caso, não precisa ser necessariamente a nossa? Ou seria apenas a nossa perplexidade ancestral diante da morte – que por fim irá igualar o mais desafinado entre nós, o mais perna-de-pau entre nós, a um gigante como Michael Jackson? Será que, ao observarmos aquele luxuoso caixão diante do gigantesco palco do Staples Center, em Los Angeles, não pensávamos que, a única certeza que ainda temos, é a de que um dia iremos compartilhar da mesma imobilidade na qual Michael Jackson mergulhou – sem tanta pompa, é claro. Um dia, enfim, seremos todos iguais: mudos e imóveis. Será que é isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mais bizarro que possa parecer, quando a cerimônia terminou eu estava com uma vontade imensa de procurar uma cartomante. Há muitos anos que não procuro uma. Não acredito em quase nada do que elas falam, mas as cartomantes ainda são as únicas a dizer que, com um pouco de cautela, perseverança e cuidado com as pessoas invejosas, todos os nossos planos podem dar certo. E ouvir isso é melhor que tomar Prozac. Para as cartomantes, a pessoa que irá mudar a nossa vida já está a caminho, talvez já tenha até chegado, a gente é que ainda não se deu conta. Se, estranhamente, a tal pessoa ainda não chegou, devemos ficar atentos, porque de setembro não passa. E depois vemos passar setembro, outubro e todos os meses seguintes sem que nada de excepcional tenha ocorrido. E então pensamos que talvez seja setembro do ano que vem – e nos animamos de novo. Isso o Prozac não consegue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E depois elas detectam uma movimentação atípica na nossa vida profissional. Elas enxergam convites irrecusáveis e entrada de dinheiro. Mas novamente nos recomendam cautela, porque alguém em quem confiamos muito pode querer nos passar a perna. Com a saúde também está tudo bem – talvez um pouco de pressão alta e estresse. Por isso nos recomendam descanso e cuidado na alimentação. Por fim, elas nos abrem um sorriso e terminam a consulta assegurando que tudo está conspirando ao nosso favor. Depende unicamente de como iremos aproveitar a chance. Damos uma nota de R$ 50 para elas e saímos felizes de suas salinhas apertadas, coloridas e com cheiro de incenso. Por um ou dois dias, ficaremos ansiosos como quem espera um presente de Natal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí a rotina nos empurra para o trabalho e todos os demais compromissos. No fim de semana seguinte, já teremos nos esquecido da cartomante e de todo otimismo contido em suas previsões. Talvez só nos lembremos de uma única coisa: a de que temos um futuro. Talvez por isso, depois do funeral do Michael Jackson, eu tive tanta vontade de procurar uma cartomante.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-5414484792150438926?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/5414484792150438926/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=5414484792150438926&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/5414484792150438926'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/5414484792150438926'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/07/bola-de-cristal.html' title='Bola de cristal'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-2890150513854193004</id><published>2009-07-03T17:53:00.000-03:00</published><updated>2009-07-03T17:54:12.553-03:00</updated><title type='text'>Assim e não assado</title><content type='html'>Um articulista do jornal Folha de S. Paulo escreveu esta semana um artigo muito curioso sobre como a medicina, mais especificamente a psiquiatria, resolveu tratar como doença, ou síndrome, o que até algum tempo atrás não passava apenas de comportamentos específicos. Assim, práticas como assaltar a geladeira à noite, colecionar coisas antigas, ter dificuldade em se desfazer de papéis sem importância, ser tímido ou expansivo já são assuntos para consultórios médicos – em alguns casos, até com necessidade de medicamento. Pode-se concluir, ao final do artigo, que qualquer comportamento que nos desvie um pouco do que seria o grande consenso social já pode ser curado, reprimido ou adaptado. Em pouco tempo, graças à lábia dos psiquiatras e a prescrição de novas drogas, todas as nossas arestas seriam aparadas – e a sociedade seria composta de pessoas insuportavelmente parecidas. Ou não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensando nisso eu resolvi, mais uma vez, escrever sobre assuntos que eu não domino. E sobre os quais eu deveria manter uma prudente distância – mas a vontade de falar novamente venceu. O artigo, que poderia suscitar uma onda de preocupação e desânimo, me deixou feliz. Feliz por acreditar que nem todos enxergam esta questão pelo mesmo ângulo do articulista e, principalmente, por acreditar que existem pessoas que jogam todas as suas fichas na valorização das diferenças e na obtenção do prazer por meio delas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já revelei aqui que faço terapia há muitos anos e se tivesse de resumir em poucas palavras o que me empurrou para o divã diria que foi justamente a vontade de desaparecer na multidão, de conduzir os meus desejos e anseios na direção das grandes massas, de implodir em mim tudo aquilo que, a princípio, me distanciava da grande conduta social que ensina que crescemos para casar, ter filhos, conservar num emprego fixo, buscar algum tipo de prosperidade e segurança na vida profissional, engolir a rotina em doses diárias e assegurar-se de que a velhice jamais nos encontrará desprevenidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tente fazer de mim uma outra pessoa, talvez eu tenha dito ao meu analista em nosso primeiro encontro. Ou, na medida do possível, faça de mim alguém muito parecido com todo mundo, inclusive na infelicidade. Me enquadre, eu devo ter solicitado. Diante de um pedido tão impositivo, percebo hoje que meu terapeuta precisou de muito tempo e de muito jogo de cintura para me desobedecer sem que eu me desse conta. Precisou de muito tempo para me mostrar que eu só teria algum valor se aprendesse a cultivar tudo aquilo em que eu queria dar fim. Que eu só seria reconhecido como pessoa, principalmente por mim mesmo, se eu percebesse que a diferença que tanto me incomodava era a minha digital neste mundo. Que aquilo que me fazia distinto, e por isso mesmo desconfortável em algumas situações e deslocado na maioria delas, era o que precisava ser cuidadosamente lapidado para se converter em fonte de prazer e alegria. E que se meu desejo às vezes resolvia cortar caminho por algum atalho escuro, que ótimo: era ali que eu seria apresentado à surpresa e ao acaso da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ser o que somos é algo que vamos aprendendo aos poucos. Não costuma ser fácil e muito menos indolor. Mas a alternativa a isso pode ser ainda pior: é a gente se transformar numa fotografia desfocada e arruinada pelo tempo, cujas feições não serão reconhecidas nem por nós mesmos daqui a pouco. E, para encerrar, existe coisa mais prazerosa do que assaltar a geladeira de madrugada, ainda que seja de vez em quando?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-2890150513854193004?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/2890150513854193004/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=2890150513854193004&amp;isPopup=true' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2890150513854193004'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/2890150513854193004'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/07/assim-e-nao-assado.html' title='Assim e não assado'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-8386323078352400982</id><published>2009-06-26T17:23:00.001-03:00</published><updated>2009-06-26T17:23:54.850-03:00</updated><title type='text'>Morreu a coca cola</title><content type='html'>Meu avô tinha um toca-discos que mais parecia uma escrivaninha. Era um móvel robusto, de madeira clara que, à falta de um piano, fazia as vezes de peça de decoração. Talvez por isso ocupasse um lugar de destaque na sala pequena, pesadamente apoiado sobre um tapete grosso. Foi ali que eu ouvi pela primeira vez um disquinho azul, de plástico, com a triste história do garoto Mogli. Eu devia ter entre seis e sete anos e aquele foi meu único disco por um longo período. Eu não devia gostar muito de música. Eu deixava o tal disquinho junto com uma coleção de LPs de Nelson Gonçalves, que eu nunca soube se pertencia ao meu avô ou a um tio solteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando meu avô morreu, por algum motivo resolveram vender o toca-discos junto com a coleção do Nelson Gonçalves. Eu andava muito preocupado com as brincadeiras de rua, as bolinhas de gude e os balões para protestar contra o sumiço do toca-discos. E provavelmente já estava enjoado de ouvir a historinha do Mogli. Naquele dia, a música deve ter saído da minha vida sem grandes traumas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas este jejum sonoro duraria pouco. Algum tempo depois, pedi a meu pai que me desse dinheiro para comprar um disco. De início ele recusou, indagando o que eu faria com um disco quando não tínhamos mais onde ouvi-lo. Primeiro a gente compra um disco, eu me lembro perfeitamente de ter dito. Depois o senhor compra um outro toca-discos para mim. Ele ignorou o pedido por vários dias, até perceber que eu não desistiria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então, num sábado de manhã, com o dinheiro exato para a compra de um disco no bolso, eu tomei um ônibus em direção ao centro da cidade de Jundiaí, onde havia apenas duas lojas de discos naquela época: a Casa Carlos Gomes, com um repertório um pouco mais refinado, e o Credi Curadinho, que vendia temas de novelas e álbuns de artistas nacionais bem mais populares. Entrei orgulhoso na Casa Carlos Gomes e, minutos depois, saí de lá com um disco embrulhado em um plástico branco, com o logotipo da loja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei de ônibus com a altivez de quem carregava uma joia debaixo do braço. Uma jóia e também uma missão espinhosa: convencer meu pai a cumprir a segunda parte do meu pedido e comprar um toca-discos novo – na época chamávamos de sonata. Levou um certo tempo, mas ele cedeu. Naquelas semanas em que eu não tinha como ouvir o disco, eu me contentava em olhar para a capa e ficar o dia todo pendurado no rádio, na esperança de ouvir ali a música que eu carregava nas mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O disco, o primeiro disco que comprei na vida, menino ainda, era One Day in Your Life, de Michael Jackson, cuja letra eu sabia de cor sem conhecer uma palavra de inglês. Nas semanas que passei à espera do toca-discos, eu embalava aquele disco como as meninas embalavam suas bonecas. E quando a sonata finalmente chegou, também num sábado, Michael Jackson, acho que recém-saído do Jackson Five, fez a primeira trilha sonora da minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao ler incrédulo a notícia da morte de Michael Jackson, na tarde triste e chuvosa de quinta-feira, toda esta história voltou com um frescor inimaginável. Se eu fosse apegado a clichês, diria que me lembrei de tudo como se fosse ontem. E por muitos minutos não acreditei na notícia. Como é possível morrer quando se é Michael Jackson? Mais que um nome, mais que um artista – uma marca que nos acompanhou durante toda a vida. É como se alguém dissesse que morreu a Coca Cola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, depois da lembrança do primeiro disco, foram voltando as outras: as festinhas ao som de Off the Wall e Thriller, as intermináveis noites tentando imitar sua dança genial em uma discoteca perdida do interior, os meninos fazendo cara de vilão ao som de Bad, a espera pelo tão anunciado retorno do Jackson Five, a vinda dele ao Brasil... E então, de repente, Michael Jackson vai embora e deixa na gente aquela triste sensação de que a festa acabou. O DJ desliga o som, as luzes vão se acendendo, a cerveja terminou faz tempo e tudo que nossos olhos enxergam quando passeiam pelo salão é uma tristeza quase palpável e um ou outro bêbado esquecido pelos cantos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então a gente tem a certeza de que, naquele chão, grudento com os restos de bebida e bitucas de cigarro, nunca mais ninguém vai deslizar com tanta elegância.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-8386323078352400982?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/8386323078352400982/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=8386323078352400982&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8386323078352400982'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8386323078352400982'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/06/morreu-coca-cola.html' title='Morreu a coca cola'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-6783124503024894399</id><published>2009-06-24T16:27:00.001-03:00</published><updated>2009-06-24T16:27:20.890-03:00</updated><title type='text'>A hora de parar</title><content type='html'>Alguns momentos em nossas vidas se assemelham àquela situação enfrentada por um motorista numa cidade estranha, tendo como referência apenas um mapa equilibrado no colo: por mais que esteja atrasado, ele sabe que, se quiser chegar ao destino, terá de parar o carro para saber onde realmente se encontra. Terá de olhar o mapa com vagar, conferir o trajeto percorrido, verificar se houve erros ou não e estipular que rumo tomar para chegar aonde pretende. Em movimento, ele sabe, é impossível fazer tudo isso sem correr riscos. A lógica e a prudência recomendam uma pausa para o ajuste das rotas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida, penso eu, se mostra assim, às vezes. Temos de nos recolher em algum tipo de silêncio, em algum tipo de refúgio ainda que imaginário, para que o passo seguinte não seja aquele a nos precipitar para o abismo. Os abismos na vida são inevitáveis, cada um de nós sabe disso. Não apenas inevitáveis, eles são traiçoeiros e peritos em surgir no que julgávamos ser a planície dos nossos sonhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o tempo, a sucessão de quedas e uma dose de experiência que nunca se revelará suficiente, aprendemos a farejar a proximidade do abismo como os gatos percebem o pequeno inseto invisível aos nossos olhos. E então temos a chance de parar um pouco, de tentar conter a onda que se agiganta à nossa frente, ou ao nosso redor, e optar por uma segurança que talvez só a solidão e a quietude nos reservem. Ainda que uma falsa segurança, é provável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poderia ser tão bom, se parar não fosse muito mais difícil do que prosseguir, do que deixar-se arrastar pela ilusão de um vento suave, do que ceder a todos os apelos que nos chegam por cada um dos nossos sentidos. Parar um pouco não significa dizer não à vida, represar as marés, fazer calar todos os gritos altos e incômodos. Parar um pouco significa apenas isso mesmo: parar um pouco. Como o motorista que, em movimento, não consegue mais reconhecer o cenário daquela cidade estranha em que ele acabou de chegar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, por mais que seja premente parar, ainda resta uma questão em aberto: o que fazer diante de todo este silêncio, de todo este dolorido e prolongado silêncio, que a pausa nos traz?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-6783124503024894399?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/6783124503024894399/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=6783124503024894399&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6783124503024894399'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6783124503024894399'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/06/hora-de-parar.html' title='A hora de parar'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-4988987038793985646</id><published>2009-06-21T10:50:00.002-03:00</published><updated>2009-06-21T10:54:49.714-03:00</updated><title type='text'>A luz de Jesus</title><content type='html'>Lendo as notícias sobre os desfiles da São Paulo Fashion Week, vejo que o modelo Jesus Luz já se tornou mais inacessível que Gisele Bundchen. Fiquei com um pouco de pena dele, de verdade. Dele e de todas as pessoas que não se dão conta das armadilhas ocultas atrás da fama repentina, da notoriedade sem alicerce e sem trabalho. Pena das pessoas que acreditam que é possível se deitar como larva e acordar borboleta na manhã seguinte – sem entender que a noite da metamorfose é longa e suada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A notícia me fez divagar sobre a segurança de ser e os riscos de estar. Gisele Bundchen é Gisele Bundchen nesta e em inúmeras outras temporadas vindouras porque rodou quilômetros de passarela para isso. Jesus Luz está Jesus Luz e não cabe a ele decidir por quanto tempo deve durar seu reinado de barro. Jesus Luz está Jesus Luz porque um dia Madonna decidiu desviar para ele  algumas dezenas dos milhões de refletores que sempre estiveram voltados para ela. E então, por obra e graça de Madonna, Jesus encontrou um pouco da luz que até então só exibia no sobrenome. Mas é dela a mão que comanda o interruptor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia - e se levarmos em consideração o humor das grandes estrelas, este dia pode estar próximo -, Madonna irá chamá-lo para comunicar o seguinte: “Você já brincou demais de Jesus, mas o Deus aqui sou eu. A partir de hoje, você não se senta mais à minha direita e nem poderá mais caminhar à minha sombra”. Neste dia Jesus irá perceber o quanto doi ser um anjo caído e sem grife.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se eu fosse Jesus Luz, eu aproveitaria meus segundos de fama para multiplicar não apenas pães e peixes, mas amigos e simpatias. Iria procurar me cercar de afetos, de algumas amizades sinceras, me tornaria acessível e simpático ainda que fosse por interesse, pois a estação de Madonna passa, mas Jesus deve se cuidar para estar sempre na moda. Se eu fosse Jesus, depois de fazer xixi no meu banheiro químico, eu abriria as portas do meu camarim e, com um imenso sorriso no rosto e as mãos estendidas, diria quase em tom de prece: vinde a mim os jornalistas, os fashionistas, os estilistas e os empresários, pois, ao menos nesta semana, é de vocês o reino dos céus! E tentaria distribuir minha graça entre os humildes que se acomodam da terceira fila em diante nos desfiles. Mas, acima de tudo, se eu fosse Jesus, eu tentaria aprender com Gisele Bundchen, uma das mais belas criações do Deus Pai, este sim todo poderoso. Todo o resto é pecado da carne.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-4988987038793985646?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/4988987038793985646/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=4988987038793985646&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/4988987038793985646'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/4988987038793985646'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/06/luz-de-jesus.html' title='A luz de Jesus'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-5035392451768162650</id><published>2009-06-14T13:31:00.000-03:00</published><updated>2009-06-14T13:32:03.194-03:00</updated><title type='text'>Escova de dentes</title><content type='html'>Conheci uma jovem médica no feriado de Corpus Christi. Loira, bonita, sorriso fácil e dona de um humor difícil de ser decifrado à primeira vista,  ela me foi apresentada por um amigo, também médico, na comemoração do seu aniversário em um bar da Vila Madalena. Ao ser informado de que ela fazia residência médica, automaticamente perguntei em qual especialidade. “Anatomia patológica”, ela me respondeu. “Lâminas, eu só quero lâminas na minha frente”, completou antes de dar mais um gole em seu copo de cerveja. Soube que medicina foi a terceira carreira universitária a que ela deu início – e a única que concluiu. Antes, havia estudado línguas e cinema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conversei tanto assim com ela, até porque fiquei pouco no aniversário. Mas tive a chance de ouvir uma frase, uma frase longa, que agora está martelando na minha cabeça. Sem nenhum resquício de mágoa ou morbidez, ela me disse o seguinte: “Se soubéssemos como algumas coisas iriam terminar, nós não as teríamos começado”, disse antes de soltar um longo sorriso. “Se soubéssemos como algumas coisas iriam terminar, talvez não fizéssemos nada. Nem da higiene pessoal eu cuidaria, nem os dentes escovaria. Apenas ficaria quieta”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é algo que se diz impunemente, pensei. E nem a qualquer um. Ela não se dirigia especificamente a mim. Jogou esta frase na mesa, em um momento oportuno, admito, mas não sei se alguém carregou a frase para casa como eu fiz. E agora não paro de pensar quais coisas eu não teria começado se eu soubesse, de antemão, como elas terminariam. Claro que neste pensamento cabem respostas radicais: a gente poderia se matar ainda no berçário alegando já saber que nosso fim é o túmulo. Mas eu prefiro uma interpretação mais sutil e mais carregada de possibilidades. Talvez o importante não seja saber como as coisas vão terminar, mas o que faremos com elas, ou o que elas farão com a gente, neste longo intervalo entre o início e o fim. Algo me diz que não são as extremidades que importam tanto neste caso, e sim o recheio. Como eu pretendo continuar escovando meus dentes, talvez seja melhor não saber como será o fim de algumas coisas nas quais me apego – ou não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A frase me atormentou porque, de certo modo, me obrigou a uma revisão inesperada da minha vida. Algumas coisas muito boas que eu tive terminaram em dor: a dor da perda, da separação, da ausência, da incompatibilidade, do abandono, da saudade. A dor da solidão. A dor que é inerente às coisas que terminam e que foram um dia boas. E terminam porque tudo nesta vida tem de terminar – tenhamos ou não culpa ou responsabilidade pelo desfecho. Então eu me pergunto, caso fosse me dada a chance, se eu deixaria de ter vivido o que vivi em determinado momento para me safar de uma dor futura? Penso que a resposta é não. Eu não teria aberto mão dos momentos felizes que mais tarde, por um desvio qualquer que minha vida tomou, me deixaram com os olhos sem brilho. Me lembrei de um amigo que costumava dizer que não acreditava nos momentos felizes prometidos pelas drogas. “A gente tem de fazer por merecer a felicidade”, ele me dizia. “A felicidade, além de não nos chegar sem luta, custa muito mais caro do que um papelote de cocaína”, ele me ensinou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penso que as coisas boas são boas em sua essência, e não deixam de ser boas porque em algum momento não podemos mais contar com elas. Quem sabe este seja o princípio da saudade, não sei. Prefiro seguir sem saber o que me aguarda e mesmo hoje, especificamente hoje, quando estou sendo mais movido pela saudade que pelo prazer, quero continuar escovando meus dentes direitinho. Uma hora dessas, mais cedo do que a gente imagina, a gente volta a sorrir. A sorrir do inesperado, do imprevisto e do acaso. A sorrir justamente porque a gente não sabe como as coisas vão terminar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-5035392451768162650?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/5035392451768162650/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=5035392451768162650&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/5035392451768162650'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/5035392451768162650'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/06/escova-de-dentes.html' title='Escova de dentes'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-27756071921553144</id><published>2009-06-08T17:55:00.000-03:00</published><updated>2009-06-08T17:56:36.082-03:00</updated><title type='text'>A crise do macho</title><content type='html'>Tenho ouvido falar com muita frequência em uma tal crise do macho. Nas últimas semanas, li com interesse várias matérias publicadas sobre este assunto. Soube até, pelos jornais, que esta crise serviu de tema para um concorrido debate promovido por intelectuais de respeito. Talvez eu esteja com a sensibilidade um pouco atrofiada, mas confesso que, mesmo depois de tanta leitura, não consegui identificar crise alguma que não fosse a financeira. Em primeiro lugar, acho que o termo macho já soa defasado e até um pouco grosseiro. Quando inverto os padrões, percebo que nem meus amigos mais safados se referem à mulher como fêmea. Sendo assim, macho também não pega muito bem. Macho em crise, então, é algo que eu realmente não tenho visto.&lt;br /&gt;Tenho muitos amigos com as mais variadas orientações sexuais: alguns são gays, outros héteros, outros se assumem bissexuais, há os casados, os solteiros, os que dão muita importância ao sexo, os que sublimam um pouco este tema, os que moram juntos e gostam, os que moram juntos e não gostam tanto, os que não querem morar junto de jeito nenhum – enfim, uma amostragem que faria a alegria de qualquer instituto de pesquisa. Pois bem, quando converso com eles, esta tal crise do macho nunca entrou no cardápio. Será que eles não sabem que a gente deveria estar em crise? E olha que a maioria deles é bem antenadinha, viu. Se a crise do macho estivesse na moda, garanto que pelo menos a metade deles já estaria surtando só para não perder este hype.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leio nas matérias que o macho quer carinho. Mas só os machos? Que o macho quer ter os seus sonhos e desejos respeitados. Sim, eles e a torcida do Corinthians antes e depois da contratação do Ronaldo Fenômeno. Que o macho quer chegar em casa e encontrar alguém que lhe dê atenção. Que o macho sente-se frustrado por não conseguir atender suas demandas financeiras e daqueles que o cercam ou dele dependem. Que o macho isso, que o macho aquilo, que o macho não consegue ser o super homem que ele foi educado para ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em primeiro lugar, é bom que se tenha em mente que o super homem da nossa geração, o belo e talentoso Christopher Reeve, caiu do cavalo e morreu. Nossa geração viu o nosso super homem definhar em uma cadeira de rodas. Se existe morte mais representativa de que é muito perigoso ser o super homem nos dias de hoje eu desconheço. Como também desconheço qualquer amigo, em qualquer fase da vida, que tenha me dito, com todas as letras, que foi criado para ser um super homem e fracassou. Eu e meus amigos podemos ser divididos em dois grandes grupos: os que foram criados para ser médicos, engenheiros, dentistas e advogados – e conseguiram; e os que foram criados para ser médicos, dentistas, engenheiros e advogados e não conseguiram. Não conheço ninguém que tenha sido criado para ser super homem. No máximo, astronauta. Ou seja, nenhum de nós, nos últimos 50 anos, acredito eu, fomos criados para voar sozinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos em crise, sim. Mas não esta crise do macho, que me parece tão preconceituosa e limitadora. Estamos em crise porque somos gente, e não por que percebemos, a contragosto, que nossas mulheres se viram obrigadas a trabalhar fora para ajudar no sustento da casa – coisa que nós, homens, não conseguimos fazer mais sozinhos. Quando meu irmão nasceu, e ele é mais velho que eu, minha mãe já trabalhava fora. E estamos falando da década de 60, antes do feminismo, de Sartre, de Simone de Beauvoir e de Woodstock. E não me lembro de ver meu pai entristecido pela casa ao ver sua querida esposa partir para o trabalho. Que macho é este que entraria em crise ao ver sua companheira levando adiante uma carreira? Que macho é este, só recentemente descoberto, que precisa de carinho e atenção? Eu acho que até mesmo o homem primitivo, quando arrastava sua parceira pelos cabelos para algum canto escuro das cavernas, devia-lhe dizer: pô, benzinho, acabei de enfrentar um mamute. Será que eu não mereço um beijinho, hein, hein???&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossa carência é ancestral, nossa incapacidade de atender a todas as expectativas é atávica, nosso desejo não tem fim, em nossa ansiedade nem Lexotan dá jeito, nosso medo de morrer sem deixar uma marca de que um dia passamos por aqui é absoluto, nossa insegurança diante de qualquer decisão é constante, nossa busca por um amor que nos complete constitui um trabalho para uma vida inteira, e acima de tudo, nossa dúvida de que jamais chegaremos lá nunca vai nos abandonar. Que bom se tudo isso fosse somente a crise do macho. Eu iria para o Marrocos, cortaria o pingolim e voltaria como uma mulher feliz e realizada. Quem quer apostar que, ainda que a gente corte o pingolim, o buraco ainda vai continuar sendo mais embaixo?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-27756071921553144?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/27756071921553144/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=27756071921553144&amp;isPopup=true' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/27756071921553144'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/27756071921553144'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/06/crise-do-macho.html' title='A crise do macho'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-6858632513060320651</id><published>2009-05-27T18:27:00.001-03:00</published><updated>2009-05-27T18:29:30.296-03:00</updated><title type='text'>Assim é, se lhe parece</title><content type='html'>Eu olho para este espaço e sinto que estou fraquejando na minha determinação de escrever ao menos duas vezes por semana. Gostaria de escrever mais, muito mais para ser sincero. Às vezes, falta tempo; em outras, inspiração. Costumo anotar ideias para desenvolver mais tarde aqui, tento guardar na cabeça alguns fatos do cotidiano, alguns pensamentos que passam correndo e eu tento aprisionar. Não bastasse o compromisso com o blog, inventei de entrar no twitter também, mas praticamente já desisti. Senti que tudo vai se transformando em um tipo de obrigação que eu não estou disposto a cumprir. Mais uma. Volto ao blog quando, mais do que a necessidade de atualização, o que eu sinto mesmo é um prazer imenso em teclar uma coisinha ou outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos últimos dias, talvez por influência da peça que estreou na semana passada e daquela que estreia no dia 19 de junho, eu ando pensando muito em produção. No ato de produzir, qualquer que seja o produto decorrente deste ato: uma peça, uma matéria, um comentário neste blog, um jantar para os amigos, uma panela de molho de tomate para ser congelado e usado depois, numa noite de fome e geladeira vazia; qualquer coisa a que podemos dar o nome de obra. E resolvi falar sobre produção porque acho que finalmente compreendi algo muito bonito e, acima de tudo, muito libertador: eu compreendi que as pessoas não precisam gostar do que eu faço para que eu possa me sentir bem e razoavelmente realizado. Aprendi que é fundamental tirar das nossas costas o peso de agradar a todos ou ao menos a aflição de esperar pela aprovação alheia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é algo fácil de aprender e acredito que eu nem tenha assimilado isso totalmente, mas começar a trabalhar com esta idéia já torna o nosso caminhar muito mais leve e prazeroso. Se aceitarmos que nem todos precisam gostar do nosso trabalho, não nos sentiremos tão injustiçados com as críticas e a indiferença que assombram a vida de qualquer criador. E talvez venhamos a ter alguma noção de nossa real importância, do nosso real tamanho neste mundo. Já disse aqui, no comentário anterior, que tive o prazer de entrevistar a fabulosa Fernanda Montenegro na semana passada. Passei 40 minutos com ela, que aceitaria trocar facilmente por 40 semanas de dias mal vividos. Na metade da entrevista, ao falar sobre Deus, ela disse algo mais ou menos assim: “Deus, ah, Deus... Eu acredito que Deus tenha coisas muito mais sérias com o que se preocupar do que uma pecinha que uma tal de Fernanda Montenegro está pensando em fazer num lugar chamado Brasil”. Seguindo este raciocínio, se Deus tem pouco tempo para pensar na grandeza de uma Fernanda Montenegro, é bem provável que ele tenha menos tempo ainda para pensar em quem não chegou tão longe. Como eu e quase todos nós. E ele não está sozinho nesta determinação. Ao lado dele, há centenas, milhares de pessoas que talvez não estejam mesmo interessadas no que venhamos a fazer. Ou por não gostarem daquilo que fazemos ou simplesmente por não terem interesse em tudo o que temos a dizer e a mostrar. E como é bom que isso aconteça, como é (com perdão por repetir a palavra) libertador aceitar que nossa voz não precisa chegar aveludada a todos os ouvidos. Como é bom, enfim, compreender sem mágoas que as pessoas, legitimamente preocupadas com suas vidas, têm o direito inegável de voltar seus interesses e afeições para outra coisa que não sejamos nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou falando sobre isso para revelar, por fim, que hoje eu sinto menos pavor quando um trabalho meu começa a mostrar as caras. Já disse aqui, também, o quanto as peças Ensaio Para um Adeus Inesperado e A Noite do Aquário são textos caros e doloridos em minha vida. Eu olho para eles e sinto que eles sintetizam o que eu poderia fazer de melhor no momento e nas condições em que eles foram criados. Em outra época, talvez eles saíssem mais refinados e sensíveis; em outras épocas, quem sabe, poderiam resultar menos sinceros também. Então entendo que, no momento exato em que foram gerados, eles levaram de mim toda a potencialidade que eu tinha conseguido acumular na vida até aquele instante. E, justamente por serem tão caros a mim, não posso colocar sobre as costas deles, os textos, a terrível obrigação de encantar a todos que um dia vierem a ter contato com eles. Haverá, e espero que sejam muitos, os que sairão comovidos deste provável encontro, outros dirão que tudo pode não passar de uma grande bobagem. E é exatamente nesta discordância e neste desequilíbrio que está toda a graça da vida, que está todo o desafio e a beleza de escrever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como tudo aquilo que se pretende belo, a exemplo do amor, da amizade e do afeto possível, os textos (e outras coisas que por ventura viemos a produzir) também podem se revelar de uma fragilidade suprema. E, por serem frágeis, por serem no fundo um amontoado de palavras dispostas com a intenção de produzir algum significado, os textos podem desmoronar com a brisa leve que entra por uma fresta da janela que esquecemos aberta. Entender e aceitar que estes textos vieram ao mundo é o máximo que eu posso esperar deles. Ambicionarr que todas as pessoas, todas as pessoas indistintamente gostem deles, é exigir demais. Deles, de mim e das pessoas. Só assim outras coisas nascerão, seja para o aplauso, seja para o dolorido silêncio. E ainda bem que é assim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-6858632513060320651?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/6858632513060320651/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=6858632513060320651&amp;isPopup=true' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6858632513060320651'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/6858632513060320651'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/05/assim-e-se-lhe-parece.html' title='Assim é, se lhe parece'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-3904803074835009805</id><published>2009-05-22T19:03:00.001-03:00</published><updated>2009-05-22T19:03:28.442-03:00</updated><title type='text'>Lygia e Fernanda</title><content type='html'>Tenho medo da passagem dos anos, desta irritante mania que os dias e as semanas têm de terminarem antes que a gente consiga fazer algo de produtivo. Este medo, às vezes, ganha contornos de pavor, quando acordo assustado com a minha própria idade, com a incapacidade de me lembrar do que fiz em determinadas épocas, dos lugares em que eu estive ou deveria ter estado e de ter cada vez mais a certeza de que esta contabilidade da vida, em que colocamos de um lado os anos vividos e do outro os feitos e as aspirações, nunca vai resultar em uma conta fechada. Tenho um amigo que, sempre que eu falo sobre estas inquietações, ele me recomenda calma, alegando que este poço sem fundo que é o nosso desejo um dia vai ser preenchido sim: preenchido com a última pá de terra sobre o nosso caixão. Enquanto houver vida, ele me diz, é bom que você se acostume com este buraco para sempre incompleto. E na ânsia para preencher o “impreenchível”, penso que a gente gostaria de ser mais jovem, ou ao menos ter mais tempo, sem necessariamente ser mais jovem. Ou seja: outra equação de difícil solução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas últimas semanas, no entanto, tive a chance de ouvir as sábias palavras de duas mulheres excepcionais. A primeira foi Lygia Fagundes Telles, sobre quem já falei aqui há alguns dias. A outra foi Fernanda Montenegro, com quem conversei por quarenta minutos na noite de terça-feira. Ao falar sobre literatura, a primeira, e sobre teatro e cinema, a segunda, as duas discorreram basicamente sobre a vida, a vida de homens e mulheres, a vida dos jovens, a vida dos que já não estão mais vivos e, quando voltaram o assunto para si próprias, a vida de quem está na casa dos 80 anos ou ainda um pouco além.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei se Lygia e Fernanda podem servir de exemplo do que significa chegar bem aos 80 anos. As duas tiveram seus talentos reconhecidos desde muito cedo, tornaram-se mestres em suas artes, colecionaram prêmios aqui e lá fora, vivem do seu trabalho e parecem nunca ter tido sua vocação questionada. É como se tivessem nascido para ser duas gatas alisadas pelas mãos carinhosas do destino. Mas este destino, com certeza, não as poupou dos dissabores e das tristezas reservados a cada um de nós: do jeito delas, é muito provável que sofreram também, que choraram suas perdas, que em algum momento tenham-se sentido derrotadas e inúteis e que, numa noite fria de São Paulo ou sob o sol de Ipanema tenham-se perguntado se afinal valia a pena continuar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então, durante a palestra que assisti com Lygia Fagundes Telles no Sesc Vila Mariana e a entrevista com Fernanda Montenegro num hotel no Alto de Pinheiros, vejo duas mulheres acima de tudo íntegras, fortes, sedentas por mais tempo, mais vida e mais trabalho, doidas por um pouco mais de serenidade e vigor físico, apaixonadas pelo novo e pelos jovens, seguras da honestidade de seus trabalhos, pacificadas enfim. Passei alguns dias pensando que devia haver outra coisa a ligar estas duas mulheres além de tudo isso que acabo de citar, um denominador que imprimisse no rosto das duas, além das rugas expostas com orgulho e coragem, uma certa quietude. E, dentro do meu raciocínio psicanalítico mais raso que um cálice de vinho do Porto, acredito que o que as unia era, principalmente, a ausência de mágoa. Os dois rostos, mapeados por tantas histórias e tantas vivências, pareciam não reservar lugar para as mágoas – de alguma maneira, é como se tudo ali tivesse sido resolvido. E, mais que isso, como se tudo tivesse sido compreendido e perdoado. Talvez até mais perdoado do que compreendido – mas esta equação sim estava resolvida no semblante das duas grandes damas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estes dois encontros me mostraram que envelhecer pode ser ótimo. Desde que, na impossibilidade da compreensão, a gente saiba ao menos lidar bem com o perdão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-3904803074835009805?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/3904803074835009805/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=3904803074835009805&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/3904803074835009805'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/3904803074835009805'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/05/lygia-e-fernanda.html' title='Lygia e Fernanda'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-7407809142528056304</id><published>2009-05-19T17:19:00.002-03:00</published><updated>2009-05-19T17:30:00.394-03:00</updated><title type='text'>Primeiro sinal</title><content type='html'>Nesta quarta-feira, dia 20, entra em cartaz no auditório do Sesc Vila Mariana, às 20h30, o projeto Dueto da Solidão,  espetáculo composto por dois textos de minha autoria, Ensaio Para um Adeus Inesperado, que abre a programação, e A Noite do Aquário. As duas peças são dirigidas por Sérgio Ferrara e contam com a presença sempre luminosa da atriz Clara Carvalho, que vive duas mães de diferentes épocas e essência, mas semelhantes no seu sentimento de perda. O elenco se completa com um trio de jovens e talentosos atores, os já amigos Chico Carvalho, Gustavo Haddad e Leonardo Miggiorin. O espetáculo ficará em cartaz até o fim de julho, somente nas noites de quarta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Raramente eu uso o espaço deste blog para falar dos projetos em que estou envolvido. Resolvi abrir uma exceção desta vez por alguns bons motivos. O primeiro deles é o fato de eu ter me cercado de gente tão querida e empenhada em levar adiante estas duas peças intimistas que não precisam de quase nada para ocupar o palco: uma mesa, alguns copos, uma jarra de água e um velho baú. Não acompanhei os ensaios, mas soube que, em sua busca pela concisão, o diretor Sérgio Ferrara aboliu até a trilha sonora, que já era tão mínima. Diretor e elenco resolveram contar as duas histórias confiantes apenas no poder que as palavras têm de criar imagens. No fundo, era o que eu queria também. Um espetáculo intimista, de emoções calculadas. Pequeno como pode ser pequena a vida daqueles que perdem. Ou se deixam perder pelo caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto ao segundo motivo, eu não chegaria a dizer que ele é o mais importante, mas é o mais caro para mim. Tenho um grande carinho, e às vezes alguma saudade, de todas as peças que escrevi, mas A Noite do Aquário brotou após um período de mudez criativa. O texto foi escrito no início de 2007, quando eu, por algum motivo, acreditava que o pouco que eu havia dito até então era tudo o que eu tinha para dizer. Antes de começar a escrever esta peça, atravessei um período grande em que não tinha ideia para um diálogo sequer, o que dizer de uma história inteira. Eu me esforçava por fazer anotações, por pesquisar, por ouvir casos e casos no intuito de levar para o palco um fiapo de narrativa que fosse. Mas nada vingava.  Cheguei a pensar que era isso, então: aquela voz que tinha me levado a escrever pelos quatro anos anteriores, período no qual nasceram, entre outros, os textos de Andaime, O Encontro das Águas e Abre as Asas Sobre Nós, tinha se calado. Nunca mais um personagem, nunca mais uma história, nunca mais o prazer solitário de presentear com perguntas e respostas toda aquela gente que até então brotava do teclado do computador com relativa facilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, eu disse ao terapeuta que aquele dom, ou aquela habilidade, não sei que nome dar a isso, que tinha me visitado já tão tarde na vida, resolveu partir, me deixando no mais completo silêncio e abandono. Ele apenas ouviu. Eu continuei, dizendo que sentia fisicamente a dor daquele abandono (e quem escreve, canta, pinta, dança, toca um instrumento já deve ter ficado apavorado diante da perda da inspiração) e que eu acreditava, por antecipação, que seria muito difícil viver sem as histórias. Me lembro de ter dito que era uma perda semelhante à de um amigo querido que se vai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de várias semanas, algumas imagens foram aos poucos tomando forma na minha cabeça: a imagem de uma casa num litoral perdido, castigada pelo vento e pela areia, onde viviam uma mãe tão árida quanto o clima ao seu redor, na companhia de um filho caçula que, contrariando todas as expectativas, recusava-se a abandoná-la. Um dia, o filho mais velho, que um dia partiu daquela praia tão melancólica para trabalhar na construção de Brasília, resolveu voltar para resgatar afetos e pedaços de vida esquecidos como seixos à beira-mar. Para os que haviam ficado, o retorno do filho aventureiro era um sinal de que a vida estava voltando ao eixo. Uma noite serviu para provar que o engano não podia ser maior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu coloquei o ponto final em A Noite do Aquário, respirei aliviado. As histórias estavam voltando e, embora nunca seja fácil lidar com elas, não há nada que se assemelhe ao temor de sua ausência. Depois disso, vieram A Coleira de Bóris e Ensaio Para um Adeus Inesperado, que nesta quarta vai ganhar a luz pela primeira vez. Tanto os personagens da Coleira quanto do Ensaio não têm nome, o que lhes dá a chance de ser qualquer um de nós, ainda que por alguns momentos. Por tudo isso resolvi falar um pouco das peças aqui, que talvez se assemelhem um pouco às pessoas: quando elas estão por perto, nos rodeando, é preciso ter muita dedicação e paciência, mas quando elas vão embora sem avisar, chega a ser triste demais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-7407809142528056304?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/7407809142528056304/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=7407809142528056304&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7407809142528056304'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/7407809142528056304'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/05/primeiro-sinal.html' title='Primeiro sinal'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-3667063971541882576</id><published>2009-05-14T16:09:00.000-03:00</published><updated>2009-05-14T16:10:34.613-03:00</updated><title type='text'>No fim de tudo, a beleza</title><content type='html'>Um amigo muito querido, citando um notório psicanalista, me disse há algum tempo que sempre que estivermos em dúvida diante de algo novo, seja um projeto, uma perspectiva de emprego, uma situação inusitada, um convite ou até mesmo um espetáculo, devemos nos deixar guiar pela beleza. Segundo ele, a presença da beleza seria o principal indicativo de que esta novidade (talvez nem precise ser uma novidade) merece o nosso crédito. Acredito que ele não se referia à beleza como um conceito estético, pois nem sempre é pelo olhar que o belo se nos revela. Penso que ele falava da beleza como uma coisa mais abstrata, talvez algo ligado ao prazer, não sei ao certo. Provavelmente a beleza como um ensinamento. O que eu sei é que, embora aparentemente simples, ou talvez em função mesmo desta simplicidade, esta é uma daquelas lições que podem nos acompanhar para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde aquela nossa conversa, que gerou inúmeras outras, eu confesso que passei a procurar sempre pela beleza nos momentos de dúvida. Por algum tipo de beleza, mesmo a beleza que pode se esconder atrás do erro ou do descaminho. E, embora eu seja novato nesta busca, posso assegurar que não se trata de tarefa fácil. Encontrar a beleza num filme, na voz humana gravada em alguma canção de qualidade, nas páginas de um livro, nas tintas de um quadro, no sorriso de uma criança, na imagem de uma mulher amamentando, tudo isso chega a ser tranqüilo diante da dificuldade de detectar a beleza quando somos obrigados a dizer ou a ouvir um não, quando temos de nos despedir de algo que nos é caro, quando a vida nos surpreende com o inesperado, quando as nossas esperanças se tornam frágeis, quando a única voz que ouvimos é a nossa própria, quando a noite demora a ir embora, quando somos obrigados a encontrar algum tipo de força em lugares em que ela aparentemente não se encontra, quando os nossos pensamentos insistem em voltar para a cena do crime, seja lá qual for o crime, enfim, quando estamos determinados a ir para algum lugar aonde ninguém pode nos alcançar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É nestas horas que a busca pela beleza se configura num grande desafio. Porque tudo isso descrito ali em cima em algum momento vai nos assaltar, ou hoje ou daqui a pouco. Encontrar a beleza, creio eu, talvez seja encontrar um significado e uma razão para o que nos contraria, talvez seja se agarrar à certeza de que cada uma das experiências que a princípio não se revelam belas, pode nos tornar um pouco mais belos com a superação. Eu particularmente não gosto de rosas, mas agora vejo que é bem provável que a beleza das rosas esteja no lugar que ela ocupa no mundo: equilibrada em cima de galhos finos, ressecados e cobertos de espinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mais importante para mim eu percebi, desde aquela conversa, não é o ato final de encontrar a beleza, mas a manutenção de sua busca, na esperança talvez vã de que em algum momento ela pode mesmo se revelar. E, mais importante ainda, é ter encontrado alguém com a delicadeza de me ensinar esta lição. Tão fácil, mas que eu passarei o resto da vida tentando exercitar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-3667063971541882576?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/3667063971541882576/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=3667063971541882576&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/3667063971541882576'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/3667063971541882576'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/05/no-fim-de-tudo-beleza.html' title='No fim de tudo, a beleza'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2455730819023338282.post-8402482138504634453</id><published>2009-05-11T16:40:00.002-03:00</published><updated>2009-05-11T16:51:31.665-03:00</updated><title type='text'>E aí, vai encarar?</title><content type='html'>Outro dia me flagrei em uma banca de jornal bisbilhotando um livrinho de bolso chamado A Arte da Guerra, do chinês Sun Tzu, um manual sobre estratégias de combate que teria sido escrito bem antes de Cristo. Não sei por qual motivo, mas me lembro que, há uns dois ou três anos, vários amigos atores falavam muito deste livro que, pesquisando depois, descobri que teria sido adotado por Napoleão Bonaparte e Hitler em suas campanhas – ainda que eu não saiba se esta informação tenha alguma relevância. Li uns dois ou três conselhos apenas e já me dei por satisfeito, pois sinceramente não me vejo entrincheirado à espera de enfiar uma baioneta na barriga do inimigo, por mais metafórica que esta imagem possa ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixei a banca pensando não na guerra, que acho hiperbólica demais, mas nas brigas cotidianas. Eu sempre achei que saber brigar também é uma arte, mas não me lembro de ter visto algum manual que nos ensine a entrar – e principalmente a sair – de uma briga com pose de herói. E não estou falando dos combates físicos, destes que podem terminar em sangue e tiros. Estou falando dos acalorados embates de ideias, que no máximo resultam em socos na mesa ou e-mails malcriados. Pensei nisso porque eu sempre fui um verdadeiro fiasco nas brigas. Passei a infância toda muito longe da imagem do valentão do bairro e confesso que não me lembro de quando foi a última vez em que ergui a voz contra alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que isso não faz de mim um gentleman, ou um cara diplomático e ponderado. Talvez eu até seja um pouco, mas a questão não é esta: a questão é que eu não sei mesmo brigar. Porque a briga, na minha opinião, não se limita necessariamente ao instante em que ela ocorre – essencial é saber como agir depois dela. É muito comum ouvirmos que alguém é estourado, que reclama alto se não gosta de alguma coisa mas que, cinco minutos depois, já está tudo bem. Já tive chefes assim e acredito que muita gente também teve. E dominar este tipo de conduta, penso eu, é quase uma arte: saber elevar por um instante a temperatura de uma discussão e, no momento seguinte, tenha-se ou não chegado a um consenso, dar um tapinha nas costas do adversário e convidá-lo para um café. Nunca consegui esta proeza na vida, por isso faço o possível para evitar as brigas: sei que vou precisar de muito tempo para voltar ao normal, esquecer as mágoas que me causaram e aquelas que eu causei. E estas, para mim, são as piores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas poucas vezes em que briguei, eu acredito que estava com a razão em algumas situações. Mas minha consciência pesava tanto, justamente por ter cedido à tentação de brigar, que eu costumava procurar a pessoa com quem havia brigado e me desculpar até do que eu não tinha feito. Talvez seja um sinal de fraqueza, covardia até, mas eu nunca soube mesmo lidar bem com o day after das brigas: eu sempre achei que a situação poderia ter sido evitada. Se não pelo outro, ao menos por mim. E, com o tempo, descobri uma coisa: para mim, hoje, é preferível relevar algumas opiniões com as quais não concordo, a ter de sair por aí batendo boca com deus e o mundo. Isso não quer dizer que eu não lute para fazer valer minhas opiniões também, mas, ao contrário do que deve ensinar Sun Tzu em sua milenar Arte da Guerra, estou me tornando um perito em bater em retirada diante da ameaça do primeiro tiro. Minha aversão por brigas é tamanha e o tempo que levo para digeri-las é tão grande que, vez ou outra, tendo a concordar que o sol é quadrado só para poupar eventuais mágoas. Não abro mão de minhas convicções, é claro, mas elas não saem mais da minha boca aos berros e com as veias do pescoço infladas. Quem quiser que grite à vontade, pois eu, a cada dia, estou me tornando mais amigo do sussurro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu acho que este meu método anti-Sun Tzu só tem uma contra-indicação, pois meus estudos militares ainda não estão devidamente concluídos: eu tenho medo de que, ao evitar, ou mesmo fugir, do inimigo externo, a gente acabe criando um invencível inimigo interno. E então, todas aquelas batalhas que deveríamos travar com os outros, serão transferidas para a nossa própria alma, e passaremos anos e anos nos combatendo, nos ferindo e nos sangrando, com o mais terrível dos agravantes: quando nós mesmos somos os autores das nossas mágoas, normalmente esquecemos de nos pedir perdão no dia seguinte.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2455730819023338282-8402482138504634453?l=roveriblog.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://roveriblog.blogspot.com/feeds/8402482138504634453/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2455730819023338282&amp;postID=8402482138504634453&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8402482138504634453'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2455730819023338282/posts/default/8402482138504634453'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://roveriblog.blogspot.com/2009/05/e-ai-vai-encarar.html' title='E aí, vai encarar?'/><author><name>Só no blog</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12120145273549051338</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://4.bp.blogspot.com/_XPX4ZX-frsU/SNhkNPjpssI/AAAAAAAAAFo/_j0fRTAzRcI/S220/3e45.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry></feed>
